Em 2016, a Apple abandonou os planos para dar aos utilizadores total encriptação dos dados que guardam na iCloud, o sistema de armazenamento na nuvem da marca. A decisão surgiu depois de o FBI (a polícia de investigação dos EUA) se queixar de que a medida iria prejudicar investigações, avança a Reuters. A agência de notícias cita fontes desta autoridade norte-americana, que afirmam que, ao contrário do que a Apple tem sido acusada, a empresa compactua bastante com as autoridades.

A notícia surge uma semana depois de Donald Trump, presidente dos EUA, ter utilizado o Twitter para afirmar que a Apple não ajuda a desbloquear os seus smartphones para auxiliar investigações. A crítica do chefe de Estado foi feita após o procurador-geral do país, William Barr, ter acusado a empresa tecnológica de não dar “ajuda suficiente” em alguns casos. Na origem desta última polémica está o facto de o FBI querer desbloquear um iPhone de um militar da Arábia Saudita (que matou três norte-americanos em Pensacola, na Florida, em dezembro) e não conseguir fazê-lo. A Apple tem refutado as críticas dizendo que tem auxiliado nas investigações.

A decisão da Apple já tem dois anos, mas é conhecida depois desta polémica. Apesar de, no passado, a empresa ter-se mostrado inflexível, nos bastidores, o cenário, pelos vistos, é outro. Em 2016, quando o FBI pediu acesso ao iPhone de um traficante de drogas, a Apple chegou a ir tribunal porque não queria comprometer a segurança dos seus equipamentos. Contudo, à Reuters, fontes da Apple dizem que a empresa não avançou com a “ecriptação end-to-end” no seu armazenamento na nuvem, o iCloud, para evitar mais casos como esse.

A encriptação “end-to-end” é uma forma de criptografia digital que é considerada das medidas mais seguras para se proteger informação trocada entre dispositivos eletrónicos. Teoricamente, ao utilizar esta tecnologia, nem a Apple teria poder para descodificar conteúdos dos seus clientes. Exatamente por isso é que a empresa de Sillicon Valley não aplicou este mecanismo ao iCloud.

Segundo o mesmo meio, a Apple tem dado às autoridades norte-americanas informação de cópias de segurança de utilizadores para auxiliar investigações. E fê-lo inclusive no caso de Pensacola. O problema é que a Apple, ao não permitir encriptação end-to-end, pode estar a comprometer a segurança dos dados dos utilizadores apenas para evitar problemas com o FBI, que recorrentemente pede ajuda à empresa.

Apesar de a Reuters assumir que a marca pode ter largado os planos para criar uma encriptação mais eficaz por outros motivos, seis fontes afirmaram à agência de notícias que tal aconteceu depois das reuniões entre responsáveis da empresa com o FBI. Um antigo funcionário chega a afirmar que a empresa largou o projeto para proteger melhor o iCloud, porque depois teria mais clientes que deixariam de poder aceder aos seus dados caso se esquecessem da palavra-passe.

“O departamento legal [da Apple] acabou com o projeto, por razões que podem imaginar”, disse ao jornal uma destas fontes. Alegadamente, a empresa ao tomar a decisão de acabar com essa iniciativa fê-lo para evitar as acusações de proteger criminosos que agora recebeu.

Ao contrário dos problemas que o FBI tem para desbloquear smartphones iPhone de alguns utilizadores — porque precisa de aceder fisicamente ao aparelho — o acesso à iCloud pode ser remoto. Como revelou a Apple este sábado, as autoridades norte-americanas pediram para aceder — e acabaram por ter acesso –, a cópias de segurança de seis mil utilizadores para ajudar a investigação de 1568 casos. E estes números são referentes apenas na primeira metade de 2019.