A imagem de Cláudia Simões, 42 anos, com os lábios feridos e ensanguentados e os olhos inchados, foi determinante para o Ministério da Administração Interna (MAI) abrir um inquérito à “atuação policial”.  Ao Observador, fonte ligada ao caso admite que as marcas visíveis no rosto de Cláudia Simões “são incompatíveis com as técnicas de imobilização utilizadas pelas forças de segurança”, o que motivou a intervenção do MAI, através da Inspeção Geral da Administração Interna, a ordenar a abertura de um inquérito para apuramento dos factos ocorridos domingo, na Amadora.

Também a PSP tem a correr um processo de averiguações para, a par do processo criminal, proceder à averiguação formal dos factos alegados pela cidadã. “A questão está nas agressões. O inquérito disciplinar vai focar-se nesse ponto, de forma a perceber se os procedimentos foram os corretos”, acrescenta fonte das forças de segurança ao Observador. “Também é possível que a mulher tenha batido com a cara no chão. Por isso, é preciso esperar pelas conclusões do inquérito antes falar de racismo nas questões policiais”.

Ao jornal Contacto, Claúdia Simões contou que foi algemada e arrastada para um dos carros patrulha que acorreram ao local. “Ninguém me ajudou”, lembra. “Quando me meteram no carro, eu não queria aquele polícia comigo e garantiram-me que ele ia noutro carro, mas mentiram-me. Ele entrou para o meu lado, enquanto outros dois agentes iam à frente. Durante o caminho todo, fui esmurrada enquanto estava algemada. Eu estava cheia de sangue e gritava muito. Então, subiram o volume da música para não me ouvirem na rua”.

Já a PSP relata que, para fazer cessar as agressões, o polícia “procedeu à algemagem da mesma, utilizando a força estritamente necessária para o efeito face à sua resistência”, registando que a mulher, “para se tentar libertar, mordeu repetidamente o polícia, ficando este com a mão e o braço direitos com marcas das mordidelas que sofreu e das quais recebeu tratamento hospitalar”. Em vídeos publicados nas redes sociais é visível a luta entre Claúdia Simões e o agente, numa paragem de autocarro, que termina com o polícia a manietar a mulher, em frente à filha de 8 anos.

Presente a um juiz de instrução criminal, Cláudia Simões ficou indiciada do crime de resistência e coação sobre agente da autoridade, enquanto o polícia envolvido “não foi constituído arguido”, afirma a Direção Nacional da Polícia de Segurança Pública.

Partidos políticos exigem “medidas concretas”

Antes mesma da abertura de um inquérito, já o Bloco de Esquerda questionava o Governo, através do MAI, sobre que medidas concretas têm sido tomadas para formar adequadamente as forças policiais, nomeadamente no que diz respeito ao uso da força. Em comunicado, o BE admite ver com preocupação os casos de violência policial, “um problema diagnosticado por diversas entidades e referido em relatórios recentes da Amnistia Internacional ou da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância”.

Para a deputada do Livre, Joacine Katar Moreira, “é imperioso apurar todos os factos relativos a este caso de alegada violência policial”. A par disso, o partido continua a defender que seja implementada formação cívica de carácter obrigatório a todos os funcionários das instituições públicas, “incluindo forças de segurança, com destaque para as abordagens antirracistas”.

O Chega, através de André Ventura, adianta que está a aguardar pela conclusão dos inquéritos e mantém a “total confiança nas forças de segurança”. Para o deputado, no entanto, trazer a questão do racismo para este caso é “o pior serviço que se pode prestar”.

Já o Partido Comunista salienta a “ação de valor inestimável das forças de segurança na manutenção da ordem pública, na garantia do respeito pela lei e na defesa da segurança dos cidadãos”, mas ressalva que essa atuação tem de se pautar sempre pelo respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos e “deve ser sempre proporcional e adequada”. Por responder estão ainda algumas das questões que coloca ao Ministério de Eduardo Cabrita, como “quando considera o MAI estar em condições de prestar esclarecimentos sobre este assunto?”.