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A antiga presidente da Recording Academy, Deborah Dugan, afirmou que foi suspensa como forma de retaliação por ter exposto o que diz ser um “clube de rapazes”. Numa queixa apresentada à Comissão de Oportunidades para a Igualdade no Trabalho esta terça-feira revelava procedimentos impróprios no processo de voto dentro da entidade que entrega anualmente os Grammys (os prémios da indústria musical americana, cuja cerimónia este ano acontece no próximo domingo, dia 26), conflitos de interesse entre os membros do conselho da Academia e ainda episódios de assédio sexual por parte do advogado da empresa, Joel Katz. Num documento de 44 páginas, a presidente acusou a Academia de “retaliação” após ter-lhe sido imposta licença administrativa.

O jornal britânico The Guardian refere ainda um caso em que o seu antecessor no cargo entre 2002 e 2019, Neil Portnow, terá alegadamente violado uma artista, cujo nome não foi revelado e que Academia estaria a par da situação e terá optado por ocultar o crime.

Segundo o New York Times, além de incluir a descrição de episódios de confronto entre Dugan e inúmeros “homens poderosos” da Academia, referindo situações de assédio e “avanços sexuais indesejados”, incluía também acusações de descriminação que “mancharam” o nome da Academia. A presidente afirmou que os comportamentos descritos aconteceram num ambiente de machismo e acusa a Academia de se refugiar num “boys’ club” [clube de rapazes]. Conta ainda que quando assinou o contrato para tomar posse na Academia, o advogado da empresa a convidou para um jantar privado e tentou aproximar-se dela com comportamentos que descreveu como “inapropriados”. Uma colega de Dugan, contactada pelo New York Times, confirmou esta versão e afirmou que Deborah tinha até, depois disso, confidenciado outros episódios de assédio por parte de Joel Katz. O advogado negou todas as acusações.

Em resposta à queixa, a Recording Academy, responsável pela organização dos Grammys, alegou que as acusações apenas surgiram após uma das funcionárias da empresa ter apresentado queixa contra Dugan por ter criado um ambiente “tóxico e intolerável” na Academia e por se envolver numa “conduta abusiva”. A direção esclareceu que só impôs a licença administrativa a Deborah depois de esta se ter demitido e exigido “22 milhões de dólares” à Academia. A ex-presidente da Academia negou estas acusações.

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Também as irregularidades no processo de votação da empresa foram postas em causa. No documento são descritos casos de falta transparência e favorecimento de pessoas no momento da votação por fazerem parte dos quadros da direção da empresa.

Uma das funcionárias que trabalhava para Dugan acusou-a de “bullying” depois de esta a ter despedido e oferecido outro cargo na empresa, por considerar o seu trabalho “insatisfatório”, segundo o New York Times. A partir daqui, a empresa retirou-lhe poderes na Academia e, por isso, ameaçou levar o caso a tribunal. Dugan acusou a empresa de usar esta queixa como pretexto para a suspensão por ter exposto a Academia.

A diretora dos recursos humanos da Academia também respondeu à queixa apresentada pela antiga presidente: “São assuntos sérios que têm de ser investigados”, disse.

Caso as acusações sejam investigadas pela Comissão que recebeu as queixas, e se existirem provas, a Academia será penalizada. Se a comissão decidir em contrário, Deborah poderá avançar com o caso para os tribunais.