Adriano Parreira, antigo embaixador de Angola junto às ONU e organizações internacionais em Genebra, acusa a Procuradoria-Geral da República (PGR) portuguesa de “simplesmente ignorar as queixas que foram apresentadas” por si há alguns anos — que denunciavam negócios “altíssimamente suspeitos” de empresários angolanos, em Portugal. Em entrevista à RTP, o ex-embaixador explicou que a primeira queixa que fez à PGR portuguesa — depois de várias à PGR angolana — foi em junho de 2011. Em 2017, fez outra e “nada foi feito”.

Foi preciso haver o tal leak [Luanda Leaks] e saltar a tampa da panela para que tudo viesse de fora de forma a que, sem qualquer possibilidade de contrariar, admitir-se que de facto esses indivíduos são corruptos e constituíram um gangue para o roubo do povo angolano”, afirmou.

Adriano Parreira, que é o autor da primeira queixa alguma vez apresentada contra altas figuras angolanas, lamentou ainda que a ausência de atuação da PGR portuguesa de que fala tenha sido algo “sistemático em todas as direções desta mesma instituição”. O antigo embaixador detalhou que, entre 2002 e 2006, fez “uma série de queixas à PGR angolana” que “obviamente não tiverem qualquer encaminhamento”.

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Depois, à PGR portuguesa, a primeira queixa terá dado entrada a 16 de junho de 2011 e estava relacionada com alegados crimes cometidos em Portugal. “Negócios, que se estão a provar, à margem de qualquer respeito pela dignidade dos angolanos e à margem também pelo direito e pela lei portuguesa”, detalhou Adriano Parreira.

O antigo embaixador adiantou ainda que, em 2017, apresentou uma lista à PGR portuguesa de 67 indivíduos “altamente suspeitos de contribuírem para a desgraça do povo angolano e com negócios em Portugal altíssimamente suspeitos”. “Nada foi feito”, lamentou, acrescentando: “Faltam talvez outras 67. Disse os principais. À volta desses principais gravitam outros. E assim se vai chegando onde nós quereremos e o presidente João Lourenço quer chegar”.

“A PGR portuguesa não vai ajudar. Nunca o fez”

Questionado sobre a reunião entre o PGR angolano, Hélder Pitta Grós, e a PGR portuguesa, Lucília Gago — que decorreu na tarde desta quinta-feira —, Adriano Parreira disse acreditar que “a PGR portuguesa não vai ajudar”. “Nunca o fez”, justificou, falando de uma “promiscuidade total entre a justiça portuguesa e a justiça angolana”

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Na entrevista, Adriano Parreira falou ainda de um dado que consta numa das suas queixas: um email do advogado Paulo Amaral Blanco para o PGR angolano no qual sugeria uma reunião com Cândida Almeida, ex-diretora do DCIAP, para agradecer a colaboração com a PGR angolana e “oferecer-lhe um contentor de paracucas”. Depois de explicar que a paracuca é um doce feito com amendoim e açúcar, o ex-embaixador afirmou:

Um contentor, por mais pequeno que seja, é muito doce. Com certeza que não seria amargo o que simboliza. Não sabemos. O que é certo é que é de estranhar. Pedia à procuradoria o favor de esclarecer o que isto é a mim, ao processo, ao país”.

Paulo Amaral Blanco foi condenado a quatro anos e quatro meses de pena suspensa por corrupção ativa, branqueamento de capitais, violação do segredo de justiça e falsificação de documento, no âmbito do processo Operação Fizz que também envolve o ex-vice-Presidente de Angola Manuel Vicente. O processo-crime de Manuel Vicente foi separado e enviado para Angola — e Adriano Parreira defende que o ex-vice-Presidente seja ouvido pela justiça.

Impõe-se que Manuel Vicente seja chamado à PGR de Angola e depor sobre as imensas queixas, imensas denúncias que têm sido apresentadas”, considerou Adriano Parreira.

O antigo embaixador considerou por fim que a PGR portuguesa não o “honrou com uma resposta” que diz merecer. Adriano Pereira diz, no entanto, que “isto é só o começo” e acredita que “mais tarde ou mais cedo”, a justiça vai “apontar a espada” a José Eduardo dos Santos, antigo presidente de Angola. “Ele não vai escapar”, disse.