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Coisa ruim é ser da guerrilha e não poder dançar ao mesmo tempo. Isso sim. Mas em Scúru Fitchádu é possível erguer o braço e abanar a anca, ser protesto e ser dança. É por isso que Un Kuza Runhu [tradução do crioulo: “uma coisa ruim”] é quase uma impossibilidade. Isto é “un kuza runhu”, nem de longe. Quer dizer, é, acaba por ser, é ruim pela sua visceralidade, pela violência formal, pela simbiose imperfeita entre punk/hardcore/metal e funaná, com muita eletrónica pelo meio. Mas se ser ruim é ser abrasivo desta maneira, então quase apetece dizer “porrada para cima”. Ou melhor: Scúru Fitchádu para cima.

O primeiro disco do alter-ego de Marcus Veiga, 40 anos, podia ser confundido com uma manifestação em versão concerto, menos organizada e mais livre. Surge três anos depois de um EP homónimo e é uma alegria sombria para este arranque de ano. Se tivéssemos sabido disto antes, tínhamos comido este disco ao invés de uma passa, para ver se corre tudo bem, a ele e a nós, todos combatentes deste caos sem nome que por aí anda e por andamos.

É também conhecido como Sette Sujidade, nome que vem de origens várias. Sete, antes apenas com um T, vem do tempo em que jogava basquetebol no Bombarral e o seu treinador o chamava pelo número que envergava na camisola. A sujidade vem do tempo da capoeira, que Marcus sempre praticou e onde costumava tratar os amigos por “sujo”, ao estilo, “como é que é, sujo? Estás bem?”. Algo curioso, porque se há alguma entidade à solta na música de Scúru Fitchadú é a sujidade. Na música e não só. Quando trocámos emails para combinar esta entrevista, Marcus, a propósito da fotografia, limitou-se a dizer: “Desde que não sejam coisas bonitinhas, por mim está ótimo”.

[ouça aqui o álbum “Un Kuza Runhu”:]

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Já de gravador ligado, a confrontação teve que ser feita. “É uma identidade e tento seguir isso, não gosto de gravações em estúdios fancy e assim. O nome vem de outros tempos, mas obviamente que depois levei isso para o mundo da música um bocado para justificar a minha música muito suja, lo-fi. Então deixei ficar o sufixo: Sujidade”, conta, num bar em Cacilhas.

A localização é para aqui chamada, claro, porque Marcus Veiga vive em Almada desde o final dos anos 90. Antes disso, filho de mãe angolana e pai cabo-verdiano, passou por várias moradas. Esteve no Catujal, em Loures, até aos dois anos, do qual não tem memórias. E depois foi para o Oeste, para o Bombarral. Um meio muito pequeno onde a sua família era a única africana e onde sentiu falta dessa ligação às raízes, que cumpria quando vinha a Lisboa visitar o resto da família. Se foi, por um lado, uma zona de isolamento, de falta de agitação cultural, foi também importante porque, à distância, através da rádio, acompanhava as boas-novas do mundo musical:

“Não se passava grande coisa no Bombarral, o que fazia era acompanhar via rádio o que é que se andava a fazer em termos musicais. Acho que foi na escola, com aquela fase do grunge, que comecei a ganhar o bichinho da música, a eletrónica, o nascimento do trip-hop, o hip-hop, obviamente. Comecei a escrever letras nessa altura, mais nas Caldas da Rainha, quando lá estive a estudar no secundário”, diz.

Lembra-se de um concerto dos Da Weasel num clube pequeno da Foz do Arelho, quando os almadenses estavam ainda numa fase embrionária. Lembra-se de Rodrigo Gomes (Thunder & Co.), colega e voz da rádio da escola, lhe falar dos blues quando ele só queria Nirvana e Prodigy, lembra-se de não querer saber de carros e de namoradas e de só querer ter uma banda. Vem daqui, do Oeste, do seu crescimento à procura de mais, o lado mais pesado que encontramos na sua música. Quando, após o divórcio dos pais, vai viver para Almada, calhou de ter morada perto da garagem dos Xutos & Pontapés, que por vezes cediam o estúdio a outros conjuntos.

“As primeiras tatuagens que fiz, relacionadas com música, obriguei-me a fazê-las, para quando olhasse para isto mais tarde ficasse envergonhado se não tivesse feito nada no mundo da música”

Um certo dia, os Coldfinger – grupo de Miguel Cardona e Margarida Pinto, onde também colaborou, entre outros, DJ Cruzfader – estavam naquelas paragens e Marcus ouvia, aos altos berros, uma cassete de Cruzfader enquanto limpava o quintal. “Aparece um gajo no portão a perguntar se eu curtia daquilo e eu, ya ya. E depois ele disse: ‘Ó Cruz, anda cá’. E foi assim que trocámos contactos e ele convidou-me para entrar no Nova Escola, em 98 ou 99. E foi aí que acho que fiquei no mapa artístico da cena hip-hop”, esclarece Marcus, ou, na altura, Sete, de nome artístico.

Foi pelo rap que entrou no mundo da música, colaborando em discos diversos, frequentado os espaços que este estilo em proliferação frequentava, sendo reconhecido no meio underground. Mas, de alguma forma, a coisa não avançou. Alguma forma é quase sempre um ter que trabalhar para comer e para mais não ter tempo. Quando se mudou para a Margem Sul começou por trabalhar no Aeroporto de Lisboa no sistema de tratamento de bagagem. Emprego que, apesar de ter um pico de intensidade durante o horário de expediente, lhe permitiu ir aprimorando a escrita, descobrir mais música, ler, aquela coisa de um miúdo com um ecrã de computador à frente — como sabemos, as possibilidades são infinitas.

Menos se tornaram quando foi parar a um trabalho de fábrica onde essa liberdade do aeroporto não existia. Entrou num lugar cinzento, como tanta gente anda uma vida inteira: “A minha sorte foi ter visto um flyer de um curso que ia acontecer aqui em Almada, de Gestão e Produção Musical, com o Rui Miguel Abreu e o Nuno Faria. Pensei que tinha que me despedir, de largar aquela vidinha. E que assim teria mais estímulos e eu sempre fui muito de me auto-motivar. As primeiras tatuagens que fiz, relacionadas com música, obriguei-me a fazê-las, para quando olhasse para isto mais tarde ficasse envergonhado se não tivesse feito nada no mundo da música”, desabafa.

Depois desse curso arranjou trabalho como assistente na Universal Music. É normal. Vai-se à procura de proximidade, contactos, pontes. Viu como é que a indústria trabalha. Mais tarde, fez parte da equipa de criação de conteúdos e de comunicação da AMG Music, de António Miguel Guimarães, onde, entre outras coisas, fez o festival O Sol da Caparica durante vários anos. Portanto, Marcus Veiga esteve em todas as arestas da barricada e quando decidiu que ia para o palco já não levou o rap.

“Não quero acenar com nenhuma bandeira, é um espaço de liberdade, sem regras, para toda a gente”

Durante este tempo em foi ganhando conhecimento técnico e ouvindo mais música, ia trabalhando por sua conta e de forma solitária, ia cozinhando Scúru Fitchádu. E o desvio é fácil de explicar:

“Sempre achei que o hip-hop era aquilo, eu queria ser mais. Não é que seja redutor, mas às vezes apetecia-me gritar, no hip-hop há regras e fórmulas, e a mim apetecia-me ser outra coisa. Sempre me atraiu um lado artístico mais visceral, de guerra, no hip-hop, na altura, não podias fazer uma música a dizer que és gay, a tua carreira acabou, agora é diferente, mas na altura faltava essa abertura. Faltava espaço para seres quem querias. A mim não me chegava”.

Tanto não chegava que o resultado é bem distante do universo do hip-hop. Outra paragem importante no caminho foi o prime-time do dubstep, porque isso mudou a sua forma de compor. Afinal, havia outras coisas para lá do jungle e do drum&bass, havia graves, havia ousadia e descontrolo. E isso tem tudo que ver com o corpo proposto por Scúru Fitchádu. Corpo que parece ser portador de raiva e que vem da sua história pessoal: “Sempre fui um gajo físico. A minha vida toda fiz artes marciais, karaté, capoeira, taekwondo, muay-thai, sempre estive na cena da guerrilha, do estar vivo. Portanto, mais do que gostar de um disco, de um músico meticuloso, sempre gostei de malta que tinha impacto ao vivo, gosto de gajos que me deem porrada ao vivo e eu sempre quis ser esse gajo”.

Este gajo que Marcus Veiga sempre quis ser é, apesar da sua sonoridade, um gajo profundamente aberto. Que quer a paz, ainda que a sua música seja de guerra: “Gostava que não se estivesse tanto preso a formatos. A malta do metal, tirando empurrar, não pode fazer mais nada, não pode dançar. Scúru Fitchádu vem contra isso, tu podes ser a giraça, o betinho ou o gajo mais hardcore de sempre, mas estás em comunhão para te exprimires fisicamente ou como quiseres. Não quero acenar com nenhuma bandeira, é um espaço de liberdade, sem regras, para toda a gente”. Nós somos toda a gente.

Scúru Fitchádu toca este sábado nos Maus Hábitos, a propósito de O Salgado Faz Anos Fest 2020. E apresenta Un Kuza Runhu, no Musicbox, dia 31 de Janeiro (Vaiapraia na primeira parte).