O Bloco de Esquerda (BE) irá levar na próxima Assembleia Municipal do Porto, convocada pela CDU e agendada para o dia 27 de janeiro, um plano de mobilidade em bicicleta para ser “discutido, votado e implementado na cidade”, sublinhou o deputado Pedro Lourenço.

A proposta assenta em 12 medidas concretas que se irão traduzir na votação de três pontos: a concretização de um plano municipal para a mobilidade em bicicleta a partir do plano apresentado pelo partido; a integração desta nova estratégia no PDM (Plano Diretor Municipal), atualmente em revisão; e a inscrição, já no orçamento municipal para 2021, das verbas necessárias ao arranque deste plano. “Não se trata nem de construir ciclovias a torto e a direito, mas simplesmente de ter políticas muito concretas e muito simples em áreas complementares que no seu todo possam permitir atingir o objetivo que nós estabelecemos que é de aumentar significativamente o número de trajetos”, justificou o deputado municipal.

“É certo que Rui Moreira vai dizer que a política de mobilidade da Câmara é aquela que tem vindo a ser feita com municipalização dos STCP, é aquela que tem vindo a ser feita com a concretização do Terminal Intermodal [de Campanhã] ou até com projetos como a reconfiguração da Avenida Fernão Magalhães. O que nós pretendemos com isto é demonstrar que isso não é uma política estratégica”, afirmou Pedro Lourenço antecipando a posição do autarca.

O deputado defende que o município tem optado por “um conjunto de medidas avulsas e de projetos que na prática não são eficazes se não tiverem subjacentes depois uma estratégia que coza os vários tipos de mobilidade que a cidade precisa”.

Para Pedro Lourenço, a bicicleta “é uma das soluções de mobilidade urbana essenciais para a transformação que o Porto tem que se sofrer nos próximos anos”, diz, garantido não desprezar nem minimizar a importância do transporte público e da mobilidade pedonal. “Estamos nos antípodas da posição da Câmara relativamente à mobilidade”, acusando o vereador do urbanismo, Pedro Baganha, de assumir que o município não acredita que a bicicleta seja uma alternativa.

Ao criticar o papel do atual executivo relativamente a esta matéria, o deputado deu como exemplo a implementação do Dia Mensal sem Carros, aprovada em Assembleia Municipal, medida que até hoje ainda não foi concretizada. “O Movimento Rui Moreira chegou a dizer que não fazia sentido ter só um dia que devia ser uma coisa mais estrutural e nós até hoje continuamos à espera que ela seja concretizada”, afirmou recordando que, nas redes sociais, Moreira criticou a medida, dizendo que a sua implementação traria ainda mais constrangimentos no trânsito.

O bloquista considerou que esta “é uma das áreas que mais erros a CMP tem cometido” e desde 2014 a autarquia tem “perdido tempo”, comparando o cenário no Porto ao da capital. “Lisboa tem estado a investir fortemente nesta área, há milhares de ciclovias que estão a ser criadas nos últimos anos, todos os meses anunciam mais um troço, milhões de euros investidos, também com fundos comunitários, e no Porto nada se sabe e nada se projeta. Achamos que o Porto tem perdido tempo.”

Em 2020, Lisboa espera chegar aos 7% da utilização da bicicleta, “uma meta muito ambiciosa que está acima da média europeia”, e em 2025 pretende alcançar os 15%. “Não sei se eles vão conseguir fazer isso, mas há pelo menos uma vontade para que isso aconteça”, destaca Miguel Barbot, ativista pela mobilidade em bicicleta e candidato independente nas listas autárquicas do BE.

Segundo dados do INE de 2011, a bicicleta era utilizada em 0,2% das deslocações no município do Porto, subindo para 0,4% em 2017, “um valor inferior ao de muitas localidades portuguesas e bem abaixo da média europeia (7,4%)”. “A pergunta que se faz é: que metas queremos para o Porto?”, questiona o partido que em 2025 quer alcançar os 4%, aumentando assim 10 vezes mais o uso deste meio de transporte.

Percursos intermunicipais, instalação de bicicletários e sistema de bike-sharing

São 12 as propostas do BE para a mobilidade em bicicleta no Porto e uma delas é a criação de um ‘mayor’ e de um conselho consultivo que inclua técnicos especializados, investigadores e grupos ativistas, e aconselha a autarquia na elaboração e implementação de propostas.

Miguel Barbot considera que até agora o que tem acontecido é “grupos isolados de ativistas irem para departamentos da Câmara discutir, muitas vezes de forma pouco estruturada e até conflituosa”. O utilizador diário de bicicleta no Porto acredita que este é um tipo de abordagem que “nunca funciona”, por isso a ideia passa por existir uma figura da sociedade civil que articule, dialogue e negoceie com a autarquia.

“Achamos que se é possível ter a diretora da movida [Ana Cláudia Almeida] que tem um salário bastante generoso para gerir determinada dinâmica, também faria todo o sentido que pudesse haver um ‘mayor’ da bicicleta para poder gerir um aspeto tão essencial da nossa cidade”, referiu o deputado Pedro Lourenço.

No que toca a intervenções físicas, o plano sugere a criação de uma rede municipal de ciclovias, percursos intermunicipais, das periferias para o interior da cidade, e a instalação de bicicletários nas zonas de maior movimento. Relativamente à segurança na circulação rodoviário, o BE quer implementar novas estratégias de acalmia de tráfego, como o alargamento de passeios, mobiliário urbano ou pisos antiderrapantes em trocos perigosos, mas também a abertura das faixas bus à circulação de bicicletas. A publicação de um guia bilingue, um mapa do ciclista no Porto e a criação de um sistema de bike-sharing também integram o rol de sugestões.