Dizer que Portugal surpreendeu no Europeu de andebol que ainda decorre acaba por ser, em última instância, um eufemismo. A seleção portuguesa não estava numa fase final de uma competição deste calibre há 14 anos, o melhor resultado de sempre era um sétimo lugar e já tinha atingido a maioridade e a sorte ditou que o grupo inicial incluísse desde logo a poderosa França e a superior Noruega. Apesar de tudo isto — e além de tudo isto –, a seleção de Paulo Jorge Pereira ultrapassou a fase inicial e conseguiu mesmo o terceiro lugar do grupo do main round, disputando no próximo sábado um quinto lugar que além de histórico é manifestamente surpreendente.

Portugal surpreendeu quando venceu a França, no jogo inaugural. Voltou a fazê-lo dias depois, quando derrotou a Bósnia. Deixou meia Europa de queixo caído quando, no primeiro jogo da segunda fase, goleou a vice-campeã europeia Suécia. Seria de esperar, portanto, que à entrada para uma partida decisiva com a Hungria a organização do Campeonato da Europa de andebol já esperasse que a seleção portuguesa pudesse, contra as expectativas, vencer. Mas, ao que parece, Portugal voltou a surpreender.

A Seleção Nacional venceu a Hungria esta quarta-feira — por 34-26, um resultado longe de ser renhido — e garantiu um lugar no jogo que vai decidir quem fica em quinto e sexto lugares da classificação geral do Europeu. No sábado, contra a Alemanha, Portugal já sabe que vai sair do pavilhão com o melhor resultado de sempre em Europeus: seja ele um quinto ou um sexto lugar, já que a sétima posição de 2000 era mesmo o melhor que uma equipa portuguesa tinha conseguido na competição continental. Assim sendo, Portugal apanhou na manhã desta quinta-feira um autocarro até Estocolmo, capital da Suécia, onde vai disputar o decisivo jogo contra a seleção alemã. Ora, no pára-brisas do autocarro, lia-se “Hungria” num papel: abaixo, a manuscrito, estava então “Portugal”, e o nome do país da Europa Central estava riscado a caneta.

A publicação de Pedro Portela, jogador da seleção portuguesa de andebol, onde é possível ver que o autocarro já estava atribuído à Hungria

O momento caricato, que revela que a organização do Europeu já havia atribuído previamente o autocarro à Hungria, totalmente descrente na possibilidade de Portugal vencer os húngaros, foi revelados pelos jogadores portugueses nas redes sociais. Pedro Portela escreveu “quando pensam que vem a Hungria mas vem Portugal para Estocolmo” e António Areia lembrou que “podiam ter imprimido um papel novo”. Nada que tenha apanhado completamente de surpresa a comitiva portuguesa. Ainda na quarta-feira, o selecionador Paulo Jorge Pereira revelou que a organização só atribuiu guia a equipa portuguesa durante cinco dias: os cinco dias considerados obrigatórios, referentes à fase de grupos, antevendo à partida que Portugal não iria para além dessa fase inicial.

“Hoje, sim, fizemos história. Porque conseguimos o nosso objetivo que era conseguir o tal melhor resultado de sempre. Ainda por cima ganhámos o direito de estar num torneio pré-olímpico, o que é excecional. Agora o próximo objetivo tem de ser ir aos Jogos Olímpicos. É estrondosamente difícil, quase impossível. Mas isto também era… Contrataram-nos uma guia para cinco dias porque tínhamos calhado naquele grupo. E ela teve de pedir para prolongar para estar aqui. E agora vai ter de voltar a prolongar para ir para Estocolmo”, disse Paulo Jorge Pereira, que no fim do jogo ainda se desentendeu com alguns elementos da equipa técnica húngara, claramente descontentes com o resultado da partida.

Portugal vai então discutir com a Alemanha quem fica em quinto e sexto lugar do Europeu e garantiu desde já a presença no torneio pré-olímpico que dá acesso a uma vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no próximo verão. O torneio tem lugar em abril e a seleção portuguesa sabe desde já que não vai ficar no primeiro grupo, disputado na Noruega. Assim sendo, sobram duas possibilidades: jogar em França ou na Alemanha, cruzando ainda com Croácia ou Eslovénia no primeiro caso, com a Suécia no segundo caso e ainda com uma equipa africana por apurar em qualquer um dos cenários. Já qualificadas para os Jogos Olímpicos estão Dinamarca (campeã do mundo), Argentina (campeã sul-americana), Bahrain (campeão asiático) e Japão (país anfitrião), sendo que o campeão da Europa e o campeão africano terão também entrada direta sem disputar o torneio pré-olímpico.