O grau de reconhecimento deste sonho californiano é comparável a “O Grito”, de Munch, ou a “Os Girassóis”, de van Gogh, sublinha a nota do catálogo. Criada em 1966, “The Splash” sobressai com estrondo, e com os devidos salpicos, na colorida montra da Pop art. David Hockney assina a obra que ocupa o seu lugar na história, ensanduichada entre “A Little Splash” (o primogénito desta família de mergulhos, nascido também em 66) e “A Bigger Splash” (1967), outro ícone de um certo ideal de estilo de vida e da cultura contemporânea.

Pintada em Los Angeles, destino soalheiro que o artista visitou pela primeira vez em 1963, um ano depois de terminar os estudos no Royal College of Art, aquela que é a segunda parte da sequência de variações sobre o mesmo tema vai agora a leilão, em Londres, no próximo dia 11 de fevereiro, e a fasquia está elevada. A leiloeira estima que o valor de venda de “The Splash” possa situar-se entre os 20 e os 30 milhões de libras, o equivalente a 23 a 35 milhões de euros. Um intervalo que consegue ser cerca de seis vezes superior ao valor pela qual a pintura foi comprada em 2006.

© Sotheby’s

Nada que impressione, em bom rigor, (sendo que o resultado final do leilão pode ir além das expectativas iniciais) . Basta lembrar como em novembro de 2018, “Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)”, do mesmo David Hockney, foi vendida em leilão por 90 milhões de dólares (cerca de 80 milhões de euros) — o valor mais alto alguma vez alcançado para a venda de uma obra de um artista vivo. Nessa altura, a licitação durou apenas 10 minutos. Quanto ao comprador, que sucedia assim ao até então feliz colecionador, o milionário Joe Lewis, que a mantinha desde 1995, manteve-se anónimo. Sobre o valor registado, deixava para trás os 58 milhões de dólares (cerca de 51 milhões de euros) dados pelo “Balloon Dog (Orange)” de Jeff Koons, em 2013.

Se o mais pequeno dos mergulhos pertence a uma coleção particular, enquanto o maior faz parte do acervo da galeria londrina Tate Modern, desde 2001 que a obra não era exposta, tendo então passado pelo Los Angeles County Museum of Art, inserido na exposição “Made in California: Art, Image and Identity 1900-2000”. Longe ficava a estreia nas paredes de uma galeria. A Landau-Alan Gallery, em Nova Iorque, foi a primeira a exibir “The Splash”, corria o ano de 1967. O mote? “David Hockney: New Paintings and Drawings”. De Hanover a Tóquio, seguir-se-iam umas quantas outras escalas no caminho deste cenário estival.

De parede para parede, há mais de 50 anos

Das paredes públicas, para as paredes privadas dos colecionadores que se cruzaram com a obra de Hockney (e a levaram para casa, depois de desembolsada a devida quantia). É que o destino de um quadro consegue ser tão impressionante como a sua criação. No caso deste salto para a piscina, a história começou de facto do outro lado do Atlântico, onde aliás o mestre se haveria de estabelecer em definitivo, em 1975. Da Landau-Alan Gallery, a primeira proprietária, “The Splash” seguiu para a Galerie Renée Ziegler, em Zurique, e chegou a Hamburgo, na Alemanha, pertencendo agora a Hans-Edmund Siemers, Hamburg. A 5 de julho de 1973, era leiloado na Sotheby’s, em Londres. O novo dono passaria a ser a galeria Kasmin, situada na capital britânica, de onde seguiria para mais um acervo particular, mantendo-se no entanto em solo inglês.

Em novembro de 2009, Nottingham recebia uma mostra dedicada a David Hockney, que na imagem posa com o irmão mais velho deste mergulho, “A Bigger Splash”, obra de 1967 © Christopher Furlong/Getty Images

Mais uma volta, mais uma viagem. O magnata e multimilionário norte-americano David Geffen, produtor de cinema, filantropo, entre muitas coisas ocupações, encarregar-se-ia de a levar para Los Angeles, vendendo-a posteriormente a novo privado, em 1985. O mesmo que a colocaria à disposição da Sotheby’s a 21 de junho de 2006, inserida no lote 8, e mais uma vez regressada ao país de origem do seu autor. Foi então que “The Splash” foi arrematada pela atual proprietário, de identidade desconhecida. O valor fixou-se então nos 2.6 milhões de libras, qualquer coisa como 3 milhões de euros. Em fevereiro, espera-se mais uma paragem neste milionário périplo que já leva 54 anos.