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“Bombshell – O Escândalo”

E cá temos aquele que é um fortíssimo candidato a filme politicamente tendencioso e intelectualmente desonesto do ano, em representação da Hollywood “progressista”. Escudado na descrição das (comprovadas) práticas de assédio sexual do falecido Roger Ailes, consultor de media do Partido Republicano e de vários presidentes dos EUA, e antigo “patrão” da Fox News, e da alegada cultura de ocultação e silenciamento das mesmas, esta fita de Jay Roach tem implicado que tomemos a parte pelo todo. Ailes era um conservador, a Fox News é um canal conservador, logo os pecados apontados a estes são comuns a todo o espectro político, mediático e intelectual do conservadorismo e da direita nos EUA.

O filme nem recua perante criar personagens fictícias, como a da jornalista interpretada por Margot Robbie, uma republicana cristã tontinha esterotipada, e misturá-la com as personagens reais de Charlize Theron e Nicole Kidman; ou a de Kate McKinnon, que é lésbica e admira Hillary Clinton, mas não revela nada disto na redação para não perder o emprego. John Lithgow é um Roger Ailes pesadamente maquilhado para parecer um Jabba the Hut direitista e molestador sexual, coisas sinónimas, segundo “Bombshell — O Escândalo”. Para os hipócritas autores deste filme, Bill Clinton deve ser apenas um simpático malandreco, Harvey Weinstein, apoiante dos Clinton e de Barack Obama, é com certeza vítima de uma cabala e o escândalo de assédio sexual na “liberal” NBC com o pivô Matt Lauer um equívoco.

“O Filme do Bruno Aleixo”

Em que outro filme senão um com Bruno Aleixo, o Homem do Bussaco, o Busto e um Monstro da Lagoa Negra chamada Renato Alexandre, um produtor se poderia interessar em fazer um filme sobre a vida do dito Bruno? E haver um café onde o clube em destaque é o União de Coimbra, a tampa de uma sanita decapitar pessoas, atores queridos do grande público como Adriano Luz, Rogério Samora, Gonçalo Waddington ou João Lagarto interpretarem o dito quarteto com as respetivas vozes, Fernando Alvim ser assassinado por uma esfregona e uma sequência ser feita em desenhos animados saídos da mão de um aluno da primária?

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Escrito e realizado por João Moreira e Pedro Santo, os “pais” do cão/Ewok da SIC Radical, “O Filme do Bruno Aleixo” tem tudo isto e muito mais — um ninja espalhafatoso, bastante conversa fiada sobre cinema, “flashbacks” perfeitamente arbitrários para a Coimbra universitária dos anos 80, um vilão inesperado, uma participação especial do Jaca em direto do Brasil, um anúncio da Mister Cimba — para grande deleite e hilariedade dos ferrenhos do programa mais bizarro, absurdo, pobretanas e inclassificável da televisão portuguesa. Os outros poderão escolher entre a negação e a perplexidade. Para mim, “O Filme do Bruno Aleixo” é, desde já, uma das mais importantes, criativas e arrojadas fitas portuguesas deste ano.

“1917”

Sam Mendes rodou este filme passado nas trincheiras da I Guerra Mundial,  no que parece ser um único plano-sequência, mas que na realidade foi habilmente montado para o simular. Mendes recorreu a efeitos digitais para juntar os vários “takes” sem se verem as costuras e dar a impressão de continuidade. A fita tem o magistral Roger Deakins como diretor de fotografia. A história de “1917”, passada em França, é o contrário da de “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg. Em vez de um grupo de soldados mobilizados para salvar um só, aqui dois soldados ingleses são incumbidos da missão de salvar 1600 dos seus camaradas.

O cabo Blake (Dean-Charles Chapman) e o cabo Schofield (George McKay) veem-se chamados ao seu general (Colin Firth a fazer uma “pontinha”) e informados que as comunicações estão em baixo. Por isso, eles vão ter que atravessar a “terra de ninguém” e avisar um regimento inglês que vai fazer um ataque matinal às posições alemãs, para o anular, porque irá cair numa terrível armadilha, já que o inimigo apenas simulou a retirada. Se eles falharem, a vida de 1600 soldados está em perigo. E o irmão mais velho de Blake é um deles. “1917” foi escolhido pelo Observador como filme da semana e pode ler a crítica aqui.