Nesiamón passou boa parte da sua vida no templo de Karnák, localizado na atual Luxor, recitando orações ao deus Amón. Três mil anos depois da morte do escriba e sacerdote egípcio, contemporâneo do faraó Ramsés XI, uma equipa de cientistas alcançou o prodígio de reproduzir com precisão a voz outrora escutada nos cantos e preces. Por outras palavras, foi como se esta múmia ganhasse voz e voltasse a falar.

O estudo remonta a 2013 e envolveu especialistas das Universidades de Londres e York, tendo sido publicado esta quinta-feira. Os resultados foram de igual forma partilhados nas redes sociais, com direito a uma escala em Leeds. Afinal, é no museu arqueológico desta cidade inglesa que a múmia tem permanecido.

Foi também aqui sobreviveu aos bombardeamentos nazis durante a II Guerra, corria o ano de 1941 — contrariando o desfecho que outras duas múmias então tiveram, ficando totalmente destruídas. Nesiamón, a sobrevivente, terá demonstrado um ótimo estado de conservação e um trato vocal razoavelmente intacto, o que permitiu aos investigadores avançar com a pesquisa.

Da Nature à Scientific Report, diferentes meios registaram esta semana o feito protagonizado por esta equipa, na qual se inclui Gareth Iball, um dos clínicos do Leeds Teaching Hospitals NHS Trust que se associou ao projeto e que recorda o dia, em 2016, em que parte da equipa levou o antigo padre egípcio para fazer um TAC nas instalações do hospital, tendo sido possível fazer uma impressão em 3D, replicando assim aquilo que terá sido o som da sua voz, o que permitiu a sua recriação em 2020.

O sarcófago no Museu de Leeds © DR

Foi ao estabelecer as dimensões exatas das cordas vocais (a partir das imagens obtidas através da tomografia computorizada), que puderam sintetizar o som originalmente produzido, e criar uma cavidade oral, faringe e laringe com as mesmas características que as da múmia. À impressora 3D soma-se a intervenção de um aparelho a que chamaram de órgão de cordas vocais, que foi ligado a um teclado.

Foi através deste processo, cuja explicação detalhada pode seguir aqui, que conseguimos escutar no áudio o som da vogal “e”. Um pequeno passo para a nossa curiosidade, um passo que, lembram os investigadores, pode ser gigantesco de futuro, para dar voz ao passado mas acima de tudo dar alguma esperança a pacientes com laringes afetadas por tumores.