Mais um dia do julgamento do caso de Alcochete, mais um par de antigos jogadores do Sporting que entretanto saíram do clube – ou que, neste caso em específico, rescindiram de forma unilateral os seus vínculos com o clube. De manhã, Rúben Ribeiro, jogador que esteve no Al Ain dos Emirados Árabes Unidos antes de voltar a Portugal via Gil Vicente e que falou por videoconferência a partir do Tribunal de Matosinhos depois de ter falhado uma primeira chamada há duas semanas, descreveu o clima de terror que se viveu no balneário leonino e detalhou ainda todas as mudanças que fez depois do ataque, nomeadamente a mudança imediata da família para o Porto. À tarde, nesta 22.ª sessão de julgamento que já teve também testemunhas abonatórias, falou por Skype Gelson Martins, internacional português que assinaria depois pelo Atl. Madrid antes de chegar ao Mónaco.

Rúben Ribeiro, médio ofensivo que marca presença neste julgamento como assistente e não testemunha do processo (ao contrário da larga maioria dos antigos companheiros no Sporting), começou por relatar os factos durante a invasão ao balneário da formação verde e branca, dizendo-se também ele vítima de uma agressão por parte dos indivíduos que conseguiram entrar dentro das instalações da ala profissional de futebol dos leões.

“Quando me estava a preparar para calçar as chuteiras, vejo o meu colega André Pinto a dizer que os mascarilhas estavam aí, mas num tom de brincadeira. Estavam a gritar, a dizer ‘Vou-vos matar'”, começou por referir Rúben Ribeiro, citado pelo jornal Record, acrescentando depois que viu Acuña ser agredido com socos na cabeça “por três ou quatro indivíduos”, William Carvalho a levar um soco no peito e Misic a ser atingido com um cinto na cabeça. “Eu levei um estalo. Estava sentado no meu lugar, deram-me uma bofetada e continuaram a andar”, acrescentou.

“O Bas Dost largou bastante sangue. Também vi o Jorge Jesus magoado num olho e no lábio”, prosseguiu, antes de explicar depois as sensações que sentiu durante e depois da invasão. “Após o ataque tive noção de que podia ter morrido. Foi um dia de terror. Ter chegado a casa e deparar-me com a minha esposa e os meus filhos a chorar, neste caso o meu filho mais velho… Foi um cenário bastante difícil”, salientou o jogador, antes de abordar o que fez nos dias seguintes e os cuidados que teve sobretudo em relação à família mais próxima. “Estavam de forma constante a dizer que nos iam matar e que não sabíamos o que aconteceria se não ganhássemos no domingo [na final da Taça de Portugal]”, complementou, citado pelo jornal O Jogo.

“Após o sucedido, reuni-me com o advogado e com a responsável do colégio porque não havia condições para os meus filhos estarem ali. A minha mulher estava com medo de sair de casa, só pensava que toda a gente a perseguia, estava com receio de sair à rua… Pedi ajuda ao meu advogado na altura. Ele foi comigo, o meu filho tinha sido gozado e ameaçado na escola pelo que tinha acontecido. Disse à responsável para apressar o processo, porque queria fazer a transferência imediatamente para o Porto. No dia seguinte, coloquei a minha família no Porto e tratei da transferência, para não ficarem mais em Lisboa”, completou à procuradora do Ministério Público.

Seguiu-se o período de perguntas dos advogados. A Miguel Coutinho, que representa o também assistente neste processo Sporting, Rúben Ribeiro referiu-se aos acontecimentos na Madeira durante e depois da derrota dos leões frente ao Marítimo que deixaria a equipa fora dos lugares de qualificação para a Liga dos Campeões, dizendo que ouviu apenas insultos a Acuña no aeroporto. Mais tarde, a Miguel A. Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, o médio ofensivo acabou por ter uma espécie de volte face (ou interpretação errada): depois de ter referido à juíza Sílvia Rosa Pires que Jorge Jesus ou Rui Patrício tinham dito para ninguém falar com o então presidente, corrigiu e acabou por salientar que ninguém abordou a questão do ex-líder. “Não queríamos falar com ninguém porque estávamos bastante assustados e não queríamos falar sobre o que se tinha passado”, frisou.

O depoimento de Gelson Martins chegou a ser colocado em causa no Tribunal de Monsanto mas, pouco tempo depois, tudo estava operacional para ouvir o extremo através de Skype. “Foi tudo muito rápido, tive medo. Paralisei um bocado, não estava à espera. Vi garrafões de água a saltar de um lado para ou outro. O que estava a acontecer ao Acuña chamou-me mais à atenção”, começou por referir na descrição da invasão ao balneário leonino. “Claro que tive medo, paralisei durante a situação, não tive reação, tive medo. Depois, durante uns tempos também tive medo, não foi fácil. É uma situação difícil, pela qual ninguém gosta de passar. Até hoje sinto dificuldade, não foi fácil para mim nem para minha família”, acrescentou depois o jogador.

O extremo deixou depois duas revelações: primeiro, que reconheceu um dos invasores; depois, que tinha no seu telemóvel uma mensagem a alertar para a invasão mas que só viu depois da mesma já ter ocorrido. “Sim, sei quem é. É do bairro da minha namorada e esteve na festa da minha filha a convite dela”, revelou depois de ter dito que não reconhecia o nome Domingos Monteiro mas reconhecer o mesmo pela cara. “Estava um rapaz à minha frente que não fez nada e disse-me na altura para ficar ao pé dele que não me ia acontecer nada. Na altura, como tinha a cara tapada, não consegui saber quem era, agora consigo perceber que era ele que estava lá e disse isso. Conhece-me a mim, à minha mulher e à minha filha. Só podia ser ele, pela lógica. Acho que essa pessoa foi com o intuito de me proteger”, prosseguiu. Mais tarde, confirmou que tinha recebido a mensagem “Sai daí que vai haver m****” de alguém que tinha ido levar Luís Maximiano e Rafael Leão à Academia mas que só leu depois.

“Depois de acontecer aquilo, nunca andava sozinho na rua. Tive sempre receio de encontrar um adepto e voltar a acontecer o mesmo. Andei sempre com alguém comigo”, referiu o internacional em resposta à procuradora do Ministério Público. “Até em casa não me sentia bem, tinha medo que alguém entrasse ali dentro e acontecesse outra vez. Qualquer barulho entrava na cabeça e lembrava-me do que tinha acontecido”, acrescentou depois.

Por fim, Gelson Martins falou também da reunião que houve entre Bruno de Carvalho e os jogadores na véspera da invasão e no seguimento de uma outra onde terá comunicado o “fim de linha” a Jorge Jesus. “O presidente lembrou o que se passou na Madeira, disse que o Acuña não devia ter respondido à claque e que as claques queriam saber a morada e a matrícula dos nossos carros”, contou sobre esse encontro em Alvalade.

A 23.ª sessão do julgamento do caso de Alcochete realiza-se na próxima quarta-feira, dia 29, com o enfermeiro Carlos Mota e o antigo jogador Cristian Piccini de manhã e o também ex-atleta do clube Fábio Coentrão à tarde. Na sexta-feira, além de William Carvalho que estava já apalavrado, André Geraldes, antigo team manager que é uma das testemunhas chave do processo, pediu para ser ouvido por videoconferência, algo ao qual os advogados irão pronunciar-se até segunda-feira. Estão também marcados já para as sessões futuras Frederico Varandas, antigo responsável pelo departamento médico que é hoje presidente do Sporting (dia 7), Petrovic (dia 7) e José Sousa Cintra, ex-líder do clube e da SAD na altura da Comissão de Gestão (dia 14).