O encontro dentro de um avião no aeroporto de Barajas, o principal de Madrid, entre o ministro dos Transportes espanhol, José Luis Ábalos, e Delcy Rodríguez, número dois do regime venezuelano de Nicolás Maduro, está a causar polémica em Espanha. Isto porque as sanções da União Europeia (UE) à Venezuela incluem a proibição de 25 apoiantes de Maduro — entre os quais Rodríguez — de sobrevoarem o espaço aéreo da UE.

Delcy Rodríguez faz parte da lista de altos funcionários do regime venezuelano que, desde 2017, estão proibidos de sobrevoar e entrar na União Europeia por cumplicidade à repressão e à violação dos direitos humanos no país. Segundo o Conselho Europeu, as ações da responsável “minaram a democracia e o Estado de direito na Venezuela, em particular através da usurpação dos poderes da Assembleia Nacional e o seu uso para atacar a oposição e impedi-la de participar no processo político”. Rodriguez estava, assim, segundo o El Español, impedida de aterrar em Madrid. Então por que razão se encontrou com um ministro no interior do avião?

Segundo o El Español, as versões indicam que o Governo sabia da chegada de Rodriguez. Numa entrevista este sábado ao diário La Razón, Ábalos diz que se dirigia ao aeroporto para se encontrar com o ministro do Turismo da Venezuela (que não está proibido de aterrar em território da UE) e que chegaria de Caracas. “Ao chegar ao aeroporto, o ministro do Interior espanhol (equivalente a Administração Interna), Fernando Grande Marlaska, liga-me para me dizer que a ministra dos Negócios Estrangeiros, Arancha González Laya, recebeu uma informação da embaixada venezuelana de que nesse avião também viajava a vice-presidente [da Venezuela], Delcy Rodríguez. E disse-me: ‘Já que lá vais, tenta que ela não saia do avião'”. A aeronave tinha como destino final a Turquia.

É aqui que as contradições começam. O ministro dos transportes espanhol começou por negar que tivesse mantido uma reunião com Rodriguez. Depois disse que, afinal, tiveram um “contacto formal”, para mais tarde admitir que subiu ao avião, cumprimentou a vice de Maduro e conversou com ela durante alguns minutos, conta o El Mundo. E disse-lhe: “lamentavelmente, não pode pisar território espanhol”. Outras versões falam em 30 ou mesmo 40 minutos de encontro a dois.

A reunião não foi bem recebida em Espanha. O assunto faz capa nos principais jornais e a delegação do PP no Parlamento Europeu endereçou uma pergunta escrita a Josep Borrel, Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, para que clarifique se a viagem de Rodríguez desrespeitou as sanções. Aliás, o PP, o Ciudadanos e o Vox exigiram a demissão do ministro caso ele se tenha reunido com Rodríguez.

As críticas chegaram também dos Estados Unidos da América, que considerou “surpreendente” o encontro. “Mina toda a infraestrutura comunitária, que confia na cooperação para a implementação deste tipo de sanções”, disse uma responsável do Departamento de Estado, Carrie Filipetti.

O incidente provocou algum mal-estar dentro do Executivo, mas também no PSOE, pelas consequências diplomáticas que poderá ter. O Governo de Pedro Sánchez é o primeiro de coligação em Espanha. O seu parceiro no executivo é o Podemos de Pablo Iglesias, um partido com extensas ligações ao regime chavista, para quem Iglesias e outros elementos históricos do partido trabalharam como consultores.