Título: A Noite em Que o Verão Acabou
Autor: João Tordo
Editor: Companhia das Letras
Páginas: 672
Preço: 22,00€

Em A Noite em Que o Verão Acabou, a estreia de João Tordo no universo dos thrillers¸ somos apresentados ao misterioso assassinato de Noah Walsh e do seu companheiro de negócios, Matthew Pinkus. A história é-nos contada por Pedro Taborda, um jovem aspirante a escritor que se tinha apaixonado na adolescência, doze anos antes do macabro crime, por Laura, a filha de Noah. Laura, que se reencontrara com Pedro nas ruas de Nova York pouco antes da referida tragédia, irá arrastar o estudante de literatura para o epicentro de um enigma que abalaria não só a pequena vila de Chatlam mas também os Estados Unidos durante o quente verão de 1998.

Talvez a maior virtude de A Noite em Que o Verão Acabou seja a tentativa de arrastar o mistério para fora dos limites do próprio livro, deixando o leitor na dúvida acerca de quanto do que acabou de ler corresponde, de facto, à verdade. Tordo cria essa ilusão de forma hábil em primeiro lugar através da inclusão de inúmeros acontecimentos que pretendem situar a história num momento bem concreto da vida estadunidense (é exemplo disso o processo de impeachment a Bill Clinton que vai decorrendo enquanto a ação se desenrola). Mas Tordo vai mais longe e a essa sobreposição de planos acrescenta uma personagem principal com uma estrutura familiar bastante parecida com a sua (Pedro tem aproximadamente a idade de João Tordo, vem de uma estrutura familiar relativamente parecida com a sua e parece partilhar alguns dos interesses do escritor, nomeadamente a paixão pelo género policial) e ilude o leitor ao dedicar o livro às suas personagens, chegando até a, nos agradecimentos, falar apenas de personagens do romance que acaba de concluir. Não contente, Tordo irá, a meio da intriga, colocar Pedro a explicar que desejava escrever sobre o caso Walsh “mas de maneira disfarçada. Usarei nomes falsos, lugares que não existem. Esconderei a identidade das pessoas reais sob a máscara de personagens” (página 417).

João Tordo percebe que aquilo que nos prende a um thriller é a capacidade que este tem de criar em nós a ideia ilusória de que o mistério que estamos a ler foi efetivamente vivido pelas personagens que o escritor inventa e manieta, não se circunscrevendo, então, apenas às páginas do livro.

No entanto, se o sucesso depende dessa verosimilhança, o engodo tem de ser consistente. O que o narrador nos diz sobre si mesmo tem de ser credível e sob esse ponto de vista O Dia em Que o Verão Acabou tem algumas falhas. Ao longo do romance, é notória uma hesitação entre o estatuto de Pedro. Se Pedro é, como vai sendo sugerido essencialmente a partir da segunda metade do livro, o escritor da obra que lemos e se nos está a contar o que viveu nos anos em que lidou de perto com Laura Walsh, então o romance, mais do que a história dos homicídios de Chatlam, narra a adolescência e início da vida adulta de Pedro vistos a partir de dentro. A ser assim, a importância de ser Pedro a contar-nos o que lemos é incontornável. Aceitar isto implica, portanto, aceitar que a história importa na medida em que se relaciona com o jovem aspirante a escritor. Sob esse ponto de vista é bizarro que Pedro se refira a algumas personagens ora no tom que esperaríamos dada a relação que tinham com elas ora num tom distante, formal e sóbrio que se esperaria vindo de um jornalista que pretendesse apenas reportar friamente os factos (sob este prisma, veja-se, por exemplo, as referência ao longo do livro à tia ou à avó de Pedro por parte do narrador pelo nome próprio destas ou o momento peculiar em que Pedro se refere à avó como ‘minha avó’ e à sua irmã como Júlia, assim mesmo, sem artigo definido antes:

“Ela estava a tirar a roupa do estendal com a minha avó quando Júlia começou a respirar com dificuldade” (p. 54)).

O maior problema de A Noite em Que o Verão Acabou parece ser, contudo, de natureza diferente, prendendo-se com a dificuldade com que um escritor habituado a escrever romances certamente se depara ao aventurar-se nos sinuosos caminhos de um thriller. Os melhores momentos da narrativa são, de longe, as cenas na praia em que Tordo procura, com sucesso, descrever um quotidiano banal. Essas cenas mais despidas e despojadas em que as personagens, imersas num mundo previsível como é o nosso, são confrontadas com as suas derrotas, inseguranças e fragilidades. Veja-se, sob esse ponto de vista, o momento em que Pedro observa os Walsh junto à piscina da casa que tinham alugado no Algarve e assiste, enternecido, suspeitoso e excluído, ao peculiar afeto que Noah tinha pela sua filha mais nova. Diz Pedro que Noah se sentou “na beira da piscina e abraçou a filha num gesto que me pareceu exagerado: o meu pai nunca abraçara a minha irmã daquela maneira, passando-lhe o braço pela cintura” (p. 27).

Ao tentar escrever um thriller, estas ambiguidades têm de ser postas de parte. Aí, o escritor não deve dar tanta atenção às subtilezas de carácter ou à beleza que se esconde nos pequenos gestos, mas antes deixar que as personagens funcionem como peões para que estas se movam de acordo com o grande plano que guardou para elas. João Tordo arquitetou de forma inteligente e bastante pormenorizada o enredo, mas ao assumir o tom de escritor de thriller vê-se forçado a abdicar das suas maiores virtudes enquanto escritor, dando mais espaço a opiniões fortes e simplistas acerca, por exemplo, de criminalidade, da natureza humana ou de literatura em geral, muitas vezes veiculadas pela personagem mais desinteressante do romance, Gary List, o escritor alcoólico que Pedro idolatra.

As personagens que pertencem exclusivamente ao universo do thriller são sempre, por isso, devido à radical diferença entre thrillers e romances, demasiado caricaturais: a mulher vamp, vestida de casaco e saia vermelhos e saltos altos; o advogado da família Walsh, sempre “de fato cinzento e aborrecido. Os óculos escuros, mesmo num dia sombrio. O anel no dedo mindinho da mão esquerda, um cachucho com um brasão qualquer”; ou o advogado da agência de seguros ganancioso que se move nos bastidores e anda por Chatlam de fato preto e gravata dourada, cabelo puxado atrás, coberto de brilhantina e com uma mala de advogado na mão. É, por isso, lamentável que momentos simples, bonitos e bem construídos que encontramos  essencialmente na primeira parte, como aquele em que Pedro assiste ao longe à confraternização de Júlia com Laura enquanto inveja o momento em que as duas amigas “riam, sentadas nas respectivas toalhas, e brincavam a com a areia, pegando-lhe com as mãos fechadas em punho e deixando-a escorregar por entre os dedos” (p.28) deem mais tarde lugar a episódios como aquele em que Laura dá um estalo a um rapaz impertinente enquanto o som dessa bofetada se propaga “pelo bosque e assustou um mocho que repousava num ramo de uma árvore e voou para longe” (p.333)

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