Fernando Alvim, uma das vozes mais conhecidas da rádio portuguesa, é também um dos maiores “idiotas” do país. Por “idiotas” leia-se “pessoa que tem muitas ideias”, ou que, ainda que a idade avance, quer estar sempre a criar. Já ouviu falar da “Prova Oral”? Do “É A Vida Alvim”? Dos “Monstros do Ano”? Da regata de barquinhos a remos? Tem o selo de Alvim. Mas talvez não haja projeto mais antigo do que o Festival Termómetro, um concurso que nasceu em 1995, primeiro no Porto, depois em Lisboa, viajando, mais tarde, à volta do país, que foi exclusivamente acústico e deixou de ser, exclusivamente nacional mas que já não o é, e que ajudou a levar muitos artistas para palcos maiores. “Acho que o festival sobreviveu porque fomos, de ano para ano, sabendo fazer uma renovação”, afirma ao Observador.

Mas olhemos para trás. Passaram-se os anos, ainda que o festival não tenha sempre tido edições anuais, o Termómetro foi-se abrindo a outras cidades, de Santa Maria da Feira ao Funchal e até a Madrid, como aconteceu nas eliminatórias desta edição, ainda em 2019. Começou em bares, depois vieram os auditórios. Primeiro veio a música acústica, mas outros estilos foram surgindo. Há dez anos abriu a porta a bandas e artistas internacionais, mas, na próxima edição quer tocar à campainha dos Estados Unidos da América. “É bem possível que, na próxima edição, o festival chegue a Nova Iorque”, diz-nos um confiante Fernando Alvim.

Enquanto aguardamos para ver se a vontade se concretiza, o melhor é perceber se o criador esperava ser uma espécie de “padrinho” de algumas bandas ou artistas que hoje conhecemos, como Noiserv, “que criou o projeto especialmente para o festival”, Silence 4 ou Richie Campbell. “Sempre tivemos essa esperança, e muitos desses nomes, agora conhecidos, confirmaram as suspeitas que tínhamos na altura”, comenta. Quanto à ideia de que o Termómetro veste a capa de festival alternativo, Fernando Alvim baralha e volta a dar: “Somos alternativos sem ter medo do mainstream”.

Em retrospetiva, como é que este festival nasceu? “Nasceu da vontade de um adolescente, com 18 anos, que na altura estava numa pausa das coisas da rádio, de criar algo relacionado com a música. Mas nunca pensei que ia durar 25 anos. Pensei que era só uma edição, um ‘one shot’”.

Contra as expectativas do próprio criador, o Termómetro foi continuando, sendo que a maior dificuldade foi mesmo a divulgação, ainda que se pudesse pensar que poderiam ser dificuldades técnicas ou financeiras. Até porque se vive numa altura em que as redes sociais dão todas as ferramentas a novos nomes para se promoverem. “Não é fácil divulgar bandas que não são conhecidas. Acho que o Termómetro durou por causa das bandas, não tanto por eu me ter tornado uma figura mediática, quero acreditar. E acho que, não estando as bandas tão dependentes da comunicação social ou dos próprios grandes festivais para se promoverem, podem ter aqui a experiência de tocar em bons espaços, próximos do público”, diz.

E no meio de tanta edição, não houve, afinal, uma daquelas histórias rocambolescas para mais tarde lembrar e que costumam fazer parte dos projetos de Fernando Alvim. “Uma vez o Rodrigo Cardoso, da editora Bor Land, que já teve bandas vencedoras no Termómetro, participou no festival com uma maquete de uma banda internacional alternativa, que era desconhecida. Ou seja, a maquete não era dele. Mais tarde confessou que nos tinha mentido”, finaliza.

A final da 25.ª edição acontece já este sábado, dia 25 de janeiro, no LAV — Lisboa ao Vivo, a partir das 21h30, e vai contar com a participação especial dos First Breath After Coma. Flor (Funchal), Foggy (Palermo, Itália), Rope Walkers (Lisboa), Bia Maria (Ourém) e Soho Soho (Lisboa) são as cinco bandas em palco. Quem vencer vai poder atuar nos festivais NOS Alive e Bons Sons, ganha 20 horas de gravação em estúdio e um videoclipe. Fechados os 25 anos, e a ambição de chegar a terras do Tio Sam, Fernando Alvim só ainda não conseguiu lucrar com o festival. “Nunca enriquecemos, infelizmente”, remata.