(artigo em atualização)

Como é normal em todas as sessões agendadas do julgamento do caso de Alcochete, há uma tendência geral para se colocar como grande enfoque a audição dos jogadores do Sporting que estavam presentes no balneário a 15 de maio e que viveram um final de temporada atípico nos leões que teve também um dos episódios mais negros da história do clube com a invasão à Academia. Nesse sentido, Cristian Piccini, lateral direito que representa hoje o Valencia e que falou por Skype, e Fábio Coentrão, que se apresentou como “jogador de futebol reformado”, deveriam ser os grandes destaques da 23.ª sessão. No entanto, houve outro depoimento que “furou” esta lógica.

Carlos Mota, enfermeiro do Sporting que referiu ter feito a sutura na cabeça de Bas Dost, surgiu como assistente do processo no Tribunal de Monsanto e falou em “pessoas com agendas próprias” e que se terão aproveitado de tudo o que se passou naquele dia 15 de maio de 2018, ao mesmo tempo que referiu haver “muita gente que queria mandar embora o presidente” e, de forma indireta, que Bruno de Carvalho achava no momento em que chegou à Academia em Alcochete que havia quem considerasse que poderia ter alguma ligação ao que se tinha passado.

[O resumo do dia 22 do julgamento do caso de Alcochete]

O na altura enfermeiro do Sporting começou o depoimento com um tom muito sereno e coloquial, dizendo que “chegava sempre a horas ao local de trabalho” e que quando os invasores chegaram à Academia para aquilo que descreveu por mais do que uma vez como “assalto” estaria no seu posto, o gabinete médico. “Quando ouvi barulho fui para junto dos jogadores que são a causa da minha presença ali, para tentar apaziguar as coisas”, explicou à juíza Sílvia Rosa Pires, que estava a fazer as questões por ser assistente no processo – algo que cá fora explicaria de forma detalhada. “Não fui à GNR logo nesse dia como todos os outros porque também tinha ido receber assistência hospitalar, depois a minha filha, que é advogada, perguntou-me porque não tinha ido e se não queria e lembro-me que fui prestar depoimento no dia em que Bruno de Carvalho foi detido”, disse.

“Tentaram fechar a porta do balneário, penso que era o Vasco [Fernandes] e depois as portas foram fechadas, pelo menos aquelas do bloco central. Uma delas cedeu e entraram para o balneário. Mas não sei…”, prosseguiu, com o receio de estar a fazer o esforço para se recordar dos detalhes e poder dizer alguma imprecisão.

– Sabe doutora juíza, uma pessoa está ali e é fixa um ponto…
– Olhe, eu se estivesse nessa situação não me lembrava de muita coisa que já foi dita aqui. As pessoas são mesmo assim, nestas situações umas lembram-se de tudo, outras não se lembram de quase nada…

“Foi uma coisa que durou uns três minutos, três minutos e meio. Vi um indivíduo a tentar bater no Misic. Entraram todos de seguida e foram-se distribuindo por todos os sítios. Eu estava a tentar defender os jogadores. Fiquei na zona dos cacifos, fiquei à esquerda como quem entra no balneário. Ficava ali o Misic… Penso que o Ristovski, o Bas Dost. Sei que eles iam focados em alguns jogadores mas ficavam fora do meu ângulo de visão, não consegui ver nenhuma lambada. Havia muito barulho, não me lembro do que diziam. Penso que abriram uma tocha, depois ouvi dizer duas. O Misic estava em pé no lugar dele, o indivíduo fez várias vezes o movimento com o cinto, não sei quantas vezes lhe tocou ou não, mas já não tinha fivela. Só o vi mesmo com o cinto na mão. É aí que sou agredido e tive de ir ao hospital. No final foram saindo todos em simultâneo”, contou Carlos Mota, enquanto ia fazendo com os braços o movimento com que o agressor do antigo médio do Sporting atingia com o cinto.

“Não consigo dizer quantas pessoas entraram, para cima de dez de certeza. Eu não fui refugiar-me, não tive medo do ataque porque andei na guerra. Mas teve um aspeto de terror e descambou. Descambou com o Bas Dost, descambou comigo, descambou com o fisioterapeuta [Ludovico Marques]… Depois ajudei a segurar a ferida do Bas Dost, disse que o segurava. A primeira vez que o vi estava ele sentado a chorar num espaço de banho, estava caído. Fui eu, o Ludovico e o Bas Dost mais tarde ao hospital. E sim, ouvi o alarme de incêndio, por causa do fumo”, acrescentou, antes de falar de outras idas de adeptos da claque à Academia: “Não sei se das outras vezes estavam à espera porque estava lá para trabalhar, para servir o Sporting, mas nessas vezes estava tudo bem, reclamaram mas a bem, os seguranças iam a acompanhar os adeptos e foi tudo pacífico”.

Sobre o jogo na Madeira com o Marítimo, Carlos Mota admitiu ter ouvido muita coisa que não se lembrava mas ficou com uma frase que terá sido dita na altura por Fernando Mendes, antigo líder da Juventude Leonina: “No próximo treino, na terça-feira vamos lá estar”. “Aconteceu aquilo que acontece em qualquer situação daquelas, uns a tentar agarrar, outros a tentar agredir… O Nelson tentou segurar alguém, o mister Jesus também, estavam contra o Acuña e o Battaglia mas não ouvi os nomes que tinham chamado. Aquela frase ouvi de certeza e quando a disse até tinha o dedo no ar a dizer ‘No próximo treino, terça-feira vamos lá estar”, frisou.

Já sobre a reunião em Alvalade na véspera da invasão, a terceira que reuniu o staff já depois do primeiro encontro apenas com equipa técnica e um segundo com os jogadores, o enfermeiro dos leões disse recordar “perfeitamente as palavras que foram ditas”. “Estava o departamento clínico, as pessoas da rouparia, o Vasco [Fernandes, ainda hoje secretário técnico], o segurança Ricardo [Gonçalves], o senhor presidente na altura, muita gente… Tenho a perceção que havia mais alguém mas falei com muita gente, o melhor nos dirigentes é ficar só pelo doutor Bruno de Carvalho. No momento em que são ditas aquelas palavras, vivia para trabalhar, nem férias tinha porque quando acabava a época do plantel principal ia para os torneios dos miúdos. Havia muito descontentamento, muita gente a querer mandar o presidente embora, houve muita coisa que não percebi. Percebi a frase do ‘Amanhã quero ver quem está comigo’ mas não perguntei a ninguém. Posso dizer que não percebi nada daquilo, não dei importância. Se já se comentava que o Jorge Jesus tinha sido despedido? Sim, por causa da reunião anterior”, explicou, na primeira vez em que falou de haver quem quisesse que Bruno de Carvalho saísse.

Começaram aí as perguntas dos advogados e da própria procuradora que, ao contrário do que aconteceu antes com Piccini, interveio depois por Carlos Mota ser o assistente. Seguiu-se Miguel Coutinho, advogado do Sporting que também é assistente no processo. E os restantes advogados dos arguidos. Numa altura em que falava mais afastado do microfone, o que dificultava a audição na zona mais atrás da (longa) sala do Tribunal de Monsanto onde está a decorrer do julgamento de Alcochete, o enfermeiro admitiu não ter visto um jogador no balneário, o fisioterapeuta Gonçalo Álvaro e também o então diretor clínico e hoje presidente Frederico Varandas. “Esse tenho a certeza que não estava no balneário”, atirou, recordando depois o garrafão e outras coisas no chão do balneário.

– Viu alguém tirar aquela fotografia conhecida ao Bas Dost?, questionou uma advogada.
– Se fosse alguém que me dissesse que ia tirar a fotografia, mandava-o embora… Ninguém se queria chegar à frente para suturar o Bas Dost… Toda a gente tem a sua agenda…

Esta foi a primeira vez onde se sentiu um discurso “diferente” do que é normal entre as testemunhas do Ministério Público, neste caso também assistente. “Se vi Bruno de Carvalho cá fora? Sim, depois, quando chegou. Falei com ele, disse-lhe ‘Doutor, isto é uma vergonha’. Se ouvi os jogadores recusarem-se a falar com o presidente? Não mas ouvimos sempre umas coisas, sou o maior confidente dos jogadores… Concretamente não ouvi nada mas havia um sentimento de angústia. Fui educado a respeitar os meus chefes, para mim o patrão tem sempre razão naquilo que disse”, referiu Carlos Mota a esse propósito. Cá fora, quando falou a todos os jornalistas que estiveram presentes na parte matinal, acrescentou ainda mais um dado a essa conversa que teve com o antigo líder leonino. “Vinha com um semblante triste. Disse-lhe que aquilo tinha sido uma vergonha e ele respondeu ‘Oh Mota, tu também achas que fui eu que encomendei isto?’ e disse que não, que achava só que era uma vergonha” – assumindo assim que Bruno de Carvalho tinha essa perceção logo no dia do ataque.

“Mais tarde estive a retirar os pontos com o doutor Frederico Varandas. Foram seis pontos. Por causa do jogo da Taça de Portugal tirou-se um bocado mais cedo. Havia um sentimento de revolta entre os jogadores, por causa do assalto. Só treinámos no sábado, fizemos a concentração num hotel em Cascais. Varandas disse-me que se podiam tirar, concordou e tirou-se”, antes de fazer mais considerações que levaram a juíza a interromper Mota.

Vamos lá ver: eu não tenho aqui nenhuma agenda! Isto aqui não é bola, são factos e são crimes…”, atirou Sílvia Rosa Pires, recuperando uma ideia que tinha sido repetida antes.

“O Bas Dost estava combalido, com muito medo, muito medroso e revoltado, com medo que se pudesse repetir. Tinha segurança privada à porta de casa”, completou, antes de falar aos jornalistas no exterior do tribunal, dizendo também aí que o avançado holandês “não dizia nada, só chorava, nem se queixava a dizer que doía…”.

“Como disse lá dentro, não vi a agressão ao Bas Dost mas fui eu que o suturei, ninguém se chegou à frente… No meu primeiro ano no Sporting posso dizer que fui repreendido por ter feito uma sutura na Academia que tinha de ser feita porque achavam que se tinha de esperar uma hora que chegasse um médico de Lisboa. E fui repreendido dizendo eles que era um ato médico”, comentou. “Sim, Frederico Varandas também lá estava. Porque não foi ele a fazer a sutura? Não faço a mínima ideia do porquê de ninguém se ter chegado à frente, sei que o homem estava ali a sangrar, a chorar, deitado e eu propus-me suturá-lo”, acrescentou o enfermeiro, dizendo que é sportinguista desde que nasceu tal como os filhos e netos. “Até por isso, é muito triste que alguém se tenha aproveitado destas situações para denegrir e continuar a dar cabo do Sporting”, atirou.

– Refere-se a Bruno de Carvalho?
– Não, ele era presidente na altura e respeitava-o por isso.
– Então quem se aproveitou disso?
– Quem ganhou…
– Pode precisar quem ganhou?
– Ganhou quem tinha de ganhar…

“O modo tranquilo de [Bruno de Carvalho] falar parecia estranho”, diz Piccini

Antes tinha falado por Skype Cristian Piccini. O lateral italiano começou por fazer uma descrição muito idêntica aos outros jogadores em relação ao início da invasão. “Entraram 20 a 30 pessoas no balneário, onde havia muito fumo. Alguns ficaram de guarda à porta para que ninguém saísse mas não tenho ideia se chegaram mesmo a fechar a porta. Vi só depois o Bas Dost ferido”, referiu numa primeira fase de forma resumida.

“Os jogadores estavam dentro do balneário e havia funcionários fora, o treinador também já estava fora. Lembro-me que quando o treinador se apercebeu da situação regressou ao balneário. O alarme estava a tocar, sim, mas não me recordo se começou a tocar antes ou depois de terem entrado. Não sei se houve um toque a reunir entre os indivíduos quando iam sair mas uns foram pela porta principal dos jogadores e outros pela porta automática, que tinha sido forçada, percebia-se pelos fios soltos”, salientou o transalpino que joga hoje no Valencia.

É óbvio que num momento daqueles uma pessoa se sente insegura e que a seguir também se sente assim, não só em relação a mim mas também à minha mulher e à minha filha”.

Piccini falou depois do encontro na Madeira, que terminou com a derrota do Sporting frente ao Marítimo que custou o acesso à terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões da temporada seguinte. “No final do jogo houve uma troca de insultos entre público e jogadores, que não gostaram. Depois havia um grupo a insultar o Acuña e o Battaglia quando chegámos ao aeroporto e a segurança Interveio, fizeram check in rapidamente para evitar qualquer tipo de confrontos dentro do aeroporto”, recordou, prosseguindo: “Era um grupo de 15 pessoas mas havia um ou dois que gritavam e insultavam mais, os que estão no processo”.

No final das questões da procuradora do Ministério Público, o atual jogador do Valencia falou também da reunião na véspera da invasão em Alvalade com o então presidente do Sporting, Bruno de Carvalho. “Estive na reunião dos jogadores, que se centrou muito no que se tinha passado na Madeira, com o presidente a dizer ao Acuña e ao Battaglia que não deviam ter respondido assim, falando depois da Taça. O modo tranquilo de falar parecia estranho porque era diferente em relação às outras reuniões. O treinador tinha dado dois dias livres, 14 e 15, e o presidente cortou o dia 15. Se disse a hora do treino? Não me recordo mas todos assumimos que seria no horário normal, salvo erro costumava ser de manhã”, recordou Cristian Piccini.

Em resposta aos advogados, o italiano referiu que havia alguns alvos específicos “como o Rui Patrício, o William, o Acuña e o Battaglia”. “Explico porquê: tive um dos indivíduos mesmo de frente para mim, cara a cara, e não me fez nada. Se fosse para atacar todos não seria assim”, disse antes de uma tirada que colocou a sala a rir.

Ainda se lembra de ter ido falar à GNR nesse dia?
Sim, fui lá falar.
Em que língua?
Falei em portunhol… Pode haver imprecisões em relação ao que disse na altura, admito que esses factos estão mais próximos da verdade porque disse logo no dia…

“No momento não tomei nenhuma medida de segurança, disse à minha mulher para ir para fora mas ela não quis porque disse que estava ao meu lado. A equipa ficou sem condições e não estava preparada nem em condições para fazer o jogo da Taça, só fizemos um treino no sábado, véspera do jogo”, salientou, antes de explicar também o ambiente que se vivia entre os jogadores a propósito da presença de Bruno de Carvalho na Academia.

“O então presidente do Sporting chegou depois. Se disse que não queria falar com ele? Alguns disseram que não queriam falar com ele, o Rui e o William que eram os capitães, eram os responsáveis pelas decisões do grupo. Não me recordo de mais alguém a dizer que não queria falar com ele mas era um sentimento comum, tudo o que se estava a passar ali era estranho e não queríamos falar com o presidente”, concluiu.