Nasceu em Caracas, mudou-se para Espanha (e nos treinos para a Academia de Ténis de Sergu Bruguera), teve um problema no tornozelo que lhe retirou uma mais rápida ascensão, começou a dar nas vistas nos pares, ganhou o primeiro torneio em 2014 no Hobart International, na Austrália, após derrotar Klára Zakopalova. Seis anos depois, no mesmo país mas em Melbourne, podia vencer o primeiro Grand Slam da carreira. Pelo meio, viveu de tudo.

Garbiñe Muguruza teve anos fantásticos em 2016 e 2017. Conquistou Roland Garros, conquistou Wimbledon, conquistou o primeiro lugar do ranking mundial. Seguiu-se uma curva descendente que teve como ponto mais baixo o ano de 2019. Não ganhava jogos, não passava rondas, sobretudo não sorria em campo porque nada lhe parecia correr bem e não tinha propriamente vontade de andar pelos courts. Nas férias, refugiou-se no topo de Kilimanjaro e encontrou ali o ponto de viragem para perceber onde tinha chegado, para onde queria ir e qual seria o melhor caminho nesse objetivo. Essa autocrítica transformou-se no segredo para a redenção.

Teve períodos de solidão, de silêncio, de reflexão. Ao mesmo tempo, e percebendo que isso não seria o suficiente, voltou a trabalhar com a antiga campeã espanhola Conchita Martínez. “Isto é um pouco como os casais, não? Todos queremos que o Brad Pitt e Jennifer Aniston se voltem a juntar”, comentou a agora treinadora na Austrália entre risos. Mais do que iniciar uma segunda vida, Muguruza mudou e surgiu mais resistente, mais comprometida com o jogo, mais capaz e controlada. E foi assim que construiu um caminho sem mácula até à final que até começou com uma “bicicleta (6-0) sofrida no primeiro jogo com Shelby Rogers, a quem ganharia depois por 6-1 e 6-0. Pelo meio, venceu de forma convincente Elina Svitolina, Kiki Bertens e Simona Halep.

O último obstáculo tinha tudo para ser o mais complicado na prática mesmo que a teoria assim não o apontasse. Sofia Kenin, que nunca tinha passado de uma quarta ronda do Grand Slam (Roland Garros, 2019) mas que ganhara a Coco Gauff ou Ashleigh Barty no caminho até ao encontro decisivo em Melbourne. Nascida em Moscovo mas desde o primeiro ano de vida na Flórida onde vive e estuda, Sonya, como também é conhecida pelos amigos, foi mais um talento precoce (neste caso, comparado de quando em vez com Martina Hingis) saído dos Estados Unidos que quis arriscar o profissionalismo em vez do percurso universitário e que desde cedo mostrou uma força mental e uma agressividade capazes de fazerem a diferença assim que houvesse a semana do “clique” certo. Que teve o primeiro sinal em 2019 quando, com 20 anos, ganhou o primeiro torneio… em Hobart como Muguruza.

Para explicar o percurso de sucesso na Austrália, nada como fazer como a própria e recuperar um vídeo de quando tinha apenas sete anos. Ali, quando tinha o ténis como paixão e não profissão, já dizia que conseguiria travar o serviço de Andy Roddick, o canhão americano com uma particular facilidade em fazer ases que deixavam os seus adversários pregados no c. E foi esse momento que recordou também este ano em Melbourne.

– Que idade tens?
– Sete.
– Seeeeete? E qual é o segredo para ganhares ao Andy Murray?
– Eu vou devolver o serviço dele.
– Como é que vais conseguir devolver o serviço dele?
– Se me dividir e conseguir dar a volta… (…)
– Esta é a tua raquete?
– Sim.
– Usas a mesma raquete do Andy Roddick…
– Porque quero que a minha raquete seja igual à do Andy Roddick!

Quando era mais nova, Kenin tinha um especial gosto em juntar-se a todas as antigas glórias como John McEnroe ou Kim Clijsters nos torneios que ia disputando. Pedia autógrafos, tirava fotografias. Este sábado, os papéis foram invertidos e assumiu ela o protagonismo, tornando-se a mais nova vencedora em Grand Slams desde Maria Sharapova, em 2008, isto depois de ter vencido Serena Williams (a outra jogadora ainda no ativo com triunfos em Majors nos três pisos) em Roland Garros no ano passado. E até começou por perder o primeiro set por 6-4, aproveitando depois a clara quebra física de Muguruza para fechar o jogo com um duplo 6-2.

A tendência que se tem registado desde 2017 nos Grand Slams femininos mantém-se, com a imprevisibilidade no resultado a ser uma regra com raríssimas exceções. Vejamos: em 2017, pela ordem temporal, ganharam Serena Williams, Jeļena Ostapenko, Garbiñe Muguruza e Sloane Stephens; em 2018, Caroline Wozniacki, Simona Halep, Angelique Kerber e Naomi Osaka; em 2019, Naomi Osaka, Ashleigh Barty, Simona Halep e Bianca Andreescu. Agora, Sofia Kenin. Tudo em aberto para Roland Garros com uma certeza: a partir de agora, há mais um nome a juntar ao lote das favoritas. O nome de quem achava com sete anos que travava o serviço de Roddick. “Os sonhos são possíveis de concretizar. Tive as duas melhores semanas da minha vida”, disse no final.