“O derradeiro underdog“. É assim, sem grandes rodeios, que a comunicação social norte-americana tem falado de Raheem Mostert. Aos 24 anos, o running back dos San Francisco 49ers vai estar pela primeira vez no Super Bowl, chegou pela primeira vez ao topo da própria carreira e está pela primeira vez na boca dos adeptos de futebol americano. Para isso, precisou de ser despedido seis vezes, de quase ser atacado por um tubarão, de ver o meio-irmão ser baleado pelo próprio pai e de dar um tiro no próprio pé.

Mas comecemos pelo início. Raheem cresceu em New Smyrna Beach, na Flórida, a cidade conhecida como a “capital dos ataques de tubarões” — o que dá desde já uma pista para uma das quatro linhas narrativas do impressionante argumento que depressa poderia dar origem a um filme de Hollywood. Não foi em New Smyrna Beach, porém, que o atual jogador de futebol americano nasceu: Raheem nasceu em Daytona Beach, também na Flórida, mas mudou-se várias vezes ao longo da infância até assentar no local onde acabaria por completar o ensino secundário, sempre para fugir à violência dos gangues ou a senhorios mais implacáveis. Durante as consecutivas mudanças, de bairro para bairro, de casa para casa, de rua para rua, as fotografias da infância de Raheem acabaram por se perder entre caixas e caixotes. Atualmente, aos 24 anos, o atleta não tem qualquer recordação dos primeiros anos de vida.

Em agosto de 2014, com 22 anos, ainda a jogar na Universidade de Purdue

Não que precise de fotografias para se recordar daquilo que foi a própria infância e adolescência. Para isso, na verdade, só precisa de se descalçar. Aos quatro anos, descobriu entre a roupa suja uma arma, comprada pelo padrasto, e acabou por dar um tiro no próprio pé enquanto brincava com ela. Sem parte de um dos dedos, Raheem garante agora que é o seu “amuleto da sorte”. “Mas não quero que as pessoas pensem: ‘Oh! Tens de dar um tiro no pé!’. Não encorajo isso”, explicou em entrevista ao Bleacher Report, como forma de deixar claro que não acredita que as dificuldades que teve durante a infância tenham sido cruciais para o sucesso que acabou por alcançar.

Raheem Mostert entrou na NFL em 2015: não foi escolhido por nenhuma das equipas no draft desse ano mas acabou por assinar pelos Philadelphia Eagles. Como principal atributo, apresentava uma velocidade fora do comum que lhe é natural mas que foi aprimorada e potenciada na universidade, onde praticou atletismo além de futebol americano. Apesar de ter realizado uma boa pré-temporada com os Eagles, acabou por ser relegado para a equipa secundária — foi a primeira de seis despromoções consecutivas para o jogador, ao longo de seis equipas diferentes. Em dois anos, 2015 e 2016, Raheem foi contratado e despedido por seis equipas: depois dos Eagles, seguiram-se os Miami Dolphins, os Baltimore Ravens, os Cleveland Browns, os New York Jets e os Chicago Bears. Em novembro de 2016, assinou pelos San Francisco 49ers sem um laivo de perda de esperança. Um pormenor que lembra outra cena capital no filme de Hollywood que é a vida de Mostert.

Com o filho ao colo, no final do jogo contra os Packers que garantiu a ida dos 49ers ao Super Bowl

Aos 16 anos, estava sentado num prancha de surf no oceano, com as pernas dentro de água, enquanto conversava com amigos que estavam a fazer exatamente o mesmo. Afastou-se uns metros, para zonas mais profundas, para tentar apanhar uma onda. Nessa altura, uma barbatana apareceu à superfície — e Raheem vivia na “capital dos ataques de tubarões” há tempo suficiente para saber que uma barbatana pontiaguda, como aquela, pertencia a um tubarão e não a uma baleia. Não se mexeu, sabendo que qualquer vestígio de pânico poderia provocar o tubarão, e esperou longos segundos até a barbatana desaparecer para depois colocar as pernas em cima da prancha. Nunca soube se o tubarão passou por debaixo da prancha, nunca soube se esteve perto das próprias pernas, nunca soube se esteve a um pequeno movimento de morrer: remou de regresso à praia, descansou uns minutos e voltou para o mar à procura da onda seguinte.

A onda seguinte, para Raheem, será sempre aquela que levará consigo as memórias das alturas mais conturbadas. No topo dessa lista está o dia em que o padrasto, no Dia do Pai, decidiu dar quatro tiros ao próprio filho, meio-irmão de Raheem. O agora atleta, nessa altura ainda aluno da Universidade de Purdue, estava num avião quando tudo aconteceu. Foi a atual mulher, na altura ainda namorada, que acabou por evitar males maiores. Ciente de que Raheem iria atrás do padrasto assim que soubesse da notícia, Devon ligou ao treinador que iria receber a equipa de futebol americano de Purdue no aeroporto e pediu-lhe que evitasse a todo o custo que o jogador apanhasse um voo para a Flórida logo de seguida. “Eu ia mesmo comprar um bilhete de avião. Ia mesmo para lá e arruinar tudo aquilo por que tinha trabalhado. Só para o encontrar”, contou ao Bleacher Report. A estratégia de Devon resultou: Raheem não foi atrás do padrasto, que acabou detido e condenado a dez anos de prisão, e o meio-irmão sobreviveu. Meio-irmão que, depois do tiroteio, é agora o único elemento da família com o qual o atleta mantém contacto, já que cortou relações com a própria mãe por ter permitido o quase assassinato do filho.

“Eu adoro este jogo. Quero jogar. Muita gente quer ser financeiramente estável mas eu olho para o panorama geral. Quero ensinar lições de vida ao meu filho. Quero que ele cresça e diga: ‘O meu pai fez isto e isto foi aquilo que ele fez para ultrapassar aquilo. Ele ensinou-me isto e isto e isto’. Isso significa mais para mim do que o dinheiro ou ser o maior nas estatísticas. Se conseguir aplicar algumas coisas do jogo na vida, ficarei mais do que feliz por isso”, conta o running back dos 49ers, que olha para o futebol americano como a possibilidade de esquecer tudo aquilo que deixou fechado no passado.

Este domingo, com a equipa de San Francisco e depois de nos playoffs ter realizado o melhor jogo da carreira (correu 220 jardas, assinou quatro touchdowns e abriu as portas do Super Bowl aos 49ers), Raheem Mostert tem a primeira oportunidade para chegar à vitória com que sonham todos os jogadores de futebol americano. Contra os Kansas City Chiefs, no Super Bowl, Raheem vai voltar à Flórida dos tiros no pé, dos tubarões e dos tiroteios: mas vai voltar com a certeza de que ultrapassou tiros no pé, tubarões e tiroteios para chegar onde seis equipas acharam que nunca iria chegar.