Não tem sido um início de 2020 fácil para o Marselha. Mesmo com o segundo lugar na liga francesa que dá acesso à Liga dos Campeões, mesmo estando ainda em competição na Taça de França, mesmo com as boas exibições potenciadas principalmente por Benedetto e Payet, a verdade é que o clube orientado por André Villas-Boas tem vivido uma crise de instabilidade interna que chegou a um ponto sem precedentes. E onde o treinador português acabou por estar no olho do furacão.

Tudo começou com a decisão de Jacques-Henri Eyraud, presidente do Marselha, de contratar Paul Aldridge, um consultor especialista e quase unicamente dedicado ao mercado inglês. Eyraud chamou Aldridge sem consultar André Villas-Boas — algo que, por si só, incomodou o treinador, ainda que não tenha sido esse o principal motivo para o irritante criado entre técnico e presidente. A contratação de Paul Aldridge colocou diretamente em causa o cargo de Andoni Zubizarreta, atual diretor desportivo do Marselha e o principal responsável pela ida de Villas-Boas para o clube francês. Melindrado com a entrada de um elemento novo para o staff cuja contratação não aprovou, preocupado com a possibilidade de deixar de contar com Zubizarreta, o treinador português colocou em cima da mesa a hipótese de deixar o Marselha.

“Sinceramente, não posso garantir que vou ficar. Deixei o futebol chinês onde recebia 12 milhões de euros líquidos para participar no Dakar. Sou um cidadão do mundo. Vim para o Marselha por duas razões: primeiro, pela dimensão do clube, e segundo, por causa de Zubizarreta. O meu futuro está diretamente ligado ao dele”, atirou Villas-Boas. A espécie de pré-demissão do treinador português, que está a realizar um bom trabalho no Marselha e que tem nesta altura o respaldo da massa adepta do clube, deixou os adeptos em estado de alerta e levou a uma reação totalmente desmesurada. Dias depois das declarações do técnico, Jacques-Henri Eyraud acabou por receber ameaças de morte, o que levou à proteção policial à casa da família do presidente do clube. Confrontado com esta situação, Villas-Boas acabou por voltar ligeiramente atrás naquilo que tinha dito e garantiu que teve uma conversa com Eyraud, onde ficou patente que o importante é “o futuro do Marselha” e o lugar de Zubizarreta na estrutura foi assegurado.

Depois de um início de ano atribulado, o Marselha de André Villas-Boas visitava o Bordéus do também português Paulo Sousa, que está nesta altura em 10.º lugar numa liga francesa onde o quarto classificado e o 12.º estão atualmente separados por apenas quatro pontos. O Bordéus chegou a marcar, ainda na primeira parte, mas o VAR acabou por anular o lance por mão do central Pablo e o jogo não foi além de um nulo no marcador. Nulo esse que deixa agora o Rennes a uns perigosos três pontos do segundo lugar do Marselha e que não permitiu ao Bordéus igualar o Montpellier na quinta posição. Paulo Sousa volta a não conseguir vencer André Villas-Boas na liga francesa mas evita a repetição da derrota do início de dezembro, quando o Marselha bateu em casa o Bordéus por 3-1.