“Alguns dos meus posts tornaram-se virais. Obrigada pelas mensagens.” Ao longo de cinco horas de pânico, Aaron, um dos 130 passageiros do voo AC837 que partiu de Barajas rumo a Toronto às 14h33 (hora de Madrid, 13h33 em Lisboa), foi um dos mais eficientes repórteres de serviço. Entre imagens e vídeos partilhados na sua conta de Twitter, que iam dando conta de todos os pormenores envolvendo o incidente com o Boeing767 da Air Canada, conseguiu até reservar espaço para o humor. “Adorava que felicitassem também a minha adorada noiva que este fim de semana vai defender o seu doutoramento!”

Não foi só a geóloga Leticia Martin Bello quem saiu a ganhar. No final de uma longa tarda vivida no aeroporto da capital espanhola, todos os ocupantes da aeronave saíram sãos e salvos desta experiência. Um susto que inevitavelmente trouxe à memória um episódio menos feliz, registado no mesmo aeroporto, em 2008. “Não me saía da cabeça o Spanair”, confessava um agente da polícia a um colega no T1, onde desembarcaram os passageiros deste voo da Air Canada. Nesse acidente, ali em Barajas, morreram 154 pessoas quando um avião da Spanair se despenhou pouco depois da descolagem.

Não só os funcionários pensavam o pior. “Acho que quem teve mais medo foram os que estiveram cá em baixo”, desabafou ao ABC Julia Muñoz, colega de trabalho de um dos passageiros que ia a bordo do Boeing 767.

Avião com 130 pessoas a bordo e com problema em roda aterra de emergência em Madrid com sucesso

A aflição para quem estava a bordo, porém, existiu — sobretudo nos primeiros minutos em que o avião começou a perder altitude, sem razão aparente. Foi assim com Eduardo Íñigo, filho de um conhecido jornalista espanhol (José María Íñigo), que seguia a bordo do voo AC837. No momento em que o avião ainda devia estar em fase ascendente, durante a descolagem, a aeronave começou a perder altitude e Íñigo estranhou ao começar a ver a Gran Vía tão de perto. Sobretudo porque, já antes disso, tinha ouvido “um pequeno estrondo, uma pequena explosão”.

O piloto à saída do aeroporto de Barajas, depois da aterragem. A companhia não permitiu que fossem reveladas as identidades dos tripulantes © Getty Images

Foi então que o comandante entrou em ação para tranquilizar os passageiros, explicando que tinha havido um problema com uma das rodas do trem de aterragem, que iriam passar algum tempo a largar combustível para aterrar “mais levezinhos” e que não haveria problema com a aterragem de emergência, visto o Boeing 767 ter outras sete rodas plenamente funcionais no trem de aterragem. “Pedimo-vos muita calma e também paciência”, disse o comandante, numa mensagem em tom tranquilo.

Seguiram-se então várias horas a dar voltas pelos arredores da capital espanhola. “Era como se estivéssemos a cruzar o Atlântico, mas sobrevoando Madrid”, resumiu Eduardo Íñigo ao El Mundo. Aos poucos, os passageiros foram-se acalmando. Houve quem lesse e quem visse séries. Havia várias horas para matar, com o avião a aterrar apenas pouco depois das 19h (hora de Madrid, 18h em Lisboa).

Aterragem concluída e eis que o comandante-mistério dá novo ar da sua graça ao microfone, exclamando “Welcome to Barcelona!” (“bem-vindos a Barcelona”), o que provocou gargalhadas em toda a aeronave. O erro seria prontamente corrigido para “Madrid, sorry, Madrid” (“a Madrid, peço desculpa, a Madrid”).

A identidade do piloto ficaria por descobrir — de resto, a própria Air Canada não terá autorizado a sua divulgação, apesar da esperada captação de imagens — mas de uma coisa não parece haver dúvidas: a sua aterragem foi altamente competente. “O avião aterrou de forma perfeita, sem se desviar nem abanar. Reto. O piloto é um craque”, disse ao La Vanguardia um funcionário do aeroporto.

À chegada ao terminal onde eram aguardados pelos familiares e pelas autoridades, a maioria dos passageiros não quis fazer comentários aos jornalistas. Mas alguns não resistiram em partilhar em voz alta o que sentiam naquele momento. “Que paz senti ao tocar a terra!”, exclamou um dos passageiros, ouvido pelo El Periódico. Outra das pessoas que seguia a bordo do voo da AirCanada resumiu o mesmo sentimento, com uma simples declaração que não dá margem para enganos sobre a sensação de sair daquele avião: “Estou muito feliz por estar viva”.