Thomas Michael Hoare, mais conhecido por “Mad Mike”, um dos mercenários mais conhecidos de África e que serviu de inspiração para o filme “The Wild Geese”, morreu no domingo, aos 100 anos, na África do Sul, confirmou a família. O antigo contabilista comandou vários golpes de Estado, tendo sido responsável por uma tentativa falhada nas Seicheles, em 1981, que acabou com a sua carreira.

O conhecido aventureiro e soldado da fortuna, tenente-coronel ‘Mad Mike’ Hoare, morreu durante o sono e com dignidade aos 100 anos de idade num centro em Durban em 2 de fevereiro de 2020″, anunciou a família num comunicado.

À CNN, o filho de Hoare, Chris, disse que o pai “viveu para ter 100 [anos] ainda que tenha abraçado a filosofia de que se tira mais proveito da vida vivendo perigosamente – o que torna ainda mais notáveis os seus 100 anos”.

De contabilista a mercenário

“Mad Mike” nasceu na Índia, em 1919, e foi educado em Inglaterra, onde foi influenciado pelas histórias militares de um professor que tinha servido na Guerra dos Bóeres, acabando por fazer o curso de oficiais do exército britânico, na Royal Military Academy Sandhurst. Acabou por servir na Índia e na Birmânia durante a Segunda Guerra Mundial.

No pós-guerra, Hoare seguiu uma carreira de contabilista, gerindo pequenos negócios na África do Sul, tendo sido em 1964 que a sua fama começou a crescer.

Conhecera Moïse Tshombe, político que se tornou primeiro-ministro da República Democrática do Congo três anos antes e seria este o ponto de viragem da sua vida. Contratado por Tshombe, liderou cerca de 300 soldados para esmagar uma revolta rebelde de inspiração comunista, que tinha começado em 1963.

Segundo a BBC, quando a campanha terminou, 18 meses depois, já “Wild Geese”, como ficara inicialmente conhecido, inspirando mais tarde um filme, e a sua unidade de mercenários eram conhecidos internacionalmente.

Ao regressar a África, Hoare, citado pelo The Guardian, terá dito aos jornalistas que “matar comunistas é como matar vermes, matar nacionalistas africanos é como matar um animal”, acrescentando: “Os meus homens e eu matamos entre 5000 e 10 000 rebeldes nos 20 meses que passei no Congo. Mas isso não é suficiente. Existem 20 milhões de congoleses e presumo que cerca de metade deles numa altura ou outra foram rebeldes”. Estas opiniões nada politicamente corretas, valeram-lhe o upgrade para “Mad Mike”, uma alcunha que segundo disse à CNN o seu filho, não lhe agradava.

O seu envolvimento na operação gerou os seus frutos no mundo cinematográfico em 1978, quando estreou “The Wild Geese” (Os Gansos Selvagens). O filme tinha como protagonista o ator Richard Burton, que interpreta o Coronel Allen Faulkner, uma personagem inspirada em Hoare, o que ainda o tornou mais conhecido.

O declínio

Quase duas décadas depois de começar a estar nas bocas do mundo, o mercenário voltou a ter todos os olhos virados para si. No entanto, a glória que outrora alcançara, estava agora destruída. Em 1981, Hoare orquestrou um golpe de Estado no arquipélago das Seicheles, no Oceano Índico.

“Mad Mike” e os 46 homens que recrutou tentaram entrar no país disfarçados de um grupo de antigos jogadores de rugby que teriam formado um clube de bebida. O plano saiu furado quando um deles teve um problema com um funcionário, que acabou por revistar a mala deste, na qual estava uma AK-47, uma arma de fogo russa, escreve a BBC.

A descoberta levou ao início de um tiroteio e, para conseguirem escapar, os homens sequestraram um voo, forçando o piloto a levá-los a Durban, na África do Sul.  Quando chegaram, os mercenários foram presos durante seis dias e “Mad Mike” tornou-se alvo de chacota da imprensa mundial.

O julgamento devido ao sequestro só aconteceu um ano depois. Thomas Michael Hoare foi condenado a 20 anos de prisão, onde só esteve durante 33 meses antes de se mudar para França, onde viveu 20 anos, escreve a BBC. Em 2009, regressou ao mesmo destino no qual fora detido, Durban, na África do Sul, onde viveu durante os últimos anos da sua vida, tendo acabado por publicar várias memórias durante estes anos – “Mercenary”, The Road to Kalamata” e “The Seychelles Affair”.