Este novo filme com personagens do universo da DC, além de um subtítulo espaventoso de que vou prescindir por óbvias razões de espaço (“E a Fantabulástica Emancipação de uma Harley Quinn”), começa por ter o pior, o menos expressivo e convicto, e mais brando, pífio e insosso vilão de toda a história dos filmes baseados em “comics” de super-heróis e adjacentes. Interpretado por Ewan McGregor, Roman Sionis/Black Mask é um psicopata lingrinhas, levemente efeminado, dado a birras ridículas e com uma preferência por tirar a pele da cara às suas vítimas — e tão ameaçador como uma criança de oito meses no berço. E quando põe a sua máscara de identidade secreta, Sionis parece não que vai espalhar o caos e a destruição por Gotham City, mas sim ir a uma festa de Halloween com temática SM.

[Veja o “trailer” de “Birds of Prey”:]

Não é que o filme, que se segue a “Esquadrão Suicida”, seja muito melhor que o seu pobre vilão. “Birds of Prey” é como que a resposta feminista às fitas deste género dominadas por heróis e super-heróis com grandes peitaças e bíceps ainda maiores. Além de assinalar a emancipação de Harley Quinn (Margot Robbie) do seu ex-namorado Joker, um sexista descarado e contumaz, que reivindicava para si as ideias dela e a reduzia ao papel de mulher-objeto, o filme, realizado e escrito por mulheres e produzido pela própria Robbie, põe em cena, além da própria Harley, toda uma série de personagens femininas “badass”, que se fartam de chegar a roupa ao pelo aos homens (e não há um que se aproveite em “Birds of Prey”). É um verdadeiro maremoto de estrogénio.

[Veja uma entrevista com a realizadora Cathy Yan:]

A historieta da fita começa por pôr Harley Quinn em bolandas com todos aqueles que maltratou ou indispôs quando era ainda namorada do Joker, e que agora, sabendo-a sem a proteção deste, se atiram a ela com ganas de vingança. E a seguir, a tentar recuperar um diamante que foi roubado a Sionis por uma miúda carteirista, e que esta engoliu quando foi presa pela polícia, acabando por a tentar proteger do vilão. Harley é ajudada por uma detetive da polícia de Gotham (Rosie Perez), pela cantora do clube noturno de Sionis (Jurnee Smolett-Bell) e pela filha de um mafioso em busca de vingança (Mary Elizabeth Winstead), tudo com acompanhamento de ultraviolência filmada em câmara lenta, o som dos murros, pancadas e ossos a partirem-se muito puxado, e molho de “heavy metal” apocalíptico e “rap” canibal. “Birds of Prey” é mais um daqueles filmes que atenta contra a integridade auditiva da plateia.

[Veja uma entrevista com Margot Robbie:]

A realizadora de “Birds of Prey”, Cathy Yan, filma no estilo de trolha visual característico destas produções, e farta-se de armar ao pingarelho de “irreverente” recorrendo a toda uma gama de tiques sub-tarantinescos: jiga-joga de avanços e recuos bruscos no tempo, paragens para Harley Quinn se dirigir diretamente aos espectadores, momentos de animação aqui e ali, e até mesmo um interlúdio musical, mantendo um tom que circula entre a comédia negra sádica e a ação em frenesim, mas cujo efeito sobre o público é muito mais de entorpecimento do que de excitação. A Harley Quinn de Margot Robbie continua a ser um boneco berrante cuja caracterização de extravagância perversa é 90% da personagem, deixando muito pouco para uma interpretação digna desse nome. E já se preparam mais três filmes deste “franchise” de que ela é a vedeta, agora emancipada do machismo paternalista a que nem os vilões carismáticos e sociopatas escapam.