Na quarta-feira ao início da tarde, as coreógrafas Elisabete Francisca e Joana Castro estavam a ultimar os dois espetáculos que terão estreia absoluta no GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea, cuja décima edição arranca nesta quinta-feira em Guimarães. São ambas novas vozes da dança portuguesa. A primeira apresentará a peça experimental “Dias Contados” a 15 de fevereiro e encontrava-se na Fábrica ASA, nos arredores da cidade. A segunda, cuja peça “Rite of Decay” pode ser vista já no sábado, estava em montagens na “blackbox” do Centro Internacional das Artes José de Guimarães.

Descrito pelo diretor artístico, Rui Torrinha, como “o palco de inverno no calendário das artes em Portugal”, o GUIdance é organizado pela cooperativa A Oficina (dirigida pela Câmara de Guimarães) e nesta edição de aniversário, que se se prolonga até ao dia 16, apresenta 11 espetáculos: quatro em estreia portuguesa e dois em estreia absoluta. Ficará marcado pela presença de uma maioria de mulheres artistas e não é por acaso. Segundo o diretor, o objetivo é o de “revelar a força criativa feminina”.

“É uma ideia que vem desde há algum tempo”, contou Rui Torrinha ao Observador. “Há dois anos, o coreógrafo Akram Khan mostrou-me um trabalho da pintora australiana Susan Dorothea White, em que ela reconstrói A Última Ceia, chamando-lhe A Primeira Ceia. É um quadro em que os apóstolos são substituídos por mulheres de diferentes raças, ou seja, pela força feminina e pela diversidade do mundo. Foi a partir daí que a ideia inicial de uma programação feminina ganhou mais força”, acrescentou.

Além disso, em edição comemorativa, foi intencional fazer regressar a Guimarães algumas criadoras que por lá passaram ao longo da década. É o caso de Tânia Carvalho, a marcar o arranque do festival com “Onironauta”, esta quinta-feira às 21h30 no Centro Cultural Vila Flor. Trata-se de uma peça para sete bailarinos, que remete para um limbo entre sonho e realidade.

“É uma criadora muito singular, desenvolveu um vocabulário que lhe permitiu afirmar-se em Portugal e lá fora”, classificou Rui Torrinha. “Onironauta” estreou-se em janeiro na Maison de la Danse, em Marselha, passou entretanto pela Culturgest, em Lisboa, e depois de Guimarães segue para o Teatro Municipal do Porto, a 6 e 7 de março.

Vera Mantero, outro dos principais nomes da dança portuguesa, propõe “Esplendor e Dismorfia“, na sexta-feira, uma peça em colaboração com o artista multimédia Jonathan Uliel Saldanha, e ainda “Os Serrenhos do Caldeirão, Exercícios em Antropologia Ficcional“, do dia 12, criação de 2012 sobre desertificação e desumanização na Serra do Caldeirão.

Marlene Monteiro Freitas, Akram Khan, a companhia francesa Naïf Production, Sofia Dias & Vítor Roriz e Fernanda Fragateiro e Aldara Bizarro são outras das apostas deste ano. A coreógrafa canadiana Marie Chouinard faz a estreia no GUIdance com “A Sagração da Primavera“, a peça de Nijinsky que abriu a dança à modernidade, aqui numa versão que o extinto Ballet Gulbenkian chegou a dançar em 2003, quando Paulo Ribeiro dirigia a companhia.

[vídeo promocional de “Des Gestes Blancs”, de Naïf Production]

“Sempre em aprendizagem”

O GUIdance começou em 2011, um ano antes de Guimarães ter sido Capital Europeia da Cultura, e tem-se realizado ininterruptamente todos os anos, primeiro com direção artística de José Bastos e depois com a colaboração do coreógrafo e bailarino Rui Horta. Desde há cinco anos, quem assegura a direção artística é Rui Torrinha. Foram apresentados até agora 50 espetáculos nacionais, 19 estreias absolutas e 27 coproduções e registaram-se cerca de 21 mil espectadores, informou.

“Num tempo em que tudo acaba muito depressa e que a memória por vezes se esvazia, temos conseguido escrever uma história bonita de afirmação indiscutível do país no domínio das artes”, comentou o responsável. “Por outro lado, temos o sentimento de responsabilidade, de gestão das expectativas dos artistas e do público. O entusiasmo em relação ao caminho percorrido é igual ao entusiasmo face ao caminho que falta percorrer.”

Questionado sobre há algum momento que mereça destaque ao longo desta década, ao nível dos espetáculos ou da evolução do evento, Rui Torrinha respondeu que “a grande decisão de lançar o festival” fica como o momento-chave. “Ao longo do tempo, revelou-se necessário testar o formato e a intensidade festival”, que está mais ou menos estável desde há cinco anos. “Isto não quer dizer que não estejamos sempre em aprendizagem e a trabalhar novas camadas para o festival, porque é que isso que fazemos.”

Para lá da programação principal, o GUIdance procura o pensamento crítico, desde logo através de um jornal publicado a cada edição e distribuído junto do público, com textos da especialista em artes performativas Cláudia Galhós. Tem também uma componente formativa, com aulas abertas (“materclasses”), conversas entre artistas e público após algumas peças e ainda convites às escolas de dança da região para que assistam a ensaios de criadores presentes em cada edição. Este ano, as aulas abertas são dirigidas pela companhia de dança Akram Khan, nesta sexta-feira (para 20 pessoas e já esgotada); e também pela Companhia Marie Chouinard, no dia 16.