Um relatório do governo provincial de Cabo Delgado sobre a violência que ocorre desde 2017 estima estima que esta já afectou 156.400 pessoas mas não faz referência ao total de mortos que, de acordo com relatos locais e referências passadas pelas autoridades, se estima, no mínimo, de 350 a 400, entre agressores, militares e população.

Do universo de pessoas afetadas, o maior número pertence ao distrito de Macomia (29%), seguido de Quissanga (25%), Mocímboa da Praia (19%) e Palma (13%) num total de nove distritos atacados.

Desde outubro, cerca de 52.000 receberem assistência — ou seja, cerca de um terço de todas as afetadas –, em apoio psicossocial, produtos alimentares, vestuário e em materiais para reconstrução das casas queimadas. Os níveis de apoio são de 100% nos distritos de Mocímboa da Praia e ilha do Ibo, refere o documento.

O impacto da violência armada levou à elaboração de um Plano Integrado de Resposta Humanitária para a província de Cabo Delgado, com o apoio da cooperação suíça e que está a ser divulgado junto de parceiros e outros intervenientes no processo de resposta.

O relatório destaca grandes perdas na agricultura, com abandono de campo e perda de sementes, com reflexo no aumento da insegurança alimentar, além de uma migração de pescadores para zonas seguras. As autoridades apontam como principais constrangimentos uma “insuficiência de recursos financeiros para atividades de acompanhamento e monitoria do processo de recuperação das famílias afetadas”, além de um “aumento da frequência dos movimentos dos malfeitores, dificultando ações de assistência humanitária”.

Os próximos desafios consistem em “garantir a implementação dos projetos a serem desenvolvidos em Cabo Delgado, com financiamento da Organização Internacional para as Migrações (OIM)”. Os projetos incluem o fortalecimento do policiamento comunitário, das organizações da sociedade civil para a promoção da paz e ações que garantam rendimento.

Os ataques armados na província de Cabo Delgado eclodiram em 2017 protagonizados por residentes, frequentadores de mesquitas consideradas “radicalizadas” por estrangeiros, segundo líderes islâmicos locais com os quais criaram atritos nos anos anteriores. Nunca houve uma reivindicação da autoria dos ataques, com exceção para comunicados do grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico, que desde junho tem vindo a chamar a si alguns deles, com alegadas fotos das ações, mas cuja presença no terreno especialistas e autoridades consideram pouco credível.

Os ataques já provocaram pelo menos 350 mortos, além de deixar cerca de 60.000 afetados ou obrigados a abandonar as suas terras e locais de residência, de acordo com a mais recente revisão do plano global de ajuda humanitária das Nações Unidas.

A província de Cabo Delgado é aquela onde avançam as obras dos megaprojetos que daqui a quatro anos vão colocar Moçambique no ‘top 10′ dos produtores mundiais de gás natural e onde há algumas empresas e trabalhadores portugueses entre as dezenas de empreiteiros contratados pelos consórcio de petrolíferas.

Autoridades desmentem recrutamento militar

Entretanto o Ministério da Defesa moçambicano desmentiu também esta sexta-feira informações nas redes sociais sobre um recrutamento compulsivo de jovens para o cumprimento do serviço militar e reforço de combate a ataques armados em Cabo Delgado, no Norte do país. “Não está a decorrer nenhum recrutamento compulsivo. Quando chegar a [sua] vez, o jovem será convocado e não raptado”, disse Carlos Mucamisa, coronel das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), em conferência de imprensa em Maputo.

As imagens que circulam nas redes sociais mostram, em vários pontos de Maputo, jovens a correr, supostamente a fugir de militares que os querem levar à força para integrar o exército que combate insurgentes no Norte de Moçambique. Em nenhuma das imagens se veem membros das forças de defesa e segurança e, nos relatos divulgados, não há confirmação de que haja de facto qualquer outra entidade ou grupo a levar pessoas à força. O suposto recrutamento coincide com a época de recenseamento militar, lançado em 10 de janeiro com fim previsto para 28 de fevereiro.

O Ministério da Defesa anunciou que vai investigar o caso para “descobrir a origem, motivações e os autores” das informações que lançaram alarme nalguns bairros. “[Estas ações vão contra] as práticas e procedimentos de recrutamento e mobilização estabelecidas pela Lei do Serviço Militar”, acrescentou o coronel. A entidade apelou à calma e vigilância, avançando que podem ser apresentadas denúncias nos centros provinciais de Recrutamento e Mobilização ou em esquadras.

A Polícia da República de Moçambique (PRM) intensificou a patrulha nas zonas identificadas como propensas à difusão de informação sobre o dito recrutamento. “[Já temos] indivíduos retidos na esquadra para identificação visando, acima de tudo, neutralizar os cabecilhas”, afirmou hoje o porta-voz do comando-geral da PRM, Orlando Mudumane, em Maputo.