No seu auge, o Festróia — Festival Internacional de Cinema de Tróia, costumava ter todos os anos um convidado de honra, em geral uma glória do cinema americano, as mais das vezes reformada ou em final de carreira, que recebia um Golfinho de Honra, descerrava uma placa comemorativa da sua presença e depois fazia também uma visita à Cinemateca, em Lisboa. Por lá passaram, assim, nomes como Robert Mitchum, Mickey Rooney, Jane Russell, Dennis Hopper ou Lauren Bacall (que se destacou pelas suas exigências de diva e pelo feitio embirrativo, a roçar o insuportável). Em 1989, coube a vez a Kirk Douglas, que morreu esta semana, com 103 anos.

Foi combinada uma breve conversa do ator com alguns jornalistas portugueses, mas uma vez lá chegados, qual não foi a nossa surpresa quando nos informaram que, afinal, Kirk Douglas apenas falaria para a TVE, que tinha mandado uma equipa a Tróia. A sua autobiografia, “The Ragman’s Son” tinha acabado de ser traduzida e publicada em Espanha, e Douglas queria capitalizar nesse facto. “Business is business”, em suma. Ergueu-se de imediato um sonoro protesto no pequeno grupo de portugueses – alguns dos quais tinham prescindido de uma folga num dia de fim-de-semana para irem fazer o serviço – e aplicou-se alguma pressão indignada sobre o adido de imprensa do festival, que prometeu ir ver o que podia fazer.

E fez mesmo alguma coisa, porque algum tempo depois, lá apareceu Kirk Douglas, de calças desportivas e polo. Sentou-se numa poltrona, deixou que lhe tirassem fotos, disse meia-dúzia de coisas sobre a sua autobiografia (não se esquecendo de nos recordar que tinha acabado de sair em Espanha, com o título “El Hijo del Trapero”) e acedeu a responder a um punhado de perguntas. Lá consegui fazer uma: o que é que ele pensava sobre o cinema americano nesse final de década, mais de 40 anos depois de ter feito o seu primeiro filme? E Douglas respondeu, naquela inconfundível voz grave: “Hollywood já não é o que era, o cinema americano e o negócio mudaram muito. Conheço cada vez menos gente, e acho que há cada vez menos gente que me conhece. Os tempos agora são muito diferentes. Sabia que o Gary Cooper foi o meu mentor quando me estreei nos filmes? Mas não me posso queixar muito, vivi tempos extraordinários.”

Disse-me depois quem lá esteve que, na ida à Cinemateca, durante uma sessão que exibia “Cativos do Mal”, de Vincente Minnelli, onde tem um dos papéis principais, Kirk Douglas se limitou a falar, mais uma vez, da edição espanhola da sua autobiografia e a dizer duas ou três banalidades simpáticas, indo-se depois embora. Alguns do grupo de Tróia ficaram a lamentar aquele demasiado breve encontro com ele. Eu nunca me queixei. Afinal, consegui, mesmo que tenha sido só durante um par de minutos, falar com o homem que, no cinema, foi Spartacus, Van Gogh, Ulisses, o coronel Dax de “Horizontes de Glória”, de Stanley Kubrick, Ned Land em “Vinte Mil Léguas Submarinas”,  o viking Einar de “Os Vikings”, ou o “cowboy” em luta inglória contra os tempos modernos de “Fuga Sem Rumo”. E nas minhas andanças de algumas décadas pelo mundo do cinema, nunca mais conheci ninguém que tivesse tido Gary Cooper como mentor na sua estreia em Hollywood.