Dois anos. Há dois anos, a 10 de fevereiro de 2018, a Seleção Nacional de futsal venceu a seleção espanhola na final da Eslovénia e sagrou-se campeã da Europa. Foi o primeiro título da seleção portuguesa, foi o abrir de uma fase de ouro que também trouxe a conquista da Liga dos Campeões ao Sporting no ano seguinte e foi também a confirmação de que Portugal é uma verdadeira potência europeia no que ao futsal diz respeito. Passaram dois anos: e a Seleção continua a confirmar que atravessa nesta altura uma geração que dificilmente encontra par num passado recente.

Na semana passada, a Seleção Nacional garantiu a qualificação para o Mundial do próximo mês de setembro — onde o objetivo, acima de qualquer outro, será lutar pelas medalhas e superar o melhor registo de sempre, um terceiro lugar em 2000. Para isso, muito vai contribuir a enorme exigência competitiva que se vive atualmente no Sporting e no Benfica, a relevância social que o futsal adquiriu e que só encontra paralelo no futebol e o ambiente familiar da seleção portuguesa. E foi precisamente sobre esses três tópicos e mais alguns que Jorge Braz falou na Rádio Observador, enquanto convidado da edição desta semana do programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola”.

O selecionador nacional, que assumiu o cargo em julho de 2010 depois de quatro anos enquanto adjunto de Orlando Duarte, garantiu que ainda se arrepia quando pensa no dia da final e explicou que a importância da conquista do Europeu acabou por ser “o fim do ‘quase'”. “A visibilidade, o impacto, a relevância social que o futsal tem como modalidade desportiva, teve aí um boom. E nós sentimos isso. Para nós, do ponto de vista desportivo, competitivo, foi o deixar de ser o ‘quase’. Foi o perceber que também podemos lá chegar, pelo trabalho que vinha a ser desenvolvido, pelo acreditar no processo. Todo o desporto é avaliado pelo produto e o produto são os títulos. Acho que iria acontecer mais cedo ou mais tarde. E aconteceu, há dois anos — ainda arrepia ouvir dizer ‘há dois anos’ e hoje [segunda-feira] ser dia 10. Deixámos de ser o ‘quase'”, reiterou Jorge Braz, que garantiu que o Europeu trouxe mais jovens praticantes à modalidade e ajudou os clubes a terem “consciência da qualificação” que têm de ter para acompanhar o crescimento do futsal em Portugal.

Sobre os clubes, precisamente, o selecionador nacional garante que existe um aproveitamento natural das dinâmicas criadas — principalmente no Benfica e no Sporting, os dois maiores fornecedores de jogadores à Seleção –, até pelo elevado patamar competitivo que se vive atualmente a nível interno. “Tem influência pelo nível qualitativo e competitivo que têm tido nos últimos anos. O Benfica e o Sporting, neste momento, são das melhores equipas do mundo. Os nossos jogadores participarem na Champions, nos dérbis, na Liga Placard, onde se não jogarem os 40 minutos arriscam-se a perder pontos. A forma competitiva como o Benfica e o Sporting assumem os jogos todos, no patamar e no nível em que estão, claro que eleva o rendimento e a qualidade individual dos nossos jogadores. Claro que algumas dinâmicas, alguns princípios, algumas rotinas que têm entre eles, temos de aproveitar e até potenciar”, explicou Jorge Braz. O selecionador nacional, que a nível pessoal foi guarda-redes de futebol, falou também sobre o ambiente familiar que vive no cerne da Seleção e que considera ser “uma das grandes vantagens” da equipa.

[Ouça aqui a entrevista completa de Jorge Braz ao programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador]

“Há mesmo que sentir e que perceber que tem de se desligar o chip dos clubes e ligar o chip da Seleção. A todos os níveis, nas regras de vida coletiva, nos comportamentos — são espaços diferentes. São espaços muito curtos em termos temporais, temos de perceber que não há tempo a perder na Seleção, temos de chegar e tem de existir um relacionamento altamente positivo, o que neste momento me parece que é uma das nossas grandes vantagens. Que sentido de família existe? As relações mais próximas que todos nós temos são as relações familiares. Conseguimos aproximar isso numa equipa? Entre o staff, entre os jogadores, conseguimos ter um sentimento de família? De ajudar quem está ao meu lado, de me relacionar de forma alegre e feliz com quem trabalha e treina comigo todos os dias? Quando conseguimos isso, tudo o resto é esquecido”, defendeu Braz, que sublinhou ainda a necessidade de se entender nos meandros do desporto que a competição “nunca é pessoal”.

“Eu dizia sempre aos jogadores: nunca é pessoal eu ter uma entrada mais dura, mais agressiva, não é contra esse jogador em questão, é para eu ganhar o lance, é para eu ter sucesso, é para eu me sobrepor a ti no jogo porque eu quero ganhar. Mas não é pessoal. Não é o A com o B ou o C com o D. E com os níveis enormes de exigência às vezes não percebemos isto, perdemos aqui algum equilíbrio emocional do que é que andamos ali a fazer, qual é o objetivo principal. Quem se desfoca nestas picardias, nestes excessos que a competição às vezes origina, esquece o essencial”, concluiu o selecionador nacional.

Sobre Ricardinho, que na altura do Mundial já será jogador dos franceses do ACCS Paris, Jorge Braz garante que deixará “um legado insubstituível” mas que ainda não está “preocupado” com o final da carreira do jogador. Sobre o Mundial em si, o selecionador nacional sublinha que este tipo de competições vai ser “cada vez mais difícil para todas as seleções” mas garante que o objetivo prioritário é fazer melhor do que no último Campeonato do Mundo, em 2016, quando Portugal falhou o terceiro lugar ao perder com o Irão no jogo de atribuição da medalha de bronze.

“É possível, claramente, sonhar com um lugar melhor do que o do último Mundial. Falhámos uma medalha. Estávamos muito convictos de que iríamos chegar àqueles quatro últimos, ou seja, eu dizia sempre que iríamos estar no Mundial até ao fim. Neste próximo Mundial, queremos estar lá até ao fim. Estivemos até ao final do Mundial mas não chegámos às medalhas. Chegar a uma medalha é um resultado de enorme relevo numa fase final de um Mundial. Estamos muito focados no que nós temos de fazer, no processo, para depois ver se conseguimos trazer um produto que alegre os portugueses novamente”, concluiu Jorge Braz. Para o selecionador nacional, a prioridade é voltar a mostrar aos portugueses que o futsal lhes pode dar alegrias.