A novidade é dupla e o peso das duas facetas tem como ser escamoteada: nem uma, que nos diz que pela primeira vez desde 1921 o partido nacionalista Sinn Féin ganhou as eleições para o parlamento irlandês; nem outra, que é o facto de agora a Irlanda estar mais perto do que nunca de ter uma mulher como primeira-ministra.

Trata-se de Mary Lou McDonald, mulher de 50 anos que tem agora nas mãos a tarefa de montar uma coligação de governo liderada pelo partido nacionalista Sinn Féin, que poderá pôr fim à alternância histórica entre o Fianna Fáil (centro) e o Fine Gael (centro-direita).

Com 24,5% dos votos (e 37 deputados, menos um do que o Fianna Fáil, que teve 22,2%), o Sinn Féin de Mary Lou McDonald tenta agora formar um governo de coligação com várias forças políticas da esquerda, como o Partido Verde ou o Partido Trabalhista. Porém, para atingir uma maioria entre os 160 deputados do parlamento, o Sinn Féin precisará do apoio de pelo menos alguns dos 38 deputados do Fianna Fáil.

São por isso tempos inéditos, estes em que os nacionalistas do Sinn Féin estão perto de ir para o poder na Irlanda — e mais inéditos serão se, na sequência das conversações já em curso, Mary Lou McDonald se tornar primeira-ministra à beira do centenário da fundação da República da Irlanda de 1922.

“Estou à procura de Cheerios… e de uma Irlanda unida”

O momento da ascensão de Mary Lou McDonald dentro do Sinn Féin foi repleto de simbolismo: o líder do Sinn Féin, Gerry Adams, decidiu afastar-se da direção do partido que encabeçava desde 1983. Proscrito da vida política irlandesa durante largas temporadas por ter ligações declaradas ao IRA, o Sinn Féin sob a batuta de Gerry Adams (que nega as acusações de antigos membros daquele grupo terrorista pró-unificação da Irlanda com a Irlanda do Norte que dizem que também ele participou na luta armada) conseguiu ainda assim transitar para a relativa normalidade política trazida pelo Acordo de Sexta-Feira Santa, de 1998.

Quando subiu ao palco para assumir a liderança do partido (foi a segunda mulher a fazê-lo, depois de Margaret Buckley tê-lo feito entre 1937 e 1950) Mary Lou McDonald fez um discurso onde procurava olhar para o futuro (que idealizava que fosse de poder) e colocar um ponto final no passado (marcado pelos mais de 3.500 mortos dos Troubles, mais de metade civis).

“Não temos de estar de acordo em relação ao passado. Não existe uma única narrativa histórica. Só temos de estar de acordo em que o passado nunca poderá ser repetido”, disse. “Não existe qualquer mérito em voltar a lutar as batalhas do passado. A guerra acabou há muito.”

Mas mais marcante foi aquilo que disse quando, ao ser anunciada como a única nomeada a seguir-se a Gerry Adams, era já virtualmente a sua sucessora:

“A verdade é que, meus amigos, eu não vou servir para os sapatos de Gerry. Mas a novidade é que eu trouxe os meus próprios sapatos”.

Mary Lou McDonald sucedeu a Gerry Adams na liderança do Sinn Féin em 2018, depois de nove anos como sua número dois (Charles McQuillan/Getty Images)

E trouxe-os, de algumas formas. Mary Lou McDonald nasceu num bairro de classe média em Dublin. Filha de pais divorciados, estudou numa escola privada católica e fez o ensino superior primeiro em Literatura Inglesa no Trinity College e depois em Estudos Europeus na University of Limerick. Ao contrário de todos os seus antecessores na liderança do Sinn Féin, Mary Lou McDonald não conviveu com nenhum familiar que estivesse diretamente relacionado com o IRA — embora um tio-avô do lado da mãe tenha sido membro daquele grupo e executado por isso em 1922.

A militância de Mary Lou McDonald no Sinn Féin começou noutra era, em 1998, já perto dos seus 40 anos e depois de o Acordo de Sexta-Feira Santa ter sido celebrado. Antes disso, tinha feito parte do Fianna Fáil, partido que diz ter abandonado por se ter tornado demasiado conservador — sendo que os seus críticos apontam antes que a sua saída se deveu às escassas possibilidades de ascensão no partido.

No Sinn Féin, teve uma ascensão notória: foi eurodeputada entre 2004 e 2009, ano em que se tornou vice-presidente do partido, que viria a representar já como deputada em 2011.

Já como líder, cargo que ocupou desde 2018, destacou-se na maior aposta em temas como a defesa de serviços públicos, a crítica às políticas económicas liberais dos recentes governos irlandeses e defendeu limites às rendas das casas. O discurso encostado à esquerda valeu-lhe o apoio — e mais tarde os votos — do eleitorado mais jovem.

A unificação das duas Irlandas, porém, nunca deixou de ser tema — mas passou a ser enunciado com menos afã e mais leveza. Num documentário de 2013, Mary Lou McDonald era filmada às compras no supermercado, mais especificamente no corredor dos cereais. Foi ali que disse:

“Estou à procura de Cheerios… de Cheerios e de uma Irlanda unida”.

Quanto a esse tema central para o seu partido, nestas eleições, prometeu um referendo a ser realizado dentro do prazo de cinco anos.

Foi, assim, com os novos sapatos que Mary Lou McDonald emprestou ao Sinn Féin, que o partido chegou onde nunca tinha chegado — recorde-se que até 2016 os resultados do partido não tinham atingido os dois dígitos, muitas vezes abaixo dos 5%.

No entanto, por trás da imagem de uma liderança que muitos encaram como refrescante e um passo em frente, outros tantos vêm uma líder partidária com pouca vontade de enfrentar o passado violento e turbulento das suas próprias cores políticas.

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Sob Gerry Adams, homem que diz ser seu “mentor político”, Mary Lou McDonald recusou qualquer oportunidade para criticar a sua postura em relação ao IRA. Apesar de este negá-lo, Gerry Adams tem sido ao longo dos anos apontado por ex-membros daquele grupo como tendo sido um dos líderes do IRA. Gerry Adams chegou a ser detido, em 2014, no caso da morte de Jean McConville, uma mulher de 38 anos e mãe de dez filhos que foi raptada e assassinada pelo IRA em 1972 — tendo sido mais tarde libertado e ilibado por falta de provas.

Apesar de negá-lo, Gerry Adams ainda assim assume que se identifica com as causas daquele grupo extinto. “Quero deixar bem claro que nego ter sido membro do IRA, mas não me dissocio do IRA”, disse Gerry Adams em 2013, onde chegou a dizer que algumas, embora “nem todas”, as ações do IRA foram “justificadas”.

Já nesta campanha, Mary Lou McDonald viu um dos seus camaradas, o deputado David Cullinane, a terminar um discurso com a frase “Up the RA! Tiocfaidh ar lá!”, frase utilizada pelo IRA e pelos seus apoiantes e que significa: “Viva o Exército Republicano! O nosso dia chegará!”.

Mary Lou McDonald não criticou aquela tirada e disse que os seus deputados eram livres de dizer o que entendessem, negando ser “mamã” deles. Ainda assim, reconheceu que aquele momento possa ter funcionado como uma “distração” do atual momento político que a Irlanda atravessa — mas aqueles que apontam para o passado mal resolvido do Sinn Féin sublinham antes que foi tudo menos isso.

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