“Na sexta-feira à noite jogou-se o Wolves-Leicester, correto? Eles têm jogo de Liga dos Campeões na próxima semana? Não. Nem o Wolves, nem os Leicester. Os Wolves jogam quinta-feira para a Liga Europa. Nós somos a equipa que joga na Liga dos Campeões na quarta-feira e não jogamos nem na sexta-feira, nem no sábado. Jogamos este domingo. Não acho normal”. José Mourinho pode estar diferente em muitas coisas neste regresso à Premier League via Londres pelo Tottenham mas há coisas em que não muda e a defesa acérrima dos interesses da equipa continua no topo das prioridades. E a argumentação antes do jogo com o Aston Villa não ficou por aí.

“Digam-me: não havia outro jogo da Premier League para se jogar no domingo? É tão simples quanto isso. Não há cuidado, não querem saber. Escolheram o que queriam e não pensaram em como isso pode prejudicar uma equipa inglesa na Liga dos Campeões. Vamos sair a perder, porque jogamos às 14h de domingo quando podíamos ter jogado sexta ou sábado. Vai ser uma semana muito difícil para nós, porque temos o Aston Villa no domingo, o RB Leipzig na quarta-feira e o Chelsea no outro sábado”, admitiu, antes de abordar também um possível castigo para Dele Alli, por uma “brincadeira” a propósito do coronavírus que levou a abertura de um inquérito.

“Sanções? Acho que é desnecessário mas eu não sou ninguém. É desnecessário porque o jogador percebeu que foi ingénuo naquela situação mas é bom rapaz e tem um grande amigo no balneário que é asiático e o adora [Son Heung-min]. Não houve qualquer má intenção. Está arrependido e já pediu desculpa publicamente”, comentou sobre um caso que, atendendo ao que se passou com Bernardo Silva, pode tirar ao Tottenham mais um jogador chave da equipa que já não pode contar com a grande referência ofensiva Harry Kane. Duas semanas depois do triunfo com o Manchester City para a Premier League e 11 dias após a eletrizante vitória na Taça de Inglaterra com o Southampton, era este o contexto que o Tottenham enfrentava no regresso à competição.

Com mais ou menos críticas ou polémicas, este era um encontro complicado para os dois conjuntos mas especial para um nome desconhecido de todos: Jude Branson. Em 2015, quando tinha apenas seis anos, a criança escreveu uma carta a José Mourinho para tentar que o português pudesse treinar o seu Aston Villa.

“Caro Sr. Mourinho
O meu nome é Jude. Tenho seis anos e sou adepto do Aston Villa. Você é o meu treinador preferido.
Será possível que venha treinar o Aston Villa e trazer o Diego Costa consigo? Precisamos dele.
Obrigado,
Jude Branson”

Mourinho, então treinador do Chelsea (líder e futuro campeão nessa temporada) não trocou os blues pelos villans mas teve um gesto muito recordado esta semana, enviando um cartão com dedicatória à criança. Cinco anos depois dessa , o técnico português foi ao Villa Park, onde reencontrou o seu antigo capitão no Chelsea nessa mesma fase, John Terry, hoje adjunto dos villans. E com o novo look de cabelo rapado com uma explicação curiosa. “Às vezes gosto de sentir o frio e de mudar um pouco. Neste caso adormeci e quando acordei vi que estava tão mau que disse para cortar mais. O cabelo vai crescer outra vez”, contou entre sorrisos à Sky Sports. No jogo, dormir foi tudo o que não fez. Nem ele nem ninguém. Porque este foi um dos jogos mais intensos desde que chegou ao Tottenham.

O técnico português optou por reforçar o meio-campo no regresso à Premier League, com a colocação de Eric Dier ao lado de Winks, mas não foi por isso que a equipa teve uma entrada mais estável. Pelo contrário, até: já depois do golo inaugural do Aston Villa, com Alderweireld a desviar para a própria baliza um cruzamento da direita de El Ghazi (9′), Douglas Luiz ameaçou o 2-0 e Lloris foi salvando os londrinos de males maiores numa fase onde apenas Dele Alli conseguia chegar com bola ao último terço contrário. No entanto, a reação foi forte e provocou mesmo a reviravolta ainda na primeira parte, com Alderweireld a corrigir o erro a abrir com o empate (27′) e Son, na recarga a uma grande penalidade travada por Reina, a marcar o 2-1 após falta sobre Bergwijn (45+2′).

No segundo tempo, que continuou com um ritmo intenso e as equipas a conseguirem criar situações de perigo, o também central belga Engels “respondeu” ao compatriota Alderweireld e fez o empate na sequência de uma bola parada (um dos calcanhares de Aquiles do Tottenham), corrigindo o lance em que tinha cometido penálti a fechar a primeira parte (53′). Seguiram-se várias oportunidades falhadas ou defendidas por Reina e Lloris, sobretudo duas de Son e Dele Alli, mas o empate continuava sem ser desfeito até Son, já com Gedson Fernandes em campo, aproveitar da melhor forma um erro da defensiva contrária, ganhar a profundidade e fazer o 3-2 no último minuto de descontos, carimbando o dramático triunfo e colocando o Tottenham no quinto lugar. Cinco anos depois, Jude Branson ainda tem razão: há qualquer coisa de especial no treinador português.