Aqueles que seguem há alguns anos com atenção o cinema sul-coreano, terão tido apenas uma meia-surpresa com a vitória de “Parasitas”, de Boon Joon-ho, nos Óscares deste ano (e a fita já vinha com a Palma de Ouro do Festival de Cannes). No interior do pujante cinema asiático, a cinematografia da Coreia do Sul é uma das mais desenvolvidas industrialmente e avançadas tecnicamente, além de criativa, diversa e próspera, capaz de abranger das superproduções às comédias populares e aos filmes mais autorais e de contemplar os mais variados géneros, muito musculada comercialmente, e vencedora consistente de prémios nos maiores festivais de cinema do mundo há várias décadas. De entre a vasta, múltipla e riquíssima escolha existente de filmes sul-coreanos, selecionámos uma amostra de 12 títulos imprescindíveis abraçando vários géneros, e que de forma alguma esgotam a fortíssima oferta de cinema de qualidade feito naquele pais.

“The Housemaid”

De Kim Ki-young (1960)

Considerado por muitos como o filme fundador do moderno cinema sul-coreano, “The Housemaid” inspirou “Parasitas”, segundo o próprio Bong Joon-ho. É a história de um professor de música e da sua mulher, que têm dois filhos, acabaram de se mudar para uma casa grande e contratam uma empregada para ajudar no dia-a-dia doméstico. A rapariga é emocionalmente instável, acaba por seduzir o dono da casa e pôr em perigo o equilíbrio e a segurança da família. Um drama social com mochila de “thriller”.

“Whispering Corridors”

De Park Ki-hyeong (1998)

O terror é um género muito e bem cultivado pelo cinema sul-coreano, e este filme é apontado com um clássico recente do género, que junta ao enredo sobrenatural uma crítica ao autoritarismo e à obsessão da excelência escolar tipicamente asiática. A ação passa-se num colégio de raparigas altamente competitivo, que se descobre estar assombrado por fantasmas assassinos, e onde uma das alunas possui a capacidade de invocar espíritos. Teve muito sucesso e quatro continuações.

“Joint Security Area”

De Park Chan-Wook (2000)

As relações com a Coreia do Norte totalitária são, como seria de esperar, um tema recorrente do cinema da Coreia do Sul. Este filme de Chan Wook-Park é um policial intrigante e engenhoso que se passa na zona desmilitarizada entre as duas Coreias, envolvendo dois soldados norte-coreanos que aparecem mortos, supostamente por um militar sul-coreano. Um incidente que pode fazer estalar a guerra entre os dois países. “Joint Security Area” foi, durante vários anos, o recordista de bilheteira no país.

“Embriagado de Mulheres e de Pintura”

De Im Kwon-taek (2002)

O veterano Im Kwon-taek foi premiado em Cannes por este deslumbrante filme de época que conta a vida de um célebre e truculento pintor coreano, o autodidata Owon, que viveu no século XIX e presenciou várias das convulsões políticas e sociais dessa altura no país. Kwon-taek retrata Owon na sua psicologia, temperamento e convicções artísticas, deixando a sua câmara ser influenciada pela estética do pintor.

“2009 — Memórias Perdidas”

De Lee Si-myung (2002)

Temas da ficção científica como as viagens no tempo e as histórias alternativas também são tratados pelo cinema da Coreia do Sul. Em 1909, uma tentativa de assassínio de um político japonês falha, e tem como consequência um mundo futuro muito diferente do nosso, em que existe um grande e poderoso Império Japonês, do qual a Coreia é parte integrante. Na Seul desse mundo, em 2009, um polícia japonês e um coreano investigam um grupo terrorista pró-independência.

“Memories of Murder”

De Bong Joon-ho (2003)

A segunda longa-metragem do autor de “Parasitas” tem parecenças com “Zodiac”, de David Fincher. É, como este, baseado no caso real de um “serial killer” que violou e matou 10 mulheres, mas que acabou capturado após seis anos de investigações, embora por outro crime, e não foi acusado pelos assassínios por uma minudência legal. O filme é um assombro de atmosfera, tensão, detalhes e construção das personagens. O detetive encarregue do caso é Song Kang-ho, o pai da família pobre de “Parasitas” e ator favorito de Joon-ho.

“Vingança Planeada”

De Park Chan-Wook (2005)

A chamada “Trilogia da Vingança” deste realizador inclui ainda “Em Nome da Vingança” (2002) e “Oldboy-Velho Amigo” (2003), este premiado no Festival de Cannes e o favorito de muita crítica. Mas o melhor filme dos três, enquanto história, cinema, elaboração dramática e inventividade da violência é o último, “Vingança Planeada”. Uma mãe solteira erradamente condenada por um crime, e que viu a filha ser-lhe tirada pelo Estado, vai em busca da menina, e do verdadeiro assassino, após sair da cadeia.

“Secret Sunshine”

De Lee Chang-dong (2007)

Realizador de “Oasis” (2002), uma história de amor entre um delinquente e uma rapariga com paralisia cerebral, Lee Chang-dong assina aqui outro filme tão magnífico como insólito. Uma viúva (fabulosa Jeon Do-yeon) cujo filho foi raptado e assassinado, e que na dor se converteu ao cristianismo, decide seguir os preceitos da sua nova religião, visitar o assassino do filho na cadeia e perdoá-lo. Mas a visita corre muito mal e as convicções da mulher são alteradas radicalmente.

“Sítio Certo, História Errada”

De Hong Sang-soo (2015)

O autor deste filme é talvez o realizador mais “autorista” e experimental do cinema sul-coreano contemporâneo, nem por acaso muito admirado em França e querido dos “Cahiers du Cinéma”. Este é um dos seus melhores títulos, centrado num famoso realizador que conhece uma jovem pintora na cidade onde vai apresentar um filme seu, envolve-se com ela e vive duas histórias amorosas alternativas: uma que acaba mal, outra que nem tanto. Sem que daí Sang-soo tire conclusões moralistas ou “metafísicas”.

“A Criada”

De Park Chan-Wook (2016)

Um filme maquiavélico e erótico, perverso (à maneira asiática) e cheio de humor negro, brilhante da primeira à derradeira imagem, que transpõe para a Coreia ocupada pelo Japão dos anos 20, o livro da inglesa Sarah Walters passado na Londres vitoriana. “A Criada” tem um enredo que não pára de nos tirar o tapete de debaixo do pés e duas actrizes tão bonitas como talentosas, Kim Min-hee e Kim Tae-ri, que se esmeram na interpretação de duas personagens exímias em parecer aquilo que na verdade não são.

“Train to Busan”

De Yoen Sang-hoo (2016)

Quando o cinema sul-coreano faz um filme de zombies, é um senhor filme de zombies, como se pode ver por este trepidante “Train to Busan”. Um pai divorciado e a filha pequena metem-se no comboio que vai de Seul para Busan, mesmo na altura em que uma passageira contaminada por um estranho vírus o começa a espalhar por toda a composição, transformando as pessoas em zombies e lançando o pânico. E lá fora, as coisas não estão melhores. Já há uma continuação pronta a estrear.

“Em Chamas”

De Lee Chang-dong (2018)

Algures entre Patricia Highsmith e Michelangelo Antonioni, Lee Chang-dong assina aqui um filme inquietante, oblíquo e fugidio, onde ficam esboçados os problemas, frustrações, ressentimentos e desencantos de uma nova geração de sul-coreanos. Um universitário recém-formado e com poucos meios, vê uma amiga de infância e antiga vizinha envolver-se com um rico “playboy” que tem um passatempo bastante estranho: queimar estufas abandonadas. E um dia, a rapariga desaparece misteriosamente.