“Hoje vais ao São Jorge ver aquilo?”

Já é pergunta habitual cada vez que Lisboa recebe um festival de cinema — Queer Lisboa, IndieLisboa, Kino, DocLisboa, Monstra, mostra de cinema curdo. É certo que hoje o espaço lisboeta é palco para música, conferências, palestras sobre política, teatro ou stand up comedy. Mas é sempre um cinema, primeiro que tudo o resto. E o São Jorge faz 70 anos a 24 de fevereiro, dia da sua abertura oficial, e por isso esta quarta-feira há matiné com o primeiro filme ali projetado, “Os Sapatos Vermelhos”, de Michael Powel. O Observador relembra dez filmes que passaram por esta sala, ou por serem icónicos, ou por terem sido censurados. Quer dizer dez, não. Nove, porque o último é uma peça de teatro. Ah, já agora, se algum filme ficar de fora, não nos culpe, é da idade…

“Os Sapatos Vermelhos”

Bailar no Estado Novo

Talvez seja difícil encontrar sapatos todos da mesma cor cada vez que se visita o Cinema São Jorge. Há sapatos de vela, salto alto, botas, sapatilhas e, quem sabe, chinelo no dedo do pé, na altura do Festival de Cinema de Surf. Mas a 24 de fevereiro de 1950, “Os Sapatos Vermelhos” de Michael Powell e Emeric Pressburguer, era projetado na abertura do Cinema São Jorge.

Era maior sala de espectáculos do país — e dos espaços mais modernos da cidade –, e a inauguração oficial acontecia depois de, a 22 do mesmo mês, se ter realizado uma sessão pré-inaugural para funcionários e, a 23, uma gala para grandes figuras de Estado. O filme britânico, que conta a história de uma bailarina, baseado num conto de Hans Christian Andersen, chegou mesmo a ganhar dois dos cinco Óscares para os quais foi nomeado. Na inauguração do edifício, concebido pelo arquiteto Fernando Silva, houve também um concerto de órgão de Gerald Shaw, músico da BBC.

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“A Dama e o Vagabundo”

O esparguete da censura

A escolha é, sem dúvida, provocatória. Principalmente por se tratar de bonecada. É que apesar de Salazar ter entendido o Cinema São Jorge como uma obra pública para mostrar imponência ao mundo, escondendo um país muito pobre, não era muito fã de filmes, fazendo uso censura para controlar o que julgava precisar de controlo. Um cortar a fita antes de seguir para o projetor. Ou seja, a casa que recebe, hoje em dia, diversos festivais, desde o cinema queer ao cinema alemão, que abre portas aos miúdos e aos mais idosos, tornando-se espaço de liberdade, também passou pelo lápis azul. Dessa lista cinematográfica censurada e que se estreou no São Jorge, incluímos “The Great Escape” de John Sturges, “Roma” de Federico Fellini, “Um Violino no Telhado”, de Norman Jewison, ou o “O Pecado Mora ao Lado” de Billy Wilder.

Mas talvez o filme mais inesperado seja “A Dama e o Vagabundo”, de Clyde Geronimi e Wilfred Jackson, dos estúdios Disney, de 1955, que teve cortes específicos, feitos pela Comissão da Censura — o filme voltou a ser exibido em 2015, para celebrar o 25 de abril, por parte da Cinemateca. Fica a questão: o que terá chocado mais os generais de Salazar: cães a comerem esparguete à bolonhesa como dois seres humanos, ou a colocação da palavra “Vagabundo” atirando a personagem masculina para uma situação muito pouco patriarcal? Se os cachorros tivessem uma coleira da Mocidade Portuguesa, talvez a conversa fosse outra.

“Os 4 Cabeleiras do Após Calypso”

Beatlemania na capital

Comecemos por “A Hard Day’s Night”, filme da banda mais famosa do mundo, lançado em 1964. Uma comédia musical que surgiu no auge de toda a histeria em redor de John Lennon, George Harrison, Ringo Starr e Paul McCartney. A estreia em Portugal aconteceu, “finalmente!!!”, um ano depois no São Jorge, sob o nome “Os 4 Cabeleiras do Após Calypso”. Sim, os “fabulosos Beatles” traziam a sua “Beatlemania” até ao triste povo português. Esta tradução portuguesa visível no cartaz torna o relembrar desta estreia ainda mais peculiar. “Cabeludos!”, “Desgrenhados!”, mas “Com um ritmo dos Diabos”. Antevendo a para lá de improvável passagem dos Beatles por Portugal, o cartaz do filme deixava o seguinte conselho “sensato”, em nota de rodapé: “adquira já os seus bilhetes para qualquer dos espectáculos das próximas semanas… assim evitará dissabores!”.

Muitos anos mais tarde, no Doc Lisboa de 2012 (já com os festivais perfeitamente integrados na programação do cinema, revista a partir de 2001, quando a Câmara Municipal de Lisboa exerceu o direito de preferência pelo espaço), e depois de Paul MacCartney ter atuado no Rock in Rio Lisboa em 2004, foi exibido o documentário “George Harrison: Living in the Material World”, de Martin Scorsese, inserido na programação Heart Beat.

O Último Tango em Paris

Um grito de libertação revolucionária

Se o Cinema São Jorge abriu com ballet, libertou-se com o tango. Após a revolução dos cravos, milhares de espectadores compraram bilhetes para ver o “Último Tango em Paris” (1972) de Bernardo Bertolucci, que só se estreou em Portugal, precisamente naquela sala, dois anos depois. Fizeram-se filas durante dois meses e o filme ficou seis em cartaz. Esta tinha sido uma das obras proibidas pelo Estado Novo, por ser um símbolo de libertação, entre a moral e o sexo — e não era para menos, ver Marlon Brando, no papel de Paul, de meia idade, e Maria Schneider no papel de Jeanne, num caso amoroso e com muitas cenas de sexo, poderia escandalizar o Portugal de então. E escandalizou.

O filme trouxe tanta polémica que, naquela altura, como relembra o jornal “Público”, o “Diário Popular” colocou oito jornalistas a escrever sobre a película. Muitos anos mais tarde, em 2016, essas mesmas cenas voltariam à luz da ribalta por termos descoberto que a atriz protagonizou cenas, no set e fora dele, sem consentimento e das quais não tinha conhecimento. Tudo surgiu porque Bertolucci teria confessado sentir-se culpado com a situação — algo que depois veio a desmentir em público. Mesmo assim, Portugal conseguiu ser mais “revolucionário” que outros países, já que o filme só seria exibido em Itália, por exemplo, em 1987.

007 — Missão Ultra Secreta

Moore era impossível

Com obras de remodelação feitas, o Cinema São Jorge voltava a abrir portas a 26 de setembro de 1982, piscando um olho, mais uma vez, ao país com quem tem as relações mais antigas: a Grã-Bretanha. E logo para receber o agente mais secreto e britânico de todos os tempos, James Bond. E quando dizemos receber, é mesmo para ser literal, já que o ator Roger Moore, que morreu em 2017, decidiu dar um saltinho até Lisboa, viagem que já tinha feito nos anos 60 e depois, anos mais tarde, nos anos 90, para ser entrevistado por Herman José no programa “Parabéns”.

“Não estávamos à sua espera”, portanto, como é apanágio dos respetivos vilões. No filme, o quinto protagonizado por Moore na saga, 007 tem a missão de impedir que um sistema de mísseis vá parar às mãos erradas, colocando em perigo toda uma frota de submarinos britânicos. Nessa altura, Portugal ainda não era notícia por causa dos submarinos, mas tentava entrar na frota da CEE, dar um passinho de dança no Frágil e ir para a cama à boleia do Vitinho.

“Quem és tu?”

Um santo Botelho para salvar um São Jorge

Na viragem do século não parecia haver muita esperança de que o Cinema São Jorge continuasse em funcionamento — principalmente por não haver público. A Câmara Municipal de Lisboa lá lavou a cara ao estabelecimento e decidiu estrear uma obra de João Botelho, nome ímpar do cinema português — e que tanto gosta de explorar o universo literário português, de Fernando Pessoa a Eça de Queiroz –, o “Quem és tu?”, uma adaptação do Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett. Um filme que, sendo português, não deixava de ter uma alfinetada de época ao facto da Avenida da Liberdade ser “dominada” pelo comércio espanhol. Mais tarde, em 2014, agora com os “Os Maias”, a sala encheu para ver, ao vivo e a cores, um livro que foi passando, de escola em escola, como se de uma visita de estudo se tratasse.

De “Mutant Blast” a “Midsommar”

Ou qualquer outro filme de terror do MOTELx

Buh! Assustou-se? Não. Entende-se perfeitamente, até porque ainda estamos no início do ano e o festival MOTELx só acontece lá para setembro. Em 2006 nascia, com ganas de fazer toda a gente berrar e chorar por mais. E tem sido cliente habitual, já que caminha para a 14.ª edição. É difícil destacar um filme: por isso destacamos dois. Para já, no ano passado foi exibido o filme “Midsommar: o Ritual”, de Arl Aster, ou uma película sobre “o horror pagão” como lhe chamou a revista Rolling Stone (o próprio realizador admitiu, em entrevista à revista New York, que não percebe como fez este filme, mesmo já tendo realizado o “Hereditário”, diga-se). Estamos a falar de uma obra que podia muito bem ter sido nomeada aos Óscares.

Nesse mesmo sentido, goste-se ou não, há também um pequeno marco, daqueles que podem mesmo só influenciar pequenos nichos de cinéfilos, que foi a passagem do filme “Mutant Blast” de Fernando Alle, há dois anos. Depois de “Papa Wrestling” ou de “Banana Mother Fucker”. Estão para lá mortos-vivos, lagostas, ratos mutantes, cenas violentas de pancadaria e tudo e tudo. O mais importante, para os mais curiosos, é que este filme entra numa categoria específica de filmes de ficção científica e de fantasia, que são o de série B, muito baratos, algo que não ocorre, nem nunca ocorreu, no país. Uma ajudinha de uma das produtoras independentes mais antigas do mundo, a Troma, claro que deu jeito.

“Springbreakers”

O piscar de olho ao lado comercial

Pode pensar-se que o São Jorge é para cinema independente, que quem compra bilhete leva o olhar desconfiado, casaco do avô e tabaco de enrolar. Mas não. O São Jorge vai a todas, do Queer Lisboa ao Kino, festival de cinema alemão. Mas mesmo esses festivais, por não quererem fechar-se no circuito de cinema independente, sabem que, para sobreviver, precisam de, de quando em vez, dar a mão ao lado mais comercial da indústria. “Springbreakers”, de 2013, tem James Franco no papel de rapper e traficante de droga, juntamente com uma grupeta de universitárias que precisam de fazer dinheiro decidem assaltar um restaurante.

O filme, de Harmony Korine, teve estreia marcada no IndieLisboa, no São Jorge. Franco não apareceu em Lisboa, algo que se suspeitava. Isso só aconteceria em 2018, em pleno movimento #metoo em que também foi alvo, quando aterrou no MotelX, de surpresa,  para ver o filme “Upgrade” de Leigh Whannell.

“Diamantino”

O Ronaldo da nossa praça

Não é só por ter sido um filme exibido na sessão de abertura do Queer Lisboa há dois anos (que não entrou em competição), símbolo maior da comunidade LBGTI e festival de cinema mais antigo da cidade, em funcionamento desde os anos 90. Um filme de Gabriel Abrantes que evoca a história de Cristiano Ronaldo, não para uma comunidade específica, mas para um Portugal mais amplo e mais conservador. Uma produção francesa, brasileira e portuguesa que conta a história de Diamantino, futebolista que perdeu o “toque especial” e parte numa viagem fantasiada, qual “odisseia delirante”, onde dá de caras com diferentes temas pesados que hoje debatemos, como o fascismo, a crise dos refugiados ou a modificação genética.

“Diamantino” serve aqui de exemplo, como o São Jorge é uma montra privilegiada para cineastas que se revelam, que se mostram ambiciosos e criativos e que acabam por ser reconhecidos por isso mesmo, cá dentro e lá fora. O filme acabou por obter o Grande Prémio da Semana da Crítica no Festival de Cannes. E não será certamente por acaso que outros realizadores portugueses têm dado cartas lá fora: Leonor Teles, João Salaviza ou Diogo Costa Amarante. Mas mesmo com o reconhecimento exterior, continuam a encontrar um espaço interior para exibir os seus filmes, ainda que os prémios monetários possam ser inferiores.

Mário

O bailarino do Estado Novo

Não é um filme, mas podia ser. É uma peça de teatro. Não veste sapatos vermelhos como a Vicky, do primeiro filme exibido no São Jorge, mas veste igual (ou maior) coragem. A última obra aqui referida conta a história ficcionada de Valentim de Barros, um bailarino homossexual que foi perseguido durante o Estado Novo — e consequentemente internado no Hospital Miguel Bombarda — e que voltou a estar em cena este ano. O monólogo foi interpretado por Flávio Gil e o texto/encenação é de Fernando Heitor. Ainda que cinema e teatro possam não comunicar a 100%, neste caso, é quase flagrante. 70 anos depois, a memória daquilo que foi Portugal continua a ser projetada no presente e no futuro do Cinema São Jorge. Tal como o foi em 2016, quando o filme “Cartas da Guerra” estreou nesta mesma sala e onde centenas de pessoas deram de caras, pela primeira vez, com uma ficção sobre as cartas que o escritor António Lobo Antunes escrevia à amada enquanto estava na guerra colonial.