O Millennium BCP teve um aumento ligeiro dos lucros em 2019, para 302 milhões de euros, conseguindo também aumentar a margem financeira. Os resultados, os melhores do banco desde 2007, foram apresentados pelo presidente-executivo, Miguel Maya, numa conferência de imprensa no Tagus Park, em Oeiras, na sede operacional do banco. Estão, também, disponíveis no site da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Sobre um possível interesse no Novo Banco, Miguel Maya diz que não é tema “em cima da mesa” mas que o banco estará “atento” e irá “analisar” se a venda da instituição vier ao mercado.

Os lucros aumentaram 0,3%, com os chamados “proveitos core” a subirem 6,9% – de 2.107,7 milhões para 2.252 milhões de euros. Dentro desta rubrica estão um aumento de 2,8% nas comissões cobradas, para 703,5 milhões, e, “apesar de ter sido um ano adverso” devido à política monetária europeia, um crescimento de 8,8% na margem financeira, para 1.548,5 milhões (a margem financeira é, em termos simples, a diferença entre os juros cobrados pelo banco nos créditos que concede e os juros que paga pelo seu financiamento, designadamente através dos depósitos).

Miguel Maya voltou, novamente, a falar sobre a contribuição “injusta” para o Fundo de Resolução nacional (não apenas o europeu) que subtraiu ao banco 16 milhões de euros. Esse efeito, aliado aos quase 32 milhões de euros da contribuição extraordinária sobre o setor bancário, os lucros teriam sido beneficiados com mais 47 milhões – contribuições que, para o presidente da comissão executiva do banco, prejudicam a competitividade dos bancos portugueses, colocando-os em desvantagem em comparação com os concorrentes europeus que também disputam clientes com o BCP e com os bancos que “criam empregos em Portugal”.

Novo Banco? BCP não quer “crescer por crescer” mas “analisaremos essa operação” quando ela existir

Essa contribuição serve, sobretudo, para sustentar a resolução do Novo Banco. E, questionado pelo Observador na conferência de imprensa, Miguel Maya reconheceu que o BCP estará “atento” a este processo, embora garanta que a estratégia de crescimento do BCP é um “crescimento orgânico”, ou seja, sem fusões e aquisições (depois da compra do Eurobank, fora do mercado português).

Mas “é nossa obrigação estar atento a todas as oportunidades”. “Não acenamos com uma bandeira a dizer ‘estamos aqui’ mas o que dizemos é que se (e quando) o Novo Banco for para o mercado vamos olhar com o rigor que sempre suporta as nossas decisões”, diz Miguel Maya.

O presidente da comissão executiva do banco diz que o BCP não quer “crescer por crescer”, mas deixa claro: “analisaremos essa operação e nessa altura diremos se faz sentido. Mas não é um tema que esteja em cima da mesa nem constitui nenhuma preocupação”, garante.

MBWay: “Tudo o que tem valor, tem de ter um preço. Um preço transparente”

A poucos dias de serem discutidas no parlamento possíveis limitações à cobrança de comissões e, em particular, o serviço MBWay, Miguel Maya repetiu que não gosta de fazer “comentário político” mas só “até ao momento em que a política se confunde com a economia”.

“Quanto entramos num restaurante se nos puserem umas entradas e disserem que é gratuito, nós sabemos que isso não é gratuito e, na realidade, estará no preço da sopa ou no preço do prato”, diz Miguel Maya. Falando sobre o MBWay, o presidente do banco diz que “se algo tem valor, valor reconhecido, tem de ser pago – de forma transparente” e lembra que as comissões do MBWay só são suportadas por uma “minoria” de clientes, já que estão isentos os jovens e aqueles que têm soluções integradas que são como o “Netflix ou o Spotify”, em que há um pagamento mensal e, em troca, um conjunto de serviços disponíveis sem custos adicionais.

“Nós não podemos ter um discurso que queremos uma União Bancária mas depois lançamos restrições à atividade de quem cria emprego e quem paga impostos, levando a que os bancos fiquem numa posição francamente desfavorável” em relação a outras entidades, designadamente estrangeiras.

A atividade em Portugal registou um lucro de 144,8 milhões, mais 25% do que no ano anterior, ao passo que a contribuição das operações internacionais baixou de 187 milhões para 143,8 milhões de euros, pelo que os resultados finais acabaram por ser quase 50/50 entre a operação doméstica e a atividade internacional.

Os custos operacionais (recorrentes) aumentaram 10,3% para 1.103,1 milhões, sobretudo devido à devolução dos cortes salariais lançados em 2014, mas o banco compensou parcialmente esse efeito com uma redução de 9,9% nas imparidades e provisões, que beneficiaram os lucros em 59,5 milhões de euros. O banco melhorou o rácio de exposição não-rentáveis (crédito malparado e outros) de 7,6% para 5,3%, na forma como este indicador é medido pela Autoridade Bancária Europeia (EBA).

Entre o crédito (performing), houve um aumento de mais de mil milhões de euros (3,3%) da carteira, o que o banco garante estar a ser feito de forma “prudente” e “equilibrada”. A carteira de crédito “saudável”, isto é, em cumprimento, do banco está dividido entre 43% no crédito à habitação, 34% para as empresas e 23% em crédito pessoal e outros.

O banco não adiantou quanto irá propor de distribuição de dividendos mas garante que será uma proposta “muito conservadora”.

Acionista Sonangol “está para ficar”

E, sobre as revelações do Luanda Leaks, Miguel Maya repetiu que não pode falar sobre “situações concretas” mas “em generalidade, em abstrato, fazendo fé naquilo que tem aparecido nos jornais, a expectativa do BCP é que não tem necessidade de imparidades adicionais para nenhuma das situações referidas pela comunicação social sobre o Luanda Leaks”.

O executivo acrescentou, referindo-se às mesmas notícias nos jornais, que se deve “ler além das parangonas e ver que a exposição é muito baixa no caso do BCP”. Quanto ao acionista angolano Sonangol, Miguel Maya repetiu que o acionista “está para ficar”, tal como já tinha dito na recente conferência da Associação Portuguesa de Bancos.