As lágrimas de emoção após a final do Campeonato do Mundo de futebol de praia, que Portugal venceu depois de derrotar no jogo decisivo a Itália, já denotavam algo mais do que a simples expressão de um estado de espírito do momento. As declarações que se seguiram, a utilizar qualquer verbo no passado, mostravam que tinha chegado ao fim de linha. As entrevistas pós-receção no Palácio de Belém pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, apontavam para um trajeto que não tinha volta a dar. Esta quinta-feira, aos 43 anos, chegou a oficialização daquilo que há muito se percebera: Madjer, considerado o melhor de sempre da modalidade, acabou a carreira.

“Para além de fisicamente já não estar a 100% para acompanhar os miúdos, já me estava a preparar para acabar e queria terminar com um grande título”, assumiu em entrevista ao jornal Sporting, clube que representou sempre desde que a modalidade apareceu e foi depois mais tarde reativada. “No Sporting não vesti só a camisola, também vesti o coração e, quando é assim, o sabor das derrotas e das vitórias também é diferente”, acrescentou, tendo apenas o lamento de não ter conseguido ganhar mais títulos ao serviço dos verde e brancos.

Entretanto, e pouco depois desse anúncio, a Federação comunicou “a entrada de Madjer para os quadros do organismo, onde desempenhará as funções de coordenador para o futebol de praia”. “O antigo internacional, que conquistou, entre outros títulos, três Campeonatos do Mundo de Futebol de Praia e marcou mais de 1000 golos ao serviço da Equipa das Quinas, vai ser um dos responsáveis pela promoção e desenvolvimento da modalidade em que se notabilizou, passando naturalmente a acompanhar a Seleção Nacional”, destacou a nota.

De acrescentar que, apesar da saída da Seleção no seguimento do Mundial, Madjer tinha ainda um ano de contrato com o Sporting, que acabou agora por prescindir. “Surgiram agora novas oportunidades e novas decisões que têm de ser tomadas, mesmo ao nível do clube. Seleção? Foi uma saída bastante ponderada. Já tirei vários cursos, sou instrutor FIFA, tenho ligações fortes à Federação, à FIFA, à Beach Soccer Worldwide, que é a reguladora do futebol de praia mundial. Todas essas portas estão abertas porque já tivemos projetos comuns. É por uma dessas portas abertas que vai passar o meu futuro. E também pelo Sporting”, disse ao MaisFutebol em dezembro.

João Victor Saraiva, que adotou a alcunha do ídolo e antigo avançado argelino do FC Porto Rabah Madjer, teve uma carreira de mais de duas décadas onde se tornou, entre muitos outros feitos, o primeiro jogador de sempre de futebol de praia a chegar aos 1.000 golos pela Seleção, no ano de 2016. Além dos títulos coletivos por Portugal, onde se destacam os três Campeonatos do Mundo, os cinco Campeonatos da Europa e a medalha de ouro nos Jogos Europeus entre muitos outros troféus, o esquerdino foi considerado o melhor do mundo em cinco ocasiões (em 2003, 2005 e 2006 de forma “oficiosa”, em 2015 e 2016 com galardão oficial) e ganhou recentemente o prémio de melhor jogador de sempre da prestigiada publicação gaulesa France Football.

“22 anos de carreira, 14 anos de Sporting Clube de Portugal. João Saraiva, mais conhecido por Madjer, termina a sua carreira enquanto jogador de futebol de praia, aos 43 anos. Enquanto leão, o internacional português realizou 210 jogos e marcou 167 golos. O Sporting Clube de Portugal deseja a Madjer as maiores felicidades pessoais e profissionais e manifesta o enorme orgulho em poder ter na sua história o melhor jogador de sempre de futebol de praia. Como o próprio disse recentemente: ‘É muito bom ser considerado o melhor de sempre, mas é ainda melhor ser do Sporting Clube de Portugal'”, destacou o clube verde e branco em comunicado.

Além dos leões, Madjer representou outras equipas em diferentes períodos do ano desde 2003, entre as quais o Al Ahli (Emirados Árabes Unidos); Lokomotiv de Moscovo (Rússia); Alanyaspor (Turquia); Roma, Cavalieri del Mare e Milano Beach Soccer (Itália); e São Paulo, Botafogo, Rio de Janeiro e Pernambuco (Brasil).