As bancadas de um estádio de futebol são muitas vezes o melhor espelho de um clube. Haverá sempre a tendência quase inconsciente numa reflexão interna mas para o exterior de se perguntar se existe alguém mais bonito, como se fosse um conto de fadas. Não é. E há outro provérbio aplicável que explica melhor esse retrato que se faz de uma equipa, de um momento, de um jogo ou de uma marca – diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Ou, de forma adaptada, diz-me quantos tens, dir-te-ei como estás. Nesse sentido, o Sporting começou a trabalhar num lifting para disfarçar o que se passa em Alvalade antes de atacar o problema mais a sério e de forma cirúrgica, apostando forte nos dois próximos jogos para tentar levantar a época que começou torta e nunca se endireitou.

Em termos desportivos, a lógica é fácil de perceber e resume-se em poucas linhas. Goleado na Supertaça em agosto pelo Benfica, naquilo que significou um fim de linha para Marcel Keizer que só seria assumido um mês depois, os leões foram afastados já com Silas da Taça de Portugal pelo Alverca (do terceiro escalão nacional) e perderam no último mês nas meias da Taça da Liga com o Sp. Braga, hipotecando a possibilidade de revalidar o título ganho nas duas épocas anteriores. Sobrava a Liga Europa, que teria agora a primeira mão dos 16 avos, e o Campeonato, essa prova da regularidade onde a equipa tenta ainda fugir à irregularidade que vem da jornada inicial, precisando de uma série de triunfos seguidos para consolidar a aposta num terceiro lugar que pertence agora ao Sp. Braga. No plano mais “associativo”, a aposta passava por recompor a face de Alvalade a nível de assistências.

O jogo com o Boavista, no domingo, foi intitulado de “Jogo das Famílias”, com atividades que arrancam duas horas e meia antes do apito inicial e bilhetes mais baratos do que é normal, a partir dos oito euros. Esta quinta-feira, com os turcos do Basaksehir, foi tentado de tudo para contornar não só um horário nada apelativo (17h55 de um dia de semana) como uma tendência evidente de quebra a nível de espetadores, que teve como ponto alto – ou neste caso mais baixo – a pior casa de sempre em jogos do Campeonato na receção ao Marítimo (menos de 12.500 pessoas). Por isso, ou também para isso, o preço dos ingressos para sócios ficou mais acessível, foi oferecido um bilhete para acompanhante a todos os proprietários de Gamebox e feitas campanhas como um convite na compra de uma camisola do clube na Loja Verde. Contas feitas, foram 27.392 a Alvalade. As bancadas foram o tal espelho.

A média entre os primeiros três jogos da Liga Europa, a contar para a fase de grupos (LASK, PSV e Rosenborg), era de 29.680. A médio das dez jornadas iniciais do Campeonato, já com Benfica, FC Porto, Sp. Braga e V. Guimarães, era de 30.737. Baixa a comparar com 33.691 da última temporada. Muito baixa olhando para os números da época 2017/18 (43.623) e 2016/17 (42.772). Num clube eclético que quer reforçar essa vertente e que tem como máxima “o futebol é a mola real de tudo o resto”, os sinais estavam ali à vista. Fora de campo, as medidas tomadas também ficaram à vista. Faltava perceber as medidas dentro de campo para inverter as três vitórias nos oito jogos realizados em 2020. Afinal, sem isso não há medidas que valham. E o conjunto de Silas justificou todo o apoio recebido ao longo do jogo, com um triunfo que merecia mais expressão (3-1) mas que teve outra história curiosa.

Por forma a evitar mais artefactos pirotécnicos em jogos europeus, por receio de uma multa pesada da UEFA que no limite podia levar ao fecho parcial de bancadas nos encontros seguintes, os seguranças de recinto em Alvalade receberam ordens para revistar mais a sério os espetadores à entrada. Em algumas portas, essa revista chegou ao “nível aeroporto”, com as pessoas a terem de retirar os sapatos e os ténis para mostrarem que nada levavam nessa zona. A medida, justificada primeiro com ordens da UEFA mas depois explicada que era por decisão do clube (pelo menos nas palavras de quem fazia isso), motivou muitos protestos. À porta e no interior. E foi por isso que aqueles cânticos já habituais de “Varandas vai para o car****” e “Demissão”, assobiados pelo resto das pessoas, tinham dezenas de sapatos e ténis no ar, como que explicando o porquê dessa manifestação de desagrado. Depois, houve apoio a uma equipa que mereceu ser apoiada e que, com Vietto a ’10’, esteve sempre calçada.

Com quatro alterações em relação ao último onze inicial em Vila do Conde (empate a um) e uma aposta forte na armada argentina constituída por Acuña, Battaglia e Vietto, Jovane Cabral acabou por ser a grande surpresa entre as opções iniciais de Jorge Silas, entrando para o lugar habitualmente ocupado por Rafael Camacho e mantendo Bolasie na equipa para poder dar uma maior facilidade de alteração tática em jogo. Ainda houve até uma pequena “ameaça” no aquecimento, com Luís Neto a receber assistência e Tiago Ilori a acelerar o aquecimento até se ver que o antigo central do Zenit estava apto para iniciar o encontro. Depois, começou a rolar a bola. E o Sporting ligou em paralelo o rolo compressor, naquela que foi a primeira parte mais consistente a todos os nível na era Silas, só com comparação com a exibição também na Liga Europa em Alvalade frente aos holandeses do PSV.

Logo a abrir, na sequência da primeira ação ofensiva que deu o primeiro canto e por sua vez originou o primeiro remate à baliza, Coates inaugurou o marcador. Acuña foi à direita do ataque marcar a bola parada e o uruguaio conseguiu antecipar-se da melhor forma a Demba Ba, um dos nomes mais mediáticos (e mais veterano, já com 34 anos) do Basaksehir. A questão da eficácia, naquele que foi o quarto golo do agora capitão leonino esta época e o sexto mais rápido do clube em provas europeias (3′), foi determinante para dar outra tranquilidade à equipa verde e branca mas houve também muito mérito na forma como Silas montou uma estratégia capaz de explorar a 100% todas as debilidades defensivas dos visitantes. À meia hora, o resultado até pecava por escasso.

Sporar deixou a primeira ameaça, parando no peito ao segundo poste e rematando de primeira ao lado depois de um grande passe de Jovane Cabral (7′). Seguiu-se Jovane Cabral, a combinar bem com Bolasie que veio explorar as entre linhas no corredor central para isolar o jovem na área para o tiro defendido por Gunok para canto (15′). E logo no minuto seguinte uma bola grátis da defesa contrária para Battaglia, que no seguimento de nova bola parada obrigou o guarda-redes turco a defesa por instinto (16′). Mais uns minutos, mais uma boa aproximação à baliza dos vice-campeões turcos, com Vietto a rematar com objetividade para nova intervenção de Gunok (20′). No meio da avalanche, um corte providencial de Coates foi a única nota mais perto da baliza de Luís Maximiano, um mero espetador que de vez em quando tinha de andar a aquecer sozinho com o cair da noite…

Até esse momento, o Sporting tinha explorado sobretudo dois pontos: as falhas de marcação nas bolas paradas e o enorme espaço entre setores que existia no Basaksehir pela evidentes deficientes na transição defensiva. Depois, foi ao ataque num outro ponto mais débil dos turcos e que passava pela organização (ou a falta dela) em linha dos quatro mais recuados, o que deu mais possibilidades para a exploração da verticalidade e da profundidade. Jovane Cabral ainda chegou mesmo a marcar, numa “bomba” em recarga a um remate ao poste de Sporar, mas o lance foi bem invalidado por posição irregular do esloveno no início da jogada (26′). Seguiu-se um remate perigoso cruzado de Bolasie, a encontrar espaço nas costas do lateral esquerdo contrário (30′). E mais uma tentativa de Vietto (32′). O golo parecia uma inevitabilidade e surgiu mesmo ainda antes do intervalo, com Vietto a encontrar bem a subida de Ristovski na direita para o cruzamento e a conclusão de primeira de Sporar para o 2-0 (44′).

O cumprimento de Sporar ao carismático técnico de equipamentos Paulinho antes do regresso ao relvado mostrava bem a importância de começar bem para ganhar outra estabilidade e colocar em campo o que se treina durante a semana. No caso do esloveno, o facto de ser também o primeiro golo desde que reforçou o Sporting tinha ainda um maior significado. A formação verde e branca fez as pazes com o que mais gosta de fazer, que é jogar futebol. E voltou a deixar outra grande demonstração logo a abrir, na jogada que originou o terceiro golo e que passou pela cabeça de Sporar, por um toque em habilidade de Jovane, pela visão de Bolasie a assistir e um por um remate com muita classe de Vietto que aumentou a vantagem para 3-0 perante um conjunto turco quase derrotado (51′).

Tudo o que podia correr bem ao Sporting corria ainda melhor, numa lei de Murphy invertida que teve apenas a sua primeira contrariedade à passagem da hora de jogo mas com Luís Maximiano a travar com uma grande defesa o primeiro remate enquadrado de Visca, o melhor de um Basaksehir (ou menos mau) que pedia a entrada de Elia, o grande criativo da equipa do meio-campo para frente e um jogador que prometeu voos bem mais altos no início da carreira. No entanto, os leões foram-se deixando levar pela posse consentida aos visitantes, perderam intensidade e agressividade sem bola, deixaram de conseguir sair em transições e sofreram de grande penalidade, após uma falta muito discutida de Neto sobre Demba Ba na área que Visca transformou da melhor forma (77′).

O 3-1 trazia outro cenário para o encontro da segunda mão mas bastou um pequeno toque no acelerador não só para o Sporting perceber que jogando da mesma forma chegará com relativa facilidade ao golo na Turquia como para ficar muito perto da goleada, com Bolasie a ter um grande remate à trave a seis minutos do final e Gonzalo Plata, que entrou com a corda toda, a obrigar Gunok à última intervenção complicado da partida já nos descontos. Naquela que foi uma das melhores exibições da época, faltou apenas um outro resultado para a noite europeia dos leões ser perfeita. Porque com Vietto a ’10’, a equipa de Silas parece ficar bem mais calçada.