“Os Miseráveis”

Este filme, o primeiro de Ladj Ly, já foi comparado a “O Ódio”, de Mathieu Kassovitz (1995), por ambos mostrarem a realidade das “cités” parisienses, os bairros suburbanos onde os imigrantes se aglomeram, o crime campeia e o islamismo radical fabrica fanáticos, mas “Os Miseráveis” não é demagógico, tendencioso e vitimista como aquele. O realizador cresceu no bairro onde a ação do filme se passa e mostra, numa ficção contígua à realidade, o dia-a-dia de três membros da Brigada Anti-Crime encarregue do seu policiamento, as redes de contactos e as relações destes com figurões que fornecem informações e contém os ânimos em momentos de maior tensão em troca de alguma leniência, o tipo de delinquência que lá se comete, a crescente influência dos muçulmanos sobre os jovens e a facilidade com que estes podem cair no crime ou na radicalização religiosa. Ou, num futuro perigosamente próximo, transformar-se nos principais atores de uma fúria anárquica e cegamente destruidora que pode abater-se sobre Paris e outras grandes cidades de França. “Os Miseráveis” ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes.

“O Apelo Selvagem”

Se acharem que o cão desta nova adaptação ao cinema do clássico de Jack London, O Apelo da Floresta, tem um aspeto estranho, é porque não é verdadeiro, tal como acontece em todos os filmes anteriores feitos a partir deste livro. É um cão digital, inteiramente gerado por computador a a partir de um modelo real. Parece que hoje em Hollywood é mais prático e barato fabricar digitalmente um cão, do que treinar um para entrar num filme. E a fita de Chris Sanders ressente-se claramente disso, porque este Buck nunca é convincente, da maneira como se movimenta às expressões, e ainda por cima está muito antropomorfizado (aliás, como quase todos os outros canídeos e animais em geral que aparecem na fita) e a sua artificialidade contrasta de forma incómoda com os atores de carne e osso (entre os quais Harrison Ford, no papel do último dono de Buck) e as paisagens naturais em que “O Apelo Selvagem” foi parcialmente rodado (porque também as há digitais na fita). O que diria Jack London se visse que o herói de quatro patas do seu livro foi transformado, no cinema, num cão “fake”?

“O Tempo Contigo”

“O Tempo Contigo” é a nova longa-metragem animada do realizador, argumentista e autor de “manga” Makoto Shinkai, a quem já chamam (disparatadamente) “o novo Miyazaki”, e foi o filme campeão de bilheteiras no Japão no ano passado. Hodaka, um miúdo de 16 anos que fugiu de casa para viver e trabalhar em Tóquio, conhece a jovem Hina, um pouco mais velha que ele, que se revela ser uma “Rapariga do Sol”, capaz de parar a chuva e fazer aparecer o sol com orações. Um dom que lhe foi concedido após ter atravessado um portal sagrado mágico que descobriu no topo de uma fábrica abandonada. (Parece que a mitologia nipónica está cheia de raparigas que conseguem controlar o tempo). Além de se apaixonar por Hina, que perdeu a mãe, está desempregada e vive com o irmão mais novo, Hodaka propõe-lhe usar o seu dom para ganhar dinheiro e fazer as pessoas felizes. “O Tempo Contigo” foi escolhido pelo Observador como filme da semana e pode ler a crítica aqui.