O ministro da Cultura cabo-verdiano, Abraão Vicente, voltou esta sexta-feira a pedir consensos para a oficialização do crioulo, mas concretizável só na próxima legislatura, e desafiou os partidos a incluir esse tema nas suas plataformas eleitorais.

“Até 2021 muito dificilmente se abrirá novo ciclo de revisão constitucional, mas creio que os dois partidos devem ser de certa forma oportunistas pelas condições que nós criamos durante este mandato e incluir a oficialização da língua cabo-verdiana como parte das suas plataformas eleitorais. Porque não?”, desafiou o ministro.

Abraão Vicente falava aos jornalistas, na cidade da Praia, após uma conferência a propósito do Dia Mundial da Língua Materna, que se assinala esta sexta-feira, instituído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês).

O atual Governo, em funções desde 2016 e suportado pelo Movimento para a Democracia (MpD), promoveu a classificação da língua crioula a Património Imaterial Nacional e é a primeira que se celebra no país o Dia Internacional da Língua Materna com a língua com esse estatuto.

Além do MpD, o outro partido do arco do poder no país é o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), estando as eleições legislativas previstas para o primeiro trimestre do próximo ano.

“Eu nunca escondi que, pessoalmente, como homem  da cultura, o objetivo também de ocupar este cargo será promover o mais largo e o mais lato debate possível junto dos partidos, do Governo e das instituições no sentido de o crioulo ser plenamente reconhecido como uma das duas línguas oficiais de Cabo Verde”, disse o ministro.

Em Cabo Verde, a Constituição da República define o português como única língua oficial, mas que também prevê que o Estado deve “promover as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa”.

Por isso, para tornar o crioulo como língua oficial é necessária uma maioria de dois terços no parlamento para aprovar uma revisão constitucional.

“A língua materna cabo-verdiana, por ser rica, por ter sido consagrada de certa forma juntamente com a morna como património imaterial da humanidade, merece da parte do Estado de Cabo Verde a atenção de termos um consenso”, prossegui o titular da pasta da Cultura.

Neste sentido, o governante entendeu que se devem criar todas as condições para que o crioulo seja promovido a língua oficial.

“Não podemos fugir a isso. Não é opinião do ministro, está na Constituição, e enquanto não a cumprirmos, a Constituição de Cabo Verde não estará totalmente cumprida”, salientou Abraão Vicente, para quem não existem situações ou momentos ideais para a promoção do crioulo.

Notando que existem sempre “desculpas e formas de esquivar ao debate”, mas considerou que a próxima revisão da Constituição não poderá ser fechada sem a oficialização da língua cabo-verdiana em paridade com o português.

“Neste momento, já existem as condições, já existe a metodologia e existe a vontade científica para coadjuvar o Governo no sentido de termos todas as condições para oficialização do crioulo”, continuou, dizendo que o crioulo é a “esteira da cultura” e sua oficialização é “um desígnio máximo do povo cabo-verdiano”.

Para o ministro, a oficialização da língua cabo-verdiana terá como consequências o aprofundamento do seu estudo, a sua sistematização e introdução no sistema de ensino.

“Para o bem de Cabo Verde temos de dar esse passo, sem subjugar o português, é dar ao português o seu lugar devido, mas creio que cada vez mais torna-se inevitável que Cabo Verde tenha as duas línguas oficiais”, entendeu.

“Por mim, oficializava o inglês, o francês, o crioulo e o português, exatamente para dar aos cabo-verdianos os instrumentos de trabalho. Temos que ver as línguas como instrumentos de trabalho”, disse Abração Vicente aos jornalistas, em português, tal como tinha feito no seu discurso na abertura da conferência, onde disse que é preciso urgência nesse processo.

Relativamente às variantes existentes em cada uma das nove ilhas, o ministro disse que não se deve fazer nada com elas, por entender que são parte da riqueza da língua cabo-verdiana.

“É por isso que já não se fala do crioulo, mas da língua cabo-verdiana, exatamente para termos toda a abrangência, toda a riqueza, que incluiu o processo histórico e civilizacional da criação do povo cabo-verdiano”, sustentou.

Numa mensagem alusiva ao dia, o Presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, instou a que se acelerem os mecanismos para concretizar o que está previsto na Constituição da República, numa alusão à oficialização do crioulo cabo-verdiano como língua oficial.