“Se queres ver o Sporting dever tirar os sapatos”. A notícia paralela da receção dos leões ao Basaksehir, a contar para a primeira mão dos 16 avos da Liga Europa, não demorou a saltar a fronteira, com o jornal As (entre outros) a escreverem sobre a revista sui generis antes da entrada para o Estádio José Alvalade, com os adeptos a terem de se descalçar a pedido dos stewards na zona da porta 5, por onde entram os elementos das quatro claques do clube. Os protestos fizeram-se ouvir e muito, tendo mesmo havido pelo menos uma altercação mais exaltada que por pouco não chegou a vias de facto. No entanto, a medida ficou em aberto para ter continuidade.

“As medidas de segurança aplicáveis a eventos desportivos, nacionais ou internacionais, encontram-se legalmente previstas, nomeadamente as revistas pessoais aquando da entrada nos recintos desportivos. As medidas de segurança a implementar são decididas em coordenação com o promotor do espetáculo desportivo, conforme o grau de risco determinado para cada evento desportivo, o que sucedeu no jogo em concreto. Concretamente as revistas pessoais são executadas pelos assistentes de recinto desportivo (ARD) pertencentes a empresas de segurança privada, sob supervisão das Forças de Segurança, no caso concreto a PSP”, explicou na passada sexta-feira a PSP, contrariando de certa forma aquilo que os ARD, ou stewards, tinham dito a alguns associados durante a revista – que tinha sido uma decisão do Sporting por receio de sofrer outra multa pesada ou mesmo a interdição de parte da bancada do estádio, como já aconteceu a outros clubes na Europa.

Ao contrário do que tem sido habitual, os próprios cânticos contra Frederico Varandas vindos do topo Sul (e que mereceram a habitual assobiadela do resto do estádio) tinham como foco esse episódio da revista, como foi sendo percetível nos vídeos que foram circulando nas redes sociais. As próprias imagens do encontro, com dezenas e dezenas de pessoas com sapatos e ténis no ar sob forma de protesto por uma medida nunca antes adotada neste novo Estádio José Alvalade, fundado em agosto de 2003. Ainda assim, e numa altura em que o foco tende a estar centrado na tensão entre Direção e claques, o encontro de andebol do playoff de apuramento para os oitavos da Liga dos Campeões com o Dínamo de Bucareste acabou por inverter essa situações no Pavilhão João Rocha.

Enquanto que, no final, dentro e fora do recinto, houve um ambiente de grande proximidade entre as claques verde e brancas e dos romenos, com cânticos de ambos os conjuntos e saudações especiais dentro de um enorme espírito de fair-play, os ânimos chegaram a aquecer e muito na zona da tribuna do pavilhão, obrigando mesmo à presença de assistentes de recinto desportivo no local antes da chegada da própria PSP. Tudo porque Miguel Afonso, vogal da Direção para as modalidades que apresentou queixa por agressão no Multidesportivo há duas semanas por elementos alegadamente pertencentes à Juventude Leonina, não gostou da forma como os dirigentes romenos presentes no espaço estavam a celebrar os golos e, depois de uma discussão, pediu para que os mesmos fossem para um outro camarote, numa altercação percetível por várias pessoas no recinto.

Era neste contexto que chegava o Sporting-Boavista, com essa curiosidade extra de se perceber como seriam feitas as revistas e, em paralelo, se chegarão também aos encontros de Benfica ou FC Porto – o que poderia revelar se foi apenas um decisão entre forças de segurança e promotor do espetáculo ou se surge como nova medida depois da reunião mantida entre Pedro Proença, presidente da Liga, e Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, no seguimento do arremesso de várias tochas no V. Guimarães-Benfica, no Sporting-Benfica, no V. Guimarães-FC Porto (em terreno neutro, Braga) e no Sp. Braga-FC Porto, a final da Taça da Liga.

Antes, houve até quem ironizasse com a situação como a claque Directivo Ultras XXI, uma das que viu o protocolo com a Direção rescindido: depois de ter feito um apelo para que todos os sócios que fossem a Alvalade levassem chinelos, aproveitou para lançar uma “campanha” intitulada “Descalça-te com estilo”, com a venda de “meias DUXXI disponíveis na sede nos tamanhos 37-40 e 41-44” por cinco euros. Com o arranque do jogo a aproximar-se, a porta 5 voltou a ser alvo de uma revista mais apertada à semelhança do que tinha acontecido com o Basaksehir mas de forma seletiva, com alguns adeptos que chegaram mais cedo a passarem sem se descalçarem enquanto a larga maioria tinha de parar para tirar os sapatos ou os ténis (o apelo dos chinelos teve pouca repercussão, com alguns exemplos soltos como um adepto mais velho que levou consigo um par além dos sapatos).

Mais uma vez ouviram-se protestos cá fora mas de forma menos expressiva, também por já não ser a primeira vez que tal acontece naquela entrada do recinto, e tudo decorreu de forma calma e sem grandes atrasos para a ovação ao rei dos areais, Madjer – curiosamente, no único momento em que o presidente leonino, Frederico Varandas, foi assobiado. De resto, e da contestação habitual, somente vestígios. Como por exemplo uma vedação que divide a zona do topo da central e que se tornou uma espécie de “vedação dos lamentos” com alguns adeptos a pendurarem os seus ténis durante o jogo como forma de protestar com as revistas mais apertadas em Alvalade e a registarem o momento com imagens que simbolizam o novo assunto “nascido” esta semana no clube.