Entrevistado via Skype na madrugada de domingo pela RTP, na cabine de 2,5 metros quadrados que lhe serve de quarto no navio de cruzeiros Diamond Princess, onde embarcou no passado dia 13 de dezembro, para mais uma temporada de trabalho, Adriano Maranhão, 41 anos, passa uma imagem de calma e tranquilidade.

De barba por fazer e camisola de alças, está trancado naquele espaço exíguo há mais de 24 horas — ao longo das quais, segundo a denúncia da mulher, Emmanuelle, a partir de Portugal, se alimentou apenas de bolachas e batatas fritas.

Sabe há tanto tempo quanto isso que está infetado com o novo coronavírus, que já afetou mais de 78 mil pessoas em todo o mundo e matou quase 2.500 (2.442 delas na China apenas). E, de resto, não sabe mais nada: mandaram-no sentar, disseram-lhe que a análise que tinha feito à saliva, dois dias antes, tinha dado positivo, e deixaram-no ali, à espera.

Não foi visto por qualquer médico ou enfermeiro, a bordo do navio onde pelo menos mais 633 pessoas acusaram o novo vírus. Não foi visto por ninguém, aliás, nem sequer pelos outros quatro portugueses que também fazem parte da tripulação do navio.

“Falei com eles, por via de Messenger, e não foram contactados. Não sei se estão também positivos mas não foram contactados e só deverão ser se alguma coisa se alterar, mas ainda não deram entrada no navio os resultados dos testes todos”, explica durante a chamada.

Consciencioso, apesar de até não ter sido efetivamente proibido de o fazer, diz que optou por se isolar por completo dos demais passageiros e tripulantes: “Perguntei se poderia sair para fumar ou para apanhar ar, disseram-me que sim mas para evitar sair da cabine, coisa que eu fiz para não contagiar mais pessoal“.

Apesar de tudo, não esconde que a situação no Diamond Princess, ancorado no porto de Yokohama, no Japão, desde 3 de fevereiro, está tudo menos calma: “As coisas estão a acontecer e isto não está nada fácil. Isto está mesmo o caos aqui dentro do navio. Agora estou à espera que me venham aqui chamar à cabine para possivelmente sair do navio, agora não sei é como é que vai ser o procedimento”, conclui, sem alterações de expressão.

Até este sábado, apesar do surto que grassa no navio (já morreram três passageiros infetados, todos com mais de 80 anos) e da quarentena entretanto declarada, o canalizador português tinha continuado a trabalhar. “O processo aqui foi muito lento. Andámos nos primeiros dias sem máscaras, sem proteção nenhuma. Só quem ia mais à área de passageiros é que vestia um fato branco, mas nada que pudesse isolar o corpo”, contou entretanto ao Expresso.

Está cansado — “sente o corpo cansado” como tem descrito Emmanuelle Maranhão à imprensa —, mas não tem qualquer outro sintoma. “Temos de estar tranquilos e pensar que este senhor, para bem dele, e ainda bem, até à data não apresenta sintomas. Vamos aguardar para ver a evolução, mas estar assintomático é, por enquanto, positivo”, disse entretanto a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, em declarações à agência Lusa.

“As autoridades estão a retirar as pessoas do navio para hospitais de referência no Japão de acordo com os sintomas e a situação clínica. No caso concreto deste senhor, e de outros passageiros e tripulantes que se encontram a bordo e assintomáticos, há um critério de prioridade. A indicação que há nestas situações é para isolamento e ficar em vigilância para ver se os sintomas evoluem ou não evoluem.”

36,8ºC e duas refeições de frango

Natural da Nazaré, no distrito de Leiria, Adriano Maranhão trabalha há cinco anos para a norte-americana Princess Cruises, como canalizador. Com Emmannuelle Maranhão, professora, tem três filhas, de 3, 5 e 8 anos. Desde que ela, ao final da tarde deste sábado, deu a primeira entrevista à TVI, a revelar que estava sozinho no navio, testado positivo e a desesperar por assistência, que o telefone não tem parado, contou também já este domingo ao Diário de Notícias.

Amigos, familiares, jornalistas — todos lhe têm escrito e ligado, para desejar as melhoras ou saber como está. Só não chega o telefonema por que aguarda com tanta ansiedade: “Não tenho tido a resposta mais rápida que esperava das autoridades portuguesas. Só quero que isto se apresse o mais rápido possível para ser hospitalizado e começar a ser tratado”, desabafou.

Apesar de já ter sido informado de que ainda tem um ou dois dias de Diamond Princess pela frente e que não deverá ser retirado antes da próxima segunda ou terça-feira, Adriano Maranhão já está, pelo menos, um pouco mais acompanhado, consequência da atenção mediática que conseguiu captar — e que no sábado à noite já tinha posto o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ao telefone com Emmanuelle.

Continua sem ser avaliado, mas já foi contactado, via telefone, pelo pessoal do Medical Center do Diamond Princess: “Simplesmente telefonaram para a minha cabine, perguntaram se eu estava bem, se eu tinha medido a febre. Disse que sim, que a temperatura estava nos 36,8…”. Também já fez uma refeição digna desse nome (ou duas): os colegas portugueses levaram-lhe frango num tupperware e a empresa também deu ordem para que lhe fosse entregue o almoço.