Os vídeos começaram a circular nas redes sociais esta segunda-feira e mostram uma série de agressões, levadas a cabo por agentes da Unidade Especial de Polícia, contra duas mulheres que são agarradas, empurradas e atingidas com bastões. Esta tarde, uma das mulheres, Taiane Barroso, confirmou ao jornal Público que vai apresentar queixa no Ministério Público esta quarta-feira, contra a PSP, por agressão.

Tudo terá acontecido por volta das 22h30 de domingo, quando uma carrinha da Unidade Especial de Polícia chegou à porta de um bar na Rua da Cintura do Porto de Lisboa, onde se festejava o Carnaval, e abriu um “clarão” para deixar passar um autocarro turístico, segundo explicou Taiane ao Expresso. De seguida, ouviram-se gritos: “Olhei para o ‘clarão’ e, lá no meio, estava uma mulher deitada, com três polícias em cima dela, a fazer sei lá o quê, e mais uns dois a olhar.”

A cidadã brasileira, que vive há dois anos em Portugal, decidiu intervir ao ver que a perna da mulher tinha sangue. Foi aí que terá sido agredida, no momento captado pelos vídeos de vários dos presentes no local, com um dos agentes a tentar manietá-la com recurso a um bastão. Pelo meio, um dos agentes dispara um tiro para o ar. A primeira mulher que estaria a ser agredida terá sido detida e levada para um hospital. O Público avança que terá ficado com uma fratura na cabeça.

“Nem me apercebi do que estava acontecendo, só queria que não levassem ela. Estava a tentar apenas segurar a menina”, aponta Taiane, que trabalha para a Associação Renovar a Mouraria. A brasileira, que ficou com o braço inchado, fala em violência “desproporcional” e “misógina”: “Estavam a espancar uma mulher na praça pública, com umas trezentas pessoas, numa festa em que 90% das pessoas eram brasileiras. Não veria aquilo tipo de violência com uma portuguesa ou uma alemã”, afirma, razão pela qual já apresentou queixa à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Na quarta-feira, irá fazer o mesmo junto do Ministério Público.

A versão da PSP: “ocupação da via pública”, “incumprimento generalizado” e “hostilidade para com os polícias”

A Direção Nacional da PSP já reagiu em comunicado e confirmou parte do relato feito por Taiane Barroso, assumindo até que houve “uso da força” e “um disparo de advertência”, mas justificando a atuação dos agentes com o “incumprimento generalizado” das ordens dadas por parte do grupo e com o que considera ter sido uma atitude de “hostilidade” para com os agentes.

De acordo com a PSP, a Unidade Especial dirigiu-se ao local por haver “registo de distúrbios, ruído e ocupação da via pública”, deparando-se à chegada com “um grupo numeroso de pessoas que ocupava a totalidade da rua”. Foi então feita uma “advertência” para que os presentes desocupassem a rua, que, segundo a PSP, foi recebida com “incumprimento generalizado”.

Perante a situação, a PSP afirma que os agentes tiveram de “repor a ordem para desobstruir a via, recorrendo ao uso da força para fazer dispersar as pessoas”. Acrescenta ainda que uma mulher foi de facto “manietada e detida” por ter antes agredido um polícia.

A Direção Nacional confirma que foi feito um disparo para o ar por um dos agentes, mas justifica-o com a “hostilidade” que estaria a ser demonstrada para com os polícias: “Em virtude de vários integrantes do grupo terem tentado impedir a detenção, do incumprimento reiterado das ordens que estavam a ser transmitidas e da hostilidade dessas pessoas para com os polícias, foi efetuado um disparo de advertência para o ar, em segurança, que permitiu cessar os comportamentos hostis e efetuar a detenção da agressora”.

A PSP confirma ainda que a mulher detida sofreu sofrimentos na sequência da detenção e foi levada para o hospital, mas não aborda o caso de Taiane Barroso.