“The Gentlemen — Senhores do Crime”

Mais de 10 anos depois do seu último filme de “gangsters” londrinos, “RocknRolla: A Quadrilha”, Guy Ritchie regressa, e ainda bem, àquele que é o seu “habitat” cinematográfico. Em “The Gentlemen — Senhores do Crime”, Matthew McConaughey interpreta um americano que concebeu um sofisticado e muito lucrativo sistema de produção de marijuana em terras inglesas, cobiçado por gente muito menos recomendável do que ele. A receita que celebrizou Ritchie em “Um Mal Nunca Vem Só” e “Snatch: Porcos e Diamantes” volta a funcionar bem — um “mix” de “gangsters” topo de gama, foleiros, étnicos e “cockney”, violência bruta mas cómica, humor negro, linguagem desbragada e politicamente incorreta, jiga-joga formal q.b. — e o elenco inclui ainda Hugh Grant num jornalista chantagista, Colin Farrell num treinador de pugilismo que usa os fatos de treino mais pirosos já vistos, Charlie Hunnam, Michelle Dockery, Eddie Marsan ou Jeremy Strong.

“Vidas Duplas”

O verbo é rei e senhor nesta comédia de Olivier Assayas passada no meio da edição e dos media parisienses, onde as personagens, entre dormirem umas com as outras e cometerem adultério com a maior das levezas, não cessam de falar, do primeiro ao último plano, quase nunca sobre as coisas comezinhas da vida quotidiana mas sim sobre temas da atualidade e de natureza intelectual, como o valor das redes sociais, o império das séries de televisão ou a anunciada morte do livro e a transição para o digital. “Vidas Duplas” seria uma cerrada, presunçosa e insuportável  estopada, não fosse Assayas escrever bons diálogos, dar umas pinceladas satíricas aqui e ali, filmar com pé ligeiro e o elenco incluir gente como Juliette Binoche, Guilaume Canet, Pascal Greggory ou Vincent Macaigne. Mas é um filme francês da ponta das unhas à raiz dos cabelos.

“Alis Ubbo”

Com um título que remete para o nome que os fenícios deram a Lisboa, “Porto seguro”, Paulo Abreu mostra neste documentário, com subtileza sarcástica, a Lisboa infestada de turistas e cruzada por “tuk-tuks”, em cujo céu há uma coreografia permanente de gruas de construção, enquanto que ruas e passeios são levantadas e esventrados por obras permanentes. É a Lisboa criada pela vereação de Fernando Medina e Manuel Salgado, da especulação imobiliária desenfreada, do aumento em flecha do custo de vida, do fecho em série de lojas, restaurantes e cantinhos históricos e tradicionais, da destruição do património, da estereotipação da História de Portugal para estrangeiro ver e ouvir e da anglicização saloia. João Patrício faz um condutor de “tuk-tuk” e guia turístico a despachar, neste “Alis Ubbo” em que ainda fica muito por dizer e mostrar.

“O Lago dos Gansos Selvagens”

Numa cidade do interior da China, duas “famílias” rivais de delinquentes, e depois de uma cena de pancadaria durante uma reunião num hotel que controlam, resolvem que aquela que conseguir roubar mais motos numa noite, fica com as melhores zonas da cidade para “trabalhar”. É durante essa competição que o chefe de um dos “gangs”, Zhou Zenong (Hu Ge) comete um terrível erro, que o leva a ser perseguido pelos outros “gangsters”, e pela polícia, que põe a sua cabeça a prémio. Este é o novo filme policial de Diao Yinan, que em 2014, com outro policial, “Carvão Negro, Gelo Fino”, tinha ganho o Urso de Ouro do Festival de Berlim, acrescentando-lhe o Urso de Prata do Melhor Actor. “O Lago dos Gansos Selvagens” foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.