Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

O simplesmente… Vinho não é uma feira qualquer. O “salão off” que acontece há oito edições em paralelo com grandes feiras do setor dedica-se a juntar debaixo do mesmo teto um conjunto de vignerons (ainda que nem todos os pequenos produtores se identifiquem com esta expressão). A mostra de vinhos alternativa regressou no fim de semana passado ao Cais Novo, junto ao rio Douro, para receber 101 produtores focados em intervenção mínima e no conceito de “terroir”. Produtores e seus adeptos, naturalmente.

Entre homens e mulheres da terra e do vinho de diferentes regiões, escolhemos seis produtores, pela história de cada um e pelas novidades que foram apresentadas em prova. Seis, esse número pouco redondo, que reúnem estilos e feitos de regiões tão diversas como Vinhos Verdes, Douro, Beira Interior, Colares (Lisboa), Tejo e Bairrada. Ei-los: dos “vadios” que quiseram fazer vinhos em garagens aos que desenharam rótulos “Sem Igual”.

O evento simplesmente… Vinho aconteceu a 21 e 22 de fevereiro, no Porto

Sem igual

Vinhos Verdes

João Camizão, de 44 anos, é a quinta geração de uma família produtora na zona dos Vinhos Verdes, há muito apostada no perfil de vinho mais tradicional na região (habitualmente é feito para ser consumido no próprio ano). Apesar da herança, quis este vigneron fazer diferente. Tão diferente que o rótulo Sem Igual viu, pela primeira vez, a luz do dia em 2012. Uma passagem pela Índia anos antes serviu de alavanca para a criação do projeto em nome próprio.

O projeto Sem Igual pertence ao casal João e Leila Camizão (© DR)

Arinto e Azal são as castas preferencialmente trabalhadas pelo casal João e Leila Camizão, sendo que os topos de gama da casa são provenientes de ramadas, vinhas tradicionais nos Vinhos Verdes que chegam a trepar muros e a formar túneis. Têm entre 60 e 70 anos e nunca foram arrancadas, garantem-nos, dando origem a vinhos de edições limitadas. Falamos do Sem Igual Ramadas Wood e do Sem Igual Ramadas Metal, este último, colheita de 2018, é umas novidades a chegar ao mercado. Mas não é o único. A ele junta-se o espumante rosado Pét-Nat Sem Igual 2019 (Touriga Nacional e Baga), sem adição de sulfitos. Os rótulos custam 28 e 18 euros, respetivamente.

O Pét-Nat custa cerca de 18 euros

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Apesar de fãs assumidos dos vinhos verdes com perfis distintivos — disruptivos até — nos quais imperam a acidez, a frescura e a mineralidade, estes fazedores de vinhos têm no portefólio um vinho branco verde que, dizem-nos, exemplifica o que se fazia na região há 50 anos. Chama-se “Sem Mal” porque a malolática ocorre na garrafa, não é filtrado e no topo da rolha destaca-se uma fivela de metal, “tal como antigamente”, conta Leila. Os vinhos Sem Igual são feitos com pouca intervenção na adega — significa isto que não são adicionadas leveduras e que a fermentação é espontânea.

O casal vive hoje entre as vinhas (as mais novas têm entre 4 e 8 anos), em Meinedo, Lousada, e tem planos para em 2021 inaugurar um enoturismo — uma casa de traça original datada de 1783, com lagares de granito no interior, está agora a ser recuperada e, findas as obras, terá cinco quartos, uma zona de convívio comum, um pátio e uma piscina. Enquanto isso não acontece, há um quarto no The Yeatman com o nome Sem Igual e com apontamentos decorativos alusivos ao projeto, não fossem os produtores “wine partners” do hotel há cinco anos (e sim, isso também significa que constam na carta vínica e nos eventos que vão por ali sendo realizados).

Mapa

Douro

A palavra vigneron assenta-lhe bem. Pedro Garcias é um homem da terra. A aventura começa em 1999 quando compra uma propriedade em Foz Côa para aí, juntamente com a mulher Cristina Costa, produzir vinho. O casal saiu de casa a um sábado para ir à descoberta de uma vinha onde pudessem plantar o sonho. Nesse mesmo dia foram felizes. Durante cinco noites Pedro Garcias não conseguiu dormir de tanto entusiasmo e nas longas viagens que a distância o obrigava a trilhar foi congeminando um plano: acabaria por hipotecar o apartamento, vender ações e propor um negócio de futuro à Ramos Pinto, ao vender-lhes as uvas das próximas quatro colheitas. “Era um pé rapado”, conta ao Observador, ao mesmo tempo que recorda que veio de uma família pobre. “Éramos sete irmãos. A minha mãe trabalhava na horta e era a mulher da casa. Morreu nova e sou o único filho que se dedicou à terra em sua memória. Não herdámos nada. Não tínhamos um metro de vinha.”

Pedro Garcias lançou os primeiros vinhos em 2009 (©DR)

Dez anos volvidos, a quinta de Foz Côa — que junto ao rio Douro dava origem a vinhos mais maduros, não tanto o desejo deste produtor — foi vendida e substituída por uma propriedade em Muxagata, localidade onde nascem os primeiros rótulos Mapa, em 2009. De lá para cá, as referências dos vinhos de boutique foram crescendo — sempre a um ritmo controlado — e a terra foi mudando. Após mais compras e vendas, o projeto daquele que também é jornalista e crítico de vinhos no jornal Público conta agora com duas pequenas quintas em Muxagata, totalizando 10 hectares, e duas quintas em Favaios (incluindo aquela com a adega). À contagem total juntam-se ainda duas vinhas velhas dispersas. “Emagreci para fazer vinhos diferentes”, garante, introduzindo na conversa a diversidade do Douro ainda por explorar. Por enquanto, objetivo mais imediato são os vinhos de parcela, ao invés dos de lote, sempre com pouca intervenção. Não são usados herbicidas ou leveduras adicionais. Os tintos vinificam em lagares de granito, com pisa a pé, e os brancos em cubas de inox. Sulfitos são poucos, “nas quantidades mínimas”.

Cada garrafa custa 20 euros

O projeto Mapa tanto dedica-se aos clássicos durienses — “gastronómicos e com mais complexidade”, garante —, como a vinhos “mais puros, diretos e até vinosos”, como é o caso do novíssimo Vinha dos Altos 2017, proveniente de vinhas velhas plantadas na aldeia de Francelos, na zona mais alta de Alijó, a mais de 600 metros de altitude. Nas vinhas seguramente com mais de 60 anos — apesar de ser difícil determinar em que fase da terceira idade se encontram —, estão as castas Tinta Carvalha, Tinta Amarela, Tinta Francisca ou Gouveio Preto, entre outras. O vinho, 20 euros a garrafa, é vendido à porta da adega e também em garrafeiras e restaurantes selecionados.

Vadio

Bairrada

Luís Patrão até achava que era preciso uma grande adega e grandes investimentos para vinificar vinhos, mas as viagens que o levaram a estagiar na Califórnia e na Austrália deram-lhe a volta à cabeça — isto é, deram-lhe perspetiva. A ideia “conservadora” ficou para trás e o enólogo formado em Vila Real decidiu, em 2004, fazer um pequeno ensaio e produzir 1000 garrafas numa garagem, na região da Bairrada. Um ano depois, saíam os primeiros Vadios para o mercado.

Luís Patrão começou a produzir vinhos numa garagem, na Bairrada, em 2004

Vadio. Um nome propositadamente curto, fácil de usar em outras línguas que não a nossa e anti-conservador. “As marcas que existiam em Portugal na altura eram ‘Quintas de’, ‘Casas de’, ‘Herdades de… Não tendo qualquer historial no negócio do vinho, achei que poderia fazer uma coisa mais inovadora e, mesmo tempo, chamar à atenção”, conta ao Observador. Mais de dez anos depois, Luís Patrão — que é também o enólogo da alentejana Herdade de Coelheiros — diz estar a chegar às 50 mil garrafas. Garante, no entanto, que não quer passar disso. “Em Portugal confunde-se muito qualidade com quantidade”, atira.

80 euros a garrafa

Hoje são seis as referências de vinho, incluindo tintos, brancos e espumantes. A grande novidade é o Rexart 2015, o primeiro de sua espécie, que viu a luz da primeira prateleira em dezembro. É como é descrito o vinho que custa 80 euros a garrafa? Patrão, que se diz enólogo minimalista na adega e exigente na vinha, responde: “O Rexart nasce do objetivo de criar vinhos de parcela, que considero o expoente máximo da vinha e do vinho”. O monocasta Baga tem um Cartão de Cidadão interessante: vinha de encosta, exposição a norte e solos argilo-calcários”. Está à venda no Club del Gourmet do El Corte Inglés e na Garrafeira Nacional, entre outros pontos de venda.

Baías e Enseadas

Lisboa

O nome Baías e Enseadas parece transmitir a salinidade dos vinhos de Daniel Afonso, produtor por teimosia e paixão, que entre 2013 e 2014 começou a plantar vinhas em terrenos de família com morada fixa em Colares, na região vitivinícola de Lisboa. Daniel, o enófilo, não herdou negócios ou gostos. O caminho do vinho foi trilhado sozinho e somente por gosto. “Eu não ligava muito aos vinhos até chegar os 20 e poucos anos. Um dia provei um vinho do Douro e, de repente, começou um gosto que não parou de progredir”, relembra. Hoje com 54 anos, é o dono de dois bares de vinhos alfacinhas: Enoteca de Belém e Chafariz do Vinho.

Daniel Afonso, rodeado das vinhas que plantou (© DR)

Comprar, vender e servir vinho não chegava, pelo que em 2015 faz uma primeira experiência com as castas regionais que começou a plantar dois anos antes. Foram feitas apenas 100 garrafas. Daniel — que prefere o termo “vinhateiro” a vigneron — guardou algumas e vendeu outras a amigos. Um ano depois acontece “a primeira vindima a sério”, com os primeiros rótulos a chegar ao mercado — Fernão Pires, Malvasia, Arinto e Castelão, monocastas de 2016. As referências em causa, agora colheita de 2017, são uma novidade assim-assim, estando disponíveis desde o final do ano (cerca de 20 euros; foram feitas 1000 garrafas de cada rótulo). São todas vinificadas na Adega Regional de Colares — com o contributo do enólogo João Carvalho, da Quinta do Lagar Novo — e nos rótulo levam a designação “Regional Lisboa”. A principal intenção de Daniel, conta-nos, é mostrar a região de Colares num copo, daí que os vinhos sejam “tensos, salinos e minerais”.

O vinho custa cerca de 20 euros

Casas Altas

Beira Interior

José Augusto Madeira Afonso é o nome que sustenta as Casas Altas, na Beira Interior. O arranque de produção remonta a 1995 e, de lá para cá, o fazedor de vinhos que também é médico não se cansou desta atividade. Na quinta em Souropires, no concelho de Pinhel, contabiliza 15 hectares de vinhas, entre os 600 e 700 metros de altitude, que se encontram dispersas por várias parcelas existentes. Os vinhedos têm entre 20 e 100  anos e são berço para os vinhos da casa, incluindo o Quinta Vale do Ruivo colheita de 2018, oriundo de vinhas velhas (essencialmente Síria, Fonte Cal e Arinto), a novidade apresentada no simplesmente… Vinho (cerca de 7,50 euros).

Apostado em enologia minimalista, as castas mais abundantes são o Rufete e a Baga nos tintos, a Síria e o Arinto nos brancos. José Augusto tem ainda especial prazer pelos brancos da Borgonha e pelos alemães, pelo que as uvas Chardonnay e Riesling também marcam presença na propriedade. Ao fim de tanto tempo, o vigneron continua a dividir o seu tempo entre a vinha e o consultório médico em Coimbra. Teimosia e profissionalismo, respetivamente, que lhe ficam bem, dizemos nós. “Costumo dizer que tenho duas vidas”, diz ele.

O vinho custa cerca de 7,50 euros

João M. Barbosa Vinhos

Tejo

O negócio pequeno e familiar foi criado pelo pai João Barbosa em 1997, embora a produção própria apenas tenha arrancado em 2003. O mais curioso, tal como explica Teresa Barbosa, a filha, é que estes produtores transitaram dos vinhos feitos de uma forma mais convencional para uma menos intervencionada — não existe, até, pudor em usar a expressão “natural”.

A ponte entre caminhos aparentemente tão distintos foi atravessada progressivamente, “sem excessos”, até porque Teresa e o pai não podem correr o risco de perder uma produção “por calorice”. A transição deveu-se sobretudo à mudança de quem faz o vinho: o atual é, na verdade, “muito mais viticultor do que enólogo”. Foi ele que em 2015 desafiou João Barbosa a fazer uma pequena percentagem dos vinhos em fermentação espontânea, sem adição de produtos enológicos. A experiência correu “tão bem” que, no ano seguinte, adotaram exclusivamente este registo.

“Começámos a tratar muito mais da vinha de maneira a ter uvas em perfeitas condições”, explica Teresa. “As uvas entram na adega, são processadas e fazem o trabalhinho delas.” A produção em Rio Maior, região Tejo, é integrada. Em Esperança, no Alentejo, onde só se fazem tintos, é biológica. A marca Ninfa, aqui em destaque, nasce perto das salinas, tem 11 referências, entre as quais incluem se incluem duas novidades tão fresquinhas que ainda não têm direito a fotos: referimo-nos aos monocastas Maria Gomes e Alvarinho, ambos de 2019, com um preço de venda ao público a rondar os 9 euros.

Leia também: