“O André Ventura vai chegar a qualquer momento. Quero ver essas bandeiras todas no ar”, ouve-se gritar na sala da Associação Empresarial da Região de Portalegre, onde decorre o jantar de gala da candidatura do líder e fundador do Chega à presidência. Os quase 400 militantes agitam-se. A sala está toda engalanada, em tons de preto e amarelo. Parece preparada para um casamento. Mas é um jantar comício. Os apoiantes de André Ventura sabem que a política também vive de espetáculo. E as câmaras de televisão e os jornalistas estão mesmo ali ao lado.

Ao som de uma música épica, o candidato presidencial, acompanhado pela mulher, Dina, de quem nunca se afastou ao longo do dia, foi o centro de todas as atenções. Distribuiu beijinhos, abraçou militantes e amigos, brincou com a arara Aurora, que por pouco não lhe arrancou a orelha, bateu o pé ao som de “Estas é que são as Saias”, do grupo popular Verde Maio, que estava a entreter apoiantes e militantes que aguardavam pelo jantar. Um “aperitivo” para o espetáculo que todos os que ali pagaram bilhete (que incluía jantar, animação e música) queriam ver: o deputado, estrela do comentário desportivo, e agora também candidato a chefe de Estado, a ser André Ventura, o político que fala como “as pessoas normais” falam, como dizia Sofia, outra apoiante, horas antes na Praça da República, enquanto aguardava ao frio pela chegada de Ventura. E foi precisamente nessa qualidade que subiu ao palanque improvisado, onde durante toda a noite uma banda tocou música jazz ao som dos talheres a raspar nos pratos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Pessoas normais” é como quem diz os que se levantam de manhã cedo, vão de transportes públicos para o trabalho, e no final do mês, recebem o ordenado mínimo. É para esses portugueses que André Ventura parece querer falar. É a esses que tem de entreter. O discurso de Ventura até pode ter arrancado com um sonoro “sou candidato à presidência da República Portuguesa”, mas é sobre o que se passa no hemiciclo da Assembleia que ele gosta de falar. “Devia vir para aqui fazer um discurso presidenciável mas não sou capaz. Tenho de falar sobre o Parlamento”. As palmas misturam-se com as gargalhadas. Risos de quem já sabe o que se segue. “Que casa da democracia é esta?”, atira Ventura, para introduzir o tema da semana, a decisão de Ferro Rodrigues de não agendar o projeto do Chega que prevê a castração química para pessoas condenadas por abuso sexual de menores. Apupos para o Presidente da Assembleia da República. “Como não discutir isto no Parlamento?”, questiona o candidato. A pergunta é retórica mas há quem tente responder. André Ventura aproveita o momento para fazer troça do PAN ou da deputada não inscrita, Joacine Katar Moreira, e entreter os militantes. “Já o voto de congratulação do PAN pelo fim da utilização de elefantes para passeios turísticos no Camboja é importante. Esta é a verdade da nossa democracia. O país anda entretido com isto. Ou com a Joacine a falar de amor. Tudo para ela é amor. Mas quando sou eu a falar de castração química, todos dizem que não”.

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Para regozijo da sala, durante quase 40 minutos, o discurso não poupa ninguém. Nem a República Portuguesa – que “já não serve” e por isso é preciso passar para a “4ª República” – nem a Constituição, repetindo outra vez que “se está nas tintas” para um “texto com décadas”, que mais parece uma “Bíblia fechada à chave” e que “não serve para a nossa vida”. E se tudo é inconstitucional, como critica, “está na hora de a alterar”. Neste momento, já a sala em peso está à volta do palanque a ouvi-lo. O político sabe que para arrancar mais aplausos e gargalhadas é só criticar o atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa. Mas tambem diz que se “está nas tintas para ele”. Neste discurso, chamou-lhe de “avozinho”, que só fala no fim das crises políticas. E aponta os casos do Montijo, da Eutanásia, de Tancos ou o IVA da eletricidade, só para citar alguns. “Fale, homem!”, grita ele ao microfone, como que a espicaçá-lo.
“Se fosse presidente, não me metia de joelhos só para ter o apoio do Governo socialista”. Entre os militantes, ouve-se “vergonha”, a palavra que causou mal-estar entre o deputado e Ferro Rodrigues. Na sala do jantar de gala, é dita a torto e a direito. “Porque aqui podemos falar à vontade”, diz Ventura. E aproveita o embalo para comunicar que o Chega vai apresentar um projeto de lei que prevê prisão perpétua para pedófilos e homicidas. O tema que estava no programa eleitoral do partido e que, tal como a castração química, “deve de ser votada em plenário”.

Bandeira Nacional, no carro de apoio à sua candidatura, ao contrário. Elementos da candidatura aperceberam-se do erro mais de uma hora depois de chegarem com o carro e só aí foi posta de forma correta. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Arruada para militantes e jornalistas

Se a noite mostrou o André Ventura que os militantes queriam ver – “o homem que um dia disse Chega” e que “que quer mudar o sistema e não tem medo de apontar o dedo aos bandidos e corruptos”, como foi apresentado, num vídeo também ele épico à hora do jantar – já na Praça da República, centro histórico de Portalegre, durante a tarde, foi preciso esperar mais de uma hora, pelas 18h, para dar tempo aos militantes, não mais do que 300, de se reunirem e agitarem as bandeiras do Chega e também de Portugal. Foi assim, de forma pouco eufórica, que arrancou a campanha presidencial do fundador e deputado do líder. Sem o frisson do hemiciclo da Assembleia da República. Ou das ruas de Lisboa.
A arruada, durante a tarde, trouxe agitação a zonas com pouco comércio e muitos prédios devolutos. Mas à exceção dos jornalistas, que acompanharam o candidato sempre de mão dada com a sua mulher, ou dos apoiantes, quase todos de fora de Portalegre, não se viu ninguém a espreitar a uma janela ou a abrir uma porta para ver passar o político. André Ventura não pareceu desanimar.

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Fez o que estava previsto no programa, organizado por Júlio Paixão, o homem forte da região do Alentejo, e abriu caminho até à esquadra da PSP, onde cumprimentou os agentes que ali estavam de serviço, e a quem pediu que “contassem com ele”. Uma conversa curta mas com leitura política: além do Chega ter uma forte base de apoio entre as forças de segurança, o próprio tema da insegurança e da falta de meios para a polícia, não sai do seu discurso. De deputado e, agora, de candidato presidencial.
O mesmo se repetiria uns metros à frente, no Posto de Comando da GNR. O tom só mudou no Largo de São Lourenço. O casal subiu a escadaria da Igreja Paroquial de São Lourenço para um momento de “reflexão”. E mais uma leitura política: o candidato assume-se conservador, defensor dos valores tradicionais da família e contra a “ditadura do politicamente correto”. Está tudo dito no gesto de entrar na Igreja.

Campanha de André Ventura às presidenciais vai para a estrada e promete comício em todas as cidades

O mesmo se passou no Monumento aos Mortos da Grande Guerra, numa Avenida da Liberdade vazia. Depois do minuto de silêncio, o político marcou o fim do périplo com a promessa de dissolver a Assembleia da República se for eleito Presidente da República. Uma corrida que assume ser “difícil” e para a qual gostaria de “medir forças” com Ana Gomes, disse o candidato à presidência. À noite, foi o deputado André Ventura quem tomou conta do microfone e disse: “avança Ana Gomes, vais ser tão dizimada! Até o Sócrates teria mais votos do que tu”.

O casal subiu a escadaria da Igreja Paroquial de São Lourenço para um momento de “reflexão”. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR