A Ferrari produz uns desportivos fantásticos e, em matéria de F1, ninguém se mete com ela. Nem a Federação Internacional do Automóvel (FIA), pois a marca italiana tem quase tanto peso como a própria F1. Daí que mesmo quando o team criado por Enzo Ferrari é apanhado a prevaricar, ou seja, a abusar ligeiramente das regras, o legislador intervenha, mas de forma substancialmente mais moderada.

Vem isto a propósito do campeonato do mundo de F1 de 2019, durante o qual houve um período em que os Ferrari de Charles Leclerc e Sebastian Vettel – com o primeiro a fazer passar o segundo pelo vexame de ser batido nos treinos e em corrida pelo seu jovem colega e estreante na equipa – venceram três provas consecutivas. Na altura, os adversários suspeitaram que os italianos utilizavam uma forma criativa de enganar o sensor do consumo de combustível, permitindo ao motor gastar mais e debitar mais potência.

Em fim de Setembro, depois de Verstappen (Team Red Bull) ter acusado directamente a Ferrari de vigarice, no que foi secundado pela equipa da Mercedes, a FIA recolheu uma série de peças dos F1 italianos para análise, para decidir se os técnicos transalpinos estavam a contornar o regulamento e, em caso afirmativo, se o estavam a fazer de forma legal. Sucede que, depois de quatro meses a analisar as peças, a FIA vem finalmente a público com uma conclusão que levanta mais dúvidas do que avança com esclarecimentos.

Diz o regulador que “depois das investigações técnicas, a FIA concluiu a análise da unidade motriz da Scuderia Ferrari Formula 1 e chegou a um acordo com a equipa”. Porém, apesar desta afirmação, a realidade é que os carros da Ferrari perderam muita da sua velocidade máxima (consequência directa da maior potência) assim que se levantou o coro de críticas dos adversários, bem como a apreensão das peças dos carros da Ferrari para análise.

Isto quer dizer que efectivamente a FIA encontrou algo que não estava correcto. Mas depois, em vez de tornar as suas conclusões públicas, para ser evidente qual foi a problemática alteração levada a cabo pela equipa e assegurar que todos aprendiam com o erro, chegou a um acordo de que só têm conhecimento as partes envolvidas. Elevando o proteccionismo à Ferrari a algo ridículo, pelo secretismo envolvido, a FIA vai mais longe e afirma ter chegado a acordo com a marca “para incrementar a monitorização de todas as unidades motrizes da F1 para os próximos campeonatos”. Contudo, nem uma palavra sobre o tema aos concorrentes e, muito menos, ao público. Sem o qual não existe F1.