No verão passado, o Benfica encaixou 126 milhões de euros com a ida de João Félix para o Atl. Madrid. Desses, 20 foram investidos na contratação de Raúl de Tomás, avançado espanhol que estava ao serviço do Rayo Vallecano mas ainda pertencia aos quadros do Real Madrid. RDT, a designação que coloca nas costas das camisolas que utiliza, já tinha estado no radar do Sporting mas aterrou no Benfica, onde chegou com o rótulo de ser substituto de Félix — uma premissa que nunca fez sentido, tendo em conta as características distintas dos dois jogadores, mas que foi repetida e sublinhada dada a coincidência temporal da saída de um e da chegada de outro.

Em Lisboa, De Tomás nunca conseguiu ser feliz. Começou a ser titular perto de Seferovic, passou a ser titular perto de Carlos Vinícius e nos últimos tempos perdeu mesmo a titularidade para Chiquinho, saindo até das convocatórias de Bruno Lage nas derradeiras semanas que passou na Luz. Saiu em janeiro, sem grande surpresa, num investimento do Espanyol que devolveu ao Benfica praticamente o mesmo valor que os encarnados pagaram ao Real Madrid no verão. De lá para cá, o avançado entrou de estaca no onze inicial catalão, já marcou cinco golos e assumiu o papel de figura do grupo, até porque tem estado a jogar naquela que é a sua posição natural — o que nunca aconteceu no Benfica.

Este domingo, contra o Atl. Madrid, Raúl de Tomás encontrava João Félix, o jogador que todos achavam que iria substituir no Benfica e cuja memória acabou por atraiçoar um futuro que se revelou curto. O jogador português, que voltou aos golos na jornada passada, não era titular na equipa de Diego Simeone — já que até o próprio treinador argentino disse que Félix precisava de recuperar ritmo depois da lesão que o afastou dos relvados durante um mês. Raúl de Tomás, figura maior do Espanyol nesta altura, estava no onze inicial dos catalães e só precisou de pouco mais do que 20 minutos para fazer a diferença.

Depois uma primeira oportunidade do Atl. Madrid, Wu Lei cruzou a partir da direita e Raúl de Tomás apareceu ao primeiro poste a desviar para inaugurar o marcador (24′). Savic é o último a tocar e o golo foi considerado autogolo do central, apesar da intervenção decisiva de De Tomás. Ao longo da primeira parte, foi o Espanyol a causar as principais oportunidades de golo, sempre com as linhas subidas e a aproveitar algum nervosismo do Atl. Madrid — que, sabendo que Real Madrid e Barcelona se encontravam este domingo à noite, tinha noção de que podia roubar pontos a um ou aos dois primeiros classificados. Víctor Sánchez atirou um grande remate ao passar da meia-hora, num lance que também teve uma grande defesa de Oblak (33′), mas o jogo foi mesmo para o intervalo com uma vantagem mínima a favorecer o Espanyol.

Depois de uma primeira parte quase brilhante, o Espanyol — que precisava da vitória para sair da zona de despromoção — acabou por permitir o empate logo nos primeiros instantes do segundo tempo. Saúl, que há duas semanas marcou ao Liverpool na Liga dos Campeões, voltou a fazer um grande golo com um remate certeiro e empatou a partida (46′), oferecendo ao Atl. Madrid uma segunda parte inteira onde a equipa de Simeone poderia conquistar a vitória que significava igualar o Sevilha na classificação e no terceiro lugar.

João Félix acabou por entrar pouco depois de estarem cumpridos dez minutos da segunda parte, para substituir um apagado Yannick Carrasco, mas o Atl. Madrid não conseguiu colocar-se em vantagem na partida. Num bom resultado que poderia ter sido até elevado ao nível seguinte, o Espanyol forçou o Atl. Madrid a um empate que deixa os colchoneros à mercê de serem ultrapassados pela Real Sociedad e pelo Getafe, a um e dois pontos, respetivamente. Raúl de Tomás, que foi para o Benfica quando todos queriam que fosse o novo João Félix, nunca o foi porque é um jogador totalmente diferente mas nada disso o impediu de estragar o dia ao Félix verdadeiro: que entrou, jogou pouco mais de meia-hora mas pouco conseguiu fazer para dar a vitória ao Atl. Madrid.