Forte da Casa, Benfica, Belenenses, Olivais, Fundão, Sporting. Campeão nacional quatro vezes, campeão europeu de clubes duas vezes, campeão europeu de seleções uma vez. A evolução de Pany Varela, desde os tempos de júnior no Forte da Casa há mais de 15 anos até aos dias de hoje, é quase meteórica. O ala de 31 anos do Sporting é uma das figuras da equipa que ganhou a Liga dos Campeões de futsal na temporada passada mas é também uma referência na Seleção, onde faz parte do grupo de Jorge Braz que em 2018 foi campeão europeu.

Esta segunda-feira, Pany Varela esteve no programa “Nem Tudo o que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador e falou sobre os primeiros passos no futebol, a sensação de partilhar balneário com Ricardinho, a conquista do Europeu e da Liga dos Campeões com pouco mais de um ano de diferença e ainda sobre o racismo no desporto. E não esqueceu o Campeonato do Mundo, já no próximo mês de setembro, onde Portugal vai estar com capacidade para “sonhar”.

[Ouça aqui a entrevista completa a Pany Varela no programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador]

Silas por um fio e o rival de Pinto da Costa

Com o gancho do que aconteceu em Guimarães com Marega, o jogador do Sporting confirmou então que foi vítima de racismo várias vezes ao longo da carreira e deixou um discurso de intervenção, apelando “à sociedade mas principalmente a quem faz a leis” que faça “alguma coisa. “Quando era mais jovem reagia mal, respondia para a bancada muitas vezes. Porque no futsal as pessoas estão muito próximas de nós então acabamos por ouvir coisas que no futebol acabas por não ouvir, porque as pessoas estão mais distantes. Infelizmente, aconteceu ao Marega. Deve acontecer todas as semanas a milhares de jogadores, infelizmente. O Marega tomou a atitude que achou que devia tomar e não há nada a dizer sobre isso. E eu acho que é bom que se fale, mas mais do que falar, é preciso fazer alguma coisa. Porque o que é que vai mudar haver pessoas na rádio a falar sobre isso, pessoas na televisão a falar sobre isso, se quem realmente manda, não faz nada? Ou se nós, que somos pais, não educarmos os nossos filhos, que são o futuro, para que consigam ver numa pessoa muito mais do que a cor, a religião ou a escolha sexual? Eu acho que todos nós na sociedade temos um dedo a meter nisto. Só assim é que nós vamos dar um pulo. É bom que se tenha falado sobre isso, é bom que se fale sobre isso, mas há que fazer alguma coisa. Não só quem manda, mas também nós, que somos pais. Se não educar o meu filho de forma a que ele olhe para o mundo ou para uma sociedade e não veja cores, religiões ou sexualidades, o que é que eu estou a fazer? Estou a prepará-lo para daqui a cinco, seis, sete anos, ele possa ter este tipo de comportamento que eu hoje reprovo. Nós todos, a sociedade, temos de fazer alguma coisa. E principalmente quem faz as leis tem de fazer alguma coisa”, disse Pany Varela.

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Pany Varela, aqui com Fortino, foi campeão da Europa com o Sporting em 2019

Sem nunca esconder que o objetivo principal da carreira sempre foi chegar à Seleção Nacional, o jogador do Sporting recordou que escolheu o futsal porque no futebol “tocava poucas vezes na bola”. “O futsal é muito mais atraente. Tem muito mais mobilidade, acabou por atrair-me muito mais”, explicou, acrescentando depois que tomou “as decisões acertadas” que o levaram até ao nível mais alto do desporto português e o afastaram “do caminho mau”. “Eu acabei por ver no futsal um escape a muita coisa que ia acontecendo nas ruas, porque eu passava muito tempo na rua. Infelizmente, nem todos os meus amigos conseguiram seguir pelo mesmo caminho… Mas eu acho que eles também acabaram por ter um peso grande no sucesso que eu fui tendo porque acabavam por dizer sempre: ‘Ok, tu vais ser jogador da bola por isso não podes fazer isto’ (…) O desporto tem um peso muito importante nestas coisas. Quando os jovens praticam nos bairros sociais ou nas zonas problemáticas, muitas vezes utilizam o desporto como forma de inserir, como forma de fazer com que os jovens vejam que existem mais caminhos”, afirmou o internacional português, que nasceu em Cabo Verde e chegou a Portugal com 10 anos, crescendo na zona de Forte da Casa.

Apesar dos “caminhos maus” e das “zonas problemáticas”, Pany Varela defende que esse enquadramento não pode servir como desculpa para ninguém. “Obviamente que nem todos vão ser profissionais, de futebol, futsal, basquetebol ou qualquer outro desporto, mas a mensagem que tento passar sempre é de que nós podemos ser aquilo que nós quisermos ser na nossa vida e só dependemos de nós mesmos para o sermos. Se optarmos por uns caminhos que não são tão certos, foi uma escolha que fizemos — não podemos reclamar com ninguém e não podemos culpar o meio onde nascemos ou crescemos. Nascemos ou crescemos num meio complicado mas hoje em dia temos demasiada informação e temos demasiados caminhos para ainda usarmos o meio onde nascemos ou crescemos como desculpa”, atirou.

Foi igual ao Europeu de futebol. Igual, igual. Mas com um Éder ainda mais herói (a crónica do Europeu de futsal)

Sobre Ricardinho, com quem se cruzou ainda no Benfica — na equipa que acabou por conquistar a Liga dos Campeões em 2010, na altura ainda UEFA Futsal Cup — e só depois na Seleção Nacional, Pany Varela só tem elogios. “O Ricardo é uma figura incontornável não só para quem pratica futsal mas também para quem gosta de desporto. Porque é o melhor do mundo, foi seis vezes o melhor do mundo. E costumo dizer que o Ricardo foi o meu primeiro PT [personal trainer], porque ele é muito viciado no trabalho e eu também acabei por seguir um pouco as pisadas dele, no gosto pelo ginásio, pela preparação do treino”, revelou o jogador leonino, que entre sorrisos confidenciou que tentar fazer as coisas que Ricardinho faz dentro de campo é como encarnar um anúncio do tipo “não tente fazer isso em casa”.

Esta temporada, o Sporting falhou a qualificação para a final four da Liga dos Campeões e não vai poder defender o título europeu, restando aos leões a luta pelo Campeonato Nacional e pela Taça de Portugal. Em retrospetiva, Pany Varela recordou o ano, entre 2018 e 2019, em que se sagrou campeão da Europa de clubes e de seleções. “Acho que tanto no Sporting como na Seleção foi o culminar de muitos anos de trabalho e de muitos anos de preparação. Se calhar, no Sporting, esse título pecou um pouco por tardio, porque se calhar o clube e as pessoas que já tinham passado pela secção de futsal já o mereciam. Na Seleção, obviamente que era um título muito pretendido. Se calhar, muita gente achava que não era possível mas nós na Eslovénia fomos sonhando, trabalhando e acreditando. E quando se acredita naquilo que se faz, tudo é possível. Basta nós acreditarmos muito naquilo que queremos e dificilmente alguém nos impedirá a não sermos nós mesmos”, afirmou, acrescentando que Portugal vai “sonhar com medalhas e jogar jogo a jogo” para “no final fazer as contas” no Campeonato do Mundo já do próximo mês de setembro, na Lituânia.

“Foi o deixar de ser o ‘quase’. Foi perceber que podemos lá chegar”. Jorge Braz, dois anos depois da conquista do Europeu de futsal