Uns chamam-lhe destino, outros, a voz do povo. Mas o fado é mais que uma simples palavra; é um sentimento cultural de um país e uma forma de comunicação e relacionamento. E é esse o mote da segunda edição do Abecedário_Festival da Palavra, um evento que durante quatro dias se centrará nas várias vertentes da palavra “fado”, seja da sua musicalidade, emoção, poesia, sentimento, identidade, prática social, crença, valor ou alma. No fundo, e de acordo com Carlos Moura-Carvalho, diretor do evento, o “que se pretende é dar destaque ao fado enquanto elemento formador da identidade portuguesa, matriz da cultura lusófona e Património Imaterial da Humanidade”.

Um projeto de sucesso

“A primeira edição de qualquer evento é sempre muito importante e um enorme desafio. No final, fazem-se contas, analisam-se prós e contras, e consegue-se ter uma ideia se vale a pena fazer futura edição, se se deve continuar o conceito e o formato”, afirma Carlos Moura-Carvalho. “E ao longo da primeira edição, e posteriormente, ficou claro que a adesão do público e dos participantes, e a repercussão nos media a um formato que privilegia os pequenos espaços, a tertúlia, a conversa informal, e que tem por inerência um cariz de proximidade e intimidade, o que caracteriza cada vez mais as livrarias atuais, foi excelente”, congratula-se. “Contas feitas, superáramos o inicialmente pensado, o que nos deu força para avançar para uma segunda edição, mas elevando a fasquia com uma palavra mais complexa. Até agora, com o crescimento de parceiros e apoios, tudo aponta que estamos no bom caminho”.

Manter a identidade

Em 2020, o Abecedário_Festival da Palavra vai explorar três áreas temáticas:  Emoção e sentimento, Identidade e destino e Representações do quotidiano. E para que tudo mantenha a dinâmica pensada pela organização, é essencial, mais uma vez, contar com o apoio dos parceiros. “Este evento assenta no desafio às livrarias e às entidades apoiantes, sobretudo às juntas de freguesia. São elas que contribuem com sugestões de oradores e ações que, enquadrando-se na linha programática e de curadoria, enriqueçam o festival”, explica Carlos Moura-Carvalho. Para cimentar essa filosofia, há mais gente a apoiar o evento. “Este ano, temos mais livrarias parceiras, mais juntas de freguesia aderentes, mais apoios à divulgação, incluindo internacionais. A continuar assim, daqui a 2 ou 3 anos, esperamos estar no ponto que queremos, sem perder as características que defendemos, da informalidade e dos pequenos espaços, sem sobrepor iniciativas. Não somos apologistas de eventos em que há várias coisas a acontecer ao mesmo tempo. No nosso festival, podemos ir a todas as iniciativas. Por outro lado, queremos preservar o diálogo com o público. Assim, em todos os painéis, há, pelo menos, 20 minutos dedicados à participação do público nas tertúlias.”

A voz do povo

Quando perguntamos a Carlos Moura-Carvalho a razão de escolher o fado como mote da edição deste ano do evento, a resposta é taxativa: “Pensamos que se trate da palavra que melhor nos define enquanto povo. Tem muitas perspetivas, sentidos e sentimentos associados, alguns que nem existem noutras línguas. Tudo isso emana uma complexidade e provoca uma curiosidade imensa. Fado é música e poema, mas sobretudo o sentimento que nos ajuda a perceber quem somos. Dá-nos a conhecer uma noção de consciência das nossas forças e fragilidades. Torna-nos mais humanos, mais fortes e íntegros. E é a nossa alma, o estar à mesa, petiscar, beber, conversar, sonhar, amar, sofrer. Além disso, em 2020, comemora-se o centenário do nascimento de Amália Rodrigues, e fado e Portugal (também) são Amália”.

Festival mais dinâmico

A entrada de novos parceiros vai transformar as dinâmicas da nova edição do Abecedário_Festival da Palavra. Carlos Moura-Carvalho, explica: “Comparativamente com a primeira edição, vão existir algumas diferenças. Isso está diretamente associado ao facto de contarmos com mais livrarias aderentes, o que nos fez centrar as tertúlias nesses espaços. Além disso, desenvolvemos programação paralela. Nesse sentido, o destaque vai para duas exposições: uma do projeto Letreiro Galeria, dedicada ao design e lettering urbano, intitulada Luzes da cidade, que é uma homenagem ao património gráfico lisboeta [ver caixa 4 perguntas sobre o projeto Letreiro Galeria], que estará patente na Stolen Books; e uma mostra com fotografias de Rodolfo Contreras, que terá lugar no Mercado de Alvalade. Paralelamente, vamos gravar todas as conversas e transmiti-las em formato podcast”, anuncia.

4 perguntas sobre o projeto Letreiro Galeria

Mostrar Esconder

Em 2014, Rita Múrias e Paulo Barata Corrêa, dois designers gráficos, deram início a uma ideia pioneira: colecionar letreiros e reclames luminosos desativados da nossa capital. Para saber mais sobre este projeto batizado como Letreiro Galeria, e que apresentará uma exposição sobre o património gráfico lisboeta, intitulada “Luzes da Cidade”, na edição deste ano do Abecedário_Festival da Palavra, o Observador esteve à conversa com os seus fundadores.

1. Com que propósito nasceu o projeto Letreiro Galeria?
A ideia é reunir material que permita fazer um museu/armazém expositivo com os letreiros da cidade que temos vindo a adquirir, onde todos possamos usufruir de uma memória gráfica da cidade que tem vindo a desaparecer. Já reunimos cerca de 250 peças entre néons de pequeno e grande porte, portas guarda-vento, vidros pintados com técnicas já desaparecidas, caixas de luz e letras em metal. Exemplos disso são os letreiros do Hotel Ritz e da Pastelaria Suíça ou as letras da antiga livraria Diário de Notícias. Esse espólio já permitiu fazer, entre novembro de 2016 e março de 2017, no Convento da Trindade, a exposição Cidade Gráfica, em parceria com o MUDE (Museu do Design e da Moda) e a Câmara Municipal de Lisboa. Além disso, ganhámos o prémio da Revista Time Out como a melhor exposição do ano de 2016 e, mais recentemente, recebemos uma “Menção Honrosa” atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian com o prémio Maria Teresa e Vasco Vilalva 2019.

2. Como fazem a angariação de letreiros e reclames luminosos?
Temos feito um levantamento dos letreiros desativados. No entanto, se há lojas ainda em atividade e sabemos que vão fechar, apresentamos o nosso projeto, para tentar evitar que o letreiro vá para o lixo. No entanto, já muitas lojas que nos contactaram. Exemplo disso são a casa de carimbos Aníbal Gravador, na Rua Nova do Almada, ou a Retrosaria Arco Chique, na Rua dos Retroseiros. Até mesmo a Junta de Freguesia de Alvalade já o fez e guardaram-nos o letreiro da Charcutaria Riviera, na Avenida da Igreja, e da Sapataria Hélio, na Avenida de Roma.

3. Qual a importância desta forma de linguagem na memória gráfica de uma cidade como Lisboa?
Acreditamos que a história da cidade também pode ser contada através dos seus letreiros comerciais. Sendo estes objetos um património gráfico, consideramos um projeto emergente, num momento em que em Lisboa, como em todo o país, ocorrem alterações urbanas que determinam o destino dos edifícios. Infelizmente, letreiros de estabelecimentos comerciais que identificaram ruas e edifícios desapareceram por completo das fachadas sem deixar qualquer rasto.

4. De que forma o Letreiro Galeria vai integrar-se num evento como o Abecedário_Festival da Palavra?
O Carlos Moura-Carvalho desafiou-nos para participar neste evento, e, embora o mote deste ano seja o fado e não tenhamos nenhum letreiro de uma casa de Fado, o nosso projeto tem que ver com a cidade, com a palavra, com nomes, a memória individual e coletiva, as ruas, os transeuntes, o comércio, o dia e a noite. E, ainda mais interessante, é o facto de a Junta de Freguesia de Alvalade estar envolvida neste evento, como também por possuirmos uma série de letreiros deste bairro, alguns deles salvos pela a referida instituição.

Ainda em relação aos novos parceiros, Carlos Moura-Carvalho atualiza a contabilidade: “Em 2020, temos cinco livrarias parceiras, mais duas que em 2019, e o apoio de cinco juntas de freguesia. Além disso, teremos nove painéis em cinco livrarias, numa editora, num mercado de frutas e legumes, numa casa museu e ações em elétricos e autocarros. Em termos de divulgação internacional também vai haver algumas boas surpresas”.

Figuras e destaques

Carlos Moura-Carvalho aponta os holofotes aos participantes do evento, pois “são eles o garante de conversas estimulantes e inclusivas, e onde apetece ir e estar”. Quanto a destaques, o diretor do festival aponta um quarteto composto “por Sonia Shirsat, jurista que se tornou na maior fadista de Goa de todos os tempos; Stefan Lechner, realizador austríaco, apaixonado por Portugal e que durante cinco anos trabalhou num documentário sobre Fado Vadio; Cândido Mota, um senhor da rádio e responsável pelo inovador Passageiro da Noite; e ainda Francisco Geraldes, um jovem futebolista que é apaixonado por livros. Quanto aos espaços de rua [relativos à exposição de design], ‘invadiremos’ sapatarias, pastelarias, restaurantes, cabeleireiros e telefones públicos, e traçaremos rotas entre a Avenida de Roma e a Avenida da Igreja, para depois assaltar a Avenida Almirante Reis, a Rua da Prata, a Rua do Ouro e a Rua Garrett”.