“Ele gostava de jogar, mas era um pouco preguiçoso. Não trabalhava tanto quanto devia, fazia o que era preciso. E era tudo”. Foi assim, com três frases simples e bastante explicativas, que Baltemar Brito descreveu José Mourinho enquanto jogador em conversa com o Bleacher Report. O antigo jogador brasileiro, que foi colega de equipa de Mourinho e depois adjunto do treinador, explicou ainda que o jovem natural de Setúbal “tinha uma vida tranquila” e que a sensação que transmitia era a de que “o futebol era como um passatempo”.

As declarações do antigo central brasileiro depressa tiveram eco na comunicação social inglesa, que só precisou de estar frente a frente com José Mourinho para o confrontar com os comentários. A reação do treinador português, contudo, foi surpreendente de tão clara. “Comigo, não jogava. É tão fácil. Vendê-lo? Oferecia-o, levem-no de borla”, disse Mourinho, entre as próprias gargalhadas e as que provocou nos jornalistas presentes na sala. Mourinho, igual a si mesmo, ainda que as coisas no Tottenham não estejam propriamente para grandes sorrisos.

O clube londrino foi eliminado da Taça de Inglaterra a meio da semana, ao cair nas grandes penalidades com o Norwich, e somou duas derrrotas consecutivas na Premier League, primeiro com o Chelsea e depois com o Wolverhampton. Este sábado, o Tottenham visitava o Burnley apenas dias antes da visita ao RB Leipzig para os oitavos da Liga dos Campeões, numa eliminatória onde está em desvantagem, e precisava de uma vitória para ultrapassar um rival direto e pressionar Manchester United e o Sheffield United, logo acima da classificação.

José Mourinho deixava Lucas Moura no banco e colocava Dele Alli como elemento mais adiantado, com Bergwijn e Lamela no apoio mais perto dos corredores. Oliver Skipp e Ndombele estavam no meio-campo e Eric Dier era titular, depois da polémica que protagonizou a meio da semana, quando subiu à bancada para confrontar alguns adeptos que estariam a criticar o irmão do jogador formado no Sporting. Já Gedson Fernandes, que falhou uma grande penalidade contra o Norwich, na eliminação da Taça, começava no banco de suplentes, e o guarda-redes Lloris estava de regresso ao onze depois de lesão.

Eric Dier foi titular depois de ter protagonizado um momento polémico no jogo da Taça da meio da semana, contra o Norwich

O Burnley começou bem mais perigoso, com Chris Wood a rematar com muita força por cima da baliza de Lloris (6′) e um lance na sequência de um pontapé de canto quase dar o primeiro golo do jogo (9′). O Tottenham estava recuado no terreno e oferecia a iniciativa à equipa de Sean Dyche, que acabou por inaugurar o marcador de forma muito natural ainda antes de estar cumprido o primeiro quarto de hora. Eric Dier aliviou de cabeça um cruzamento vindo da esquerda, Rodriguez apareceu à entrada da grande área a rematar de primeira, Lloris defendeu para a frente e na recarga, mais rápido do que Alderweireld, Chris Wood apareceu a tocar para o primeiro da partida (13′).

A reação do Tottenham à desvantagem foi escassa e até inexistente, já que o único remate que a equipa de José Mourinho fez à baliza de Nick Pope apareceu já perto da meia-hora e não levou qualquer perigo. Dele Alli estava muito isolado na frente de ataque, rodeado por defesas do Burnley, e nem Bergwijn nem Lamela conseguiam desequilibrar nos corredores, onde Vertonghen e Tanganga não apareciam a fazer as dobras para permitir aos alas explorar o jogo interior. O Burnley ainda ficou perto de aumentar a vantagem já nos descontos, por intermédio do veterano Bardsley, mas o jogo foi mesmo para o intervalo com o Tottenham a perder pela margem mínima. Um Tottenham que pouco ou nada estava a fazer para evitar essa desvantagem.

Na segunda parte, José Mourinho tirou Ndombele para lançar Lo Celso e o argentino teve um impacto quase imediato na partida: fez o passe que desmarcou Lamela e o compatriota acabou carregado em falta por Ben Mee no interior da grande área do Burnley. Na conversão, Dele Alli bateu Nick Pope e empatou a partida, relançando o jogo para o Tottenham (50′) e chegando ao 50.º golo pelo clube na Premier League. A partida tornou-se mais equilibrada na segunda parte, até porque os spurs subiram as linhas e passaram a procurar com mais frequência as transições ofensivas, mas o Burnley permanecia enquanto equipa equipa com mais discernimento e critério no último terço, dois fatores que escasseavam no conjunto de Mourinho.

Com o adiantar do relógio, o Tottenham foi empurrando a equipa adversária para o próprio meio-campo — e a grande responsabilidade era de Lo Celso, que estava a ligar o setor mais recuado com o mais adiantado como Ndombele nunca tinha conseguido fazer durante a primeira parte. O médio argentino era o principal motor criativo do Tottenham mas o clube londrino acabou por não conseguir chegar à vantagem, mesmo com Dele Alli a falhar uma grande oportunidade já nos últimos minutos (85′).

O Tottenham somou o quinto jogo consecutivo sem ganhar para todas as competições, entre Liga dos Campeões, Taça de Inglaterra e Premier League, e deu mais um passo atrás na luta pelos lugares que dão acesso às competições europeias da próxima temporada. O fantasma do José jogador assombrou o Mourinho treinador, que continua a tentar levar para a frente uma equipa totalmente orfã de Harry Kane e Son Heung-min.