Este sábado, na antecâmara da receção do Atl. Madrid ao Sevilha, o nome de João Félix surgia principalmente relacionado com números. Números diferentes, um positivo e um negativo, um mais diretamente ligado ao jogador e outro mais periférico. Tudo isto, todos estes números, no dia em que João Félix regressava à titularidade do Atl. Madrid depois uma lesão que o afastou durante um mês e após dois jogos a saltar do banco de suplentes.

O primeiro número, o positivo, dava conta do impacto da ida de João Félix para Espanha nos resultados financeiros do Benfica. No Relatório e Contas do primeiro semestre de 2019/20, divulgado pelo clube da Luz, a mais-valia gerada pela transferência do internacional português para o Atl. Madrid — que saiu por 126 milhões de euros, mais seis do que os 120 originais da cláusula de rescisão — chega aos 108,2 milhões. O segundo número, o negativo e aquele que tem relação direta com Félix, acabava por ser o espelho daquilo que tem sido a temporada do jovem jogador português.

Oito meses depois da apresentação no auditório do Wanda Metropolitano e depois de uma pré-época que permitiu sonhar aos adeptos do Atl. Madrid, João Félix não tem correspondido às expectativas e tem sido também vítima de uma temporada pobre da equipa de Diego Simeone, muito longe das ambições do verão quando o clube espanhol investiu quantias sem precedentes. Oito meses depois, com apenas cinco golos ao longo de 26 jogos pelo Atl. Madrid, João Félix desvalorizou pela primeira vez na carreira. Em setembro, pouco depois de trocar o Benfica pelo clube espanhol, o jovem avançado foi avaliado em 100 milhões de euros — agora, em março, de acordo com a avaliação feita pelo Transfermarkt, Félix não passa dos 90 milhões. É o primeiro tombo no valor do jogador de 20 anos, que teve uma ascensão meteórica desde a primeira avaliação da carreira, em setembro de 2016, quando valia cerca de 25 mil euros.

Tudo isto então no dia em que João Félix voltava ao onze inicial do Atl. Madrid. Facto que, especulações à margem, foi garantido pelo próprio Diego Simeone ainda na conferência de imprensa de antevisão à receção ao Sevilha. “Ele começou com muita vontade e entusiasmo, depois teve duas lesões que lhe tiraram a continuidade que procura agora, um lugar na equipa que todos esperamos e desejamos. Onde ele chegar será ao sítio a que se propuser. É habitual nos jovens chegarem onde querem. Se quiser, irá longe”, disse o treinador argentino, que já reafirmou várias vezes a confiança no jogador português desde o início da temporada.

O jogador português voltou a ser titular depois de ter estado um mês afastado dos relvados por lesão

Contra o Sevilha de Lopetegui, Félix era então titular no meio-campo, junto ao corredor, enquanto que Morata e Correa eram os donos da frente de ataque. O Atl. Madrid não tinha Renan Lodi, o lateral brasileiro que era baixa de última hora e era substituído por Mario Hermoso, nem Thomas Partey, o médio que costuma jogar de início no meio-campo mas que este sábado estava castigado e era rendido por Marcos Llorente. Frente ao Sevilha, o Atl. Madrid tinha a oportunidade de ultrapassar a equipa de Lopetegui em caso de vitória, já que tinha menos dois pontos, e esperar por um tropeção do Getafe pelo Celta Vigo para ficar isolado no terceiro lugar da liga espanhola.

O primeiro obstáculo apareceu ainda antes dos primeiros 20 minutos, numa altura em que o Sevilha crescia na partida e se ia aproximando de forma regular da baliza de Oblak. Luuk de Jong inaugurou o marcador no culminar de uma grande jogada de ataque dos sevilhanos, na cara do guarda-redes ex-Benfica e depois de um passe de Jordán (19′), e colocou o Sevilha a ganhar no Wanda Metropolitano ainda antes de estar cumprida a primeira meia-hora. A reação do Atl. Madrid demorou pouco mais de dez minutos e o empate surgiu através de uma grande penalidade convertida por Morata, na sequência de um lance em que Diego Carlos tocou a bola com a mão na grande área e o árbitro teve de consultar as imagens do VAR para confirmar o penálti (32′).

Em menos de cinco minutos, o Atl. Madrid acabou por dar a volta ao resultado. João Félix, tombado na ala esquerda, estava a ser obrigado a recuar bastante no terreno de jogo para ir buscar a bola, já que a equipa de Diego Simeone mantinha as linhas algo baixas e tinha alguma dificuldade em romper a defensiva do Sevilha. Numa situação clássica de transição rápida, Koke recuperou a bola, abriu em Félix na esquerda e o jogador português, com o toque de sorte que muitas vezes lhe tem faltado, atirou contra um defesa adversário e bola ressaltou para entrar na baliza (36′). No banco de suplentes, era notório que João Félix tem dois adeptos confessos: Diego Simeone, que não evitou o sorriso rasgado assim que o português marcou, e ainda Diego Costa, provavelmente o elemento mais próximo de Félix no balneário, que festejou intensamente o golo.

Ainda antes do final da primeira parte, o Sevilha conseguiu restaurar a igualdade no marcador novamente através de uma grande penalidade. Ocampos foi derrubado em falta por Trippier na grande área de Oblak, o árbitro voltou a consultar as imagens do VAR e o mesmo Ocampos, na conversão da grande penalidade, fez o segundo golo do Sevilha no Wanda Metropolitano. Na ida para o intervalo, depois de uma primeira parte cheia de pontos de interesse e intervenção do VAR, estranhavam-se principalmente os quatro golos, já que raramente um jogo do Atl. Madrid tem tanta incerteza no marcador e atividade nas duas balizas.

Na sgeunda parte, Simeone não chegou a esperar dez minutos para fazer a primeira alteração, ao trocar Mario Hermoso por Yannick Carrasco, e o avançado que regressou ao Atl. Madrid em janeiro enquanto reforço de inverno esteve perto de marcar, num lance em que o guarda-redes Vaclik segurou a igualdade com uma boa defesa (64′). O treinador argentino voltou a mexer com a entrada de Diego Costa para o lugar de Morata, Yannick Carrasco teve uma segunda oportunidade para marcar mas voltou a desperdiçar (70′) e o Atl. Madrid não conseguiu carimbar a vitória nem ultrapassar o Sevilha na classificação, apesar de ter tido mais ocasiões do que a equipa de Lopetegui. João Félix foi substituído a dez minutos do apito final — numa decisão que trouxe alguns assobios a Simeone — mas antes viu um cartão amarelo que o deixa desde já de fora da visita ao Athl. Bilbao na próxima jornada.

O Atl. Madrid somou o segundo jogo consecutivo sem ganhar, depois do empate da semana passada em casa do Espanyol, e vai ficar no quinto lugar com a possibilidade de ver o Getafe distanciar-se no terceiro. A equipa de Diego Simeone, poucos dias antes da decisiva visita ao Liverpool em Anfield, na segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões, está a jogar mais do que já mostrou esta temporada, está a marcar mais golos do que já marcou esta temporada e está a conseguir assumir o controlo dos jogos — o problema é que está a sofrer mais golos e continua sem conseguir carimbar vitórias consecutivas. Pelo meio, João Félix voltou a marcar, depois de já o ter feito ao Villarreal há duas semanas, voltou à titularidade e voltou a ter a certeza de que tem dois Diegos, Simeone e Costa, enquanto principais adeptos.