Analistas ouvidos pela agência de informação financeira Bloomberg consideram que a manutenção dos preços baixos do petróleo, ficando no patamar atual, pode fazer os preços do gás natural liquefeito aumentarem no final da década.

“A queda dos preços pode ter dado um ânimo inesperado aos principais compradores de gás natural liquefeito, mas o efeito cascata pode acabar por ser prejudicial, já que mais de uma dezena de projetos de exportação, dos Estados Unidos a Moçambique, correm o risco de ser adiados já que ao preço atual os projetos arriscam-se a ser rentáveis”, escreve-se no artigo de análise da Bloomberg. “Se houver menos projetos, isso aliviaria o excesso de oferta que haverá mais para o final da década e, potencialmente, pode aumentar os preços num contexto de menor procura por parte da Ásia”, acrescenta-se no artigo.

O petróleo sofreu uma forte queda no preço, tendo caído para cerca de 35 dólares depois de a Arábia Saudita, o maior produtor do mundo, ter decido baixar o preço, e de os mercados terem reagido à incerteza motivada pela rápida propagação do novo coronavírus em todo o mundo.

De acordo com a Bloomberg, há quase 20 megaprojetos que estão a procurar financiamento dos investidores internacionais, depois de um número recorde ter atingido o marco crítico da Decisão Final de Investimento (FID, na sigla em inglês) no ano passado, e já antes da queda dos preços do petróleo e das perturbações mundiais decorrentes da pandemia de Covid-19 “os promotores dos projetos estavam sob pressão devido à queda dos preços do gás, temperaturas quentes para o inverno e restrições na procura”.

Se os preços do petróleo se mantiverem em níveis historicamente baixos, isso terá um impacto real nos projetos de gás natural liquefeito que deviam aprovar a FID este ano, argumentou o analista da consultora especializada em energia S&PGlobal Platts. “Com uma pressão para a descida dos preços no gás natural e com os preços do petróleo já baixos, alguns projetos podem começar a parecer realmente pouco rentáveis”, disse Jeff Moore em declarações à Bloomberg.

“Até agora os agentes do setor têm pensado que os tempos são difíceis agora mas no futuro o mundo vai precisar de gás, por isso a conjuntura temporária não pode afetar as decisões estratégicas de longo prazo, mas se continuarmos com os preços em baixo, isso vai ter um impacto real na capacidade e vontade das empresas fazerem grandes apostas de capital”, comentou o diretor de pesquisa da Wood Mackenzie em Singapura, Giles Farrer.

Na quinta-feira, o presidente do Instituto Nacional de Petróleos (INP) de Moçambique, Carlos Zacarias, disse esperar que a queda do preço de petróleo no mercado internacional não tenha um impacto negativo nos investimentos no setor de gás natural no país. “Como regulador, espero que essa baixa de preço de petróleo não seja por muito tempo e não tenha impacto negativo no investimento”, declarou Carlos Zacarias. A queda de preços e o impacto da pandemia de Covid-19 coloca as empresas do setor energético em alerta, porque se trata de “situações sensíveis”, acrescentou Zacarias.

“Há compromissos [assumidos pelos investidores], mas há também desenvolvimentos que fogem do controlo dos atores do mercado”, disse o responsável.

A bacia do Rovuma, ao largo da costa da província de Cabo Delgado, Norte de Moçambique, espera investimentos que podem chegar aos 50 mil milhões de dólares (44,5 mil milhões de euros) na exploração de gás e que vão representar o maior investimento privado em curso em África. A exploração dos recursos de gás natural ao largo da costa Norte de Moçambique tem potencial para tirar o país do grupo de países mais pobres do mundo.