Desde que o surto do novo coronavírus chegou a Portugal — e com os números a aumentarem cada vez mais — o esforço dos profissionais de saúde tem sido cada vez maior. Em Santa Maria da Feira, onde até domingo tinham sido registados 13 casos positivos deste vírus, os médicos do Hospital São Sebastião tinham um pedido: que lhes fossem disponibilizadas tendas no exterior para poderem descansar mais perto do hospital. A Câmara Municipal da Feira ouviu o pedido, mas foi mais longe: arranjou quatro hotéis da cidade para que estes profissionais de saúde possam dormir mais próximos do centro hospitalar.

Num acordo informal feito com o município, quatro hotéis — Hotel Nova Cruz, Hotel dos Loios, Hostel da Praça e Hotel da Pedra Bela — estão disponíveis para receber profissionais de saúde que precisem de um local mais próximo para dormir. “Alguns vivem um pouco longe e estão muito cansados no final do seu turno de trabalho — que por vezes são dias sucessivos — e mesmo a ir para casa no final poderiam adormecer ao volante ou algo semelhante. Eles [os médicos] queriam umas tendas, mas eu disse que, para eles de facto descansarem bem e recuperarem, é muito melhor um hotel”, explica ao Observador o presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Emídio Sousa.

O autarca “rapidamente” falou com hotéis do concelho que pudessem acolher estes médicos e, acrescenta, “todos eles se disponibilizaram para dispor os quartos, se fosse necessário”. O primeiro hóspede é recebido já esta segunda-feira: “O diretor clínico do hospital vai ficar cá, porque é de mais longe”, revela.

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Com os profissionais de saúde que estão na linha da frente a lidar com este vírus, são também necessários cuidados redobrados. É por esse motivo que, por exemplo, uma das residenciais vai ter um dos pisos dedicados só a estes médicos. “Para não haver risco de algum contacto com outras pessoas, as refeições nunca serão feitas no espaço de restauração. O pequeno-almoço será servido nos quartos, perfeitamente separado dos restantes clientes e com as devidas precauções”, reforça o autarca ao Observador.

Para já, ainda não há um número concreto dos profissionais de saúde que vão utilizar estes hotéis, nem durante quanto tempo esta terá de ser uma solução. “É dinâmico, mas penso que vai aumentar. Vamos vendo conforme a evolução da situação”, acrescenta Emídio Sousa, deixando ainda um recado: “Se há pessoas que neste momento precisam de ter as melhores condições possíveis de recuperação são estes profissionais”.

A ideia inicial, quando a autarquia falou com os quatro hotéis, é que a estadia fosse arranjada de forma gratuita. No entanto, e como também os hotéis “vão ter uma grande quebra de receitas nesta altura”, pode surgir a possibilidade de a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira pagar o valor da estadia dos médicos. “Mas ainda nem falamos nisso”, sublinha o autarca.

Médicos “preocupados, mas com uma força enorme”

Além da necessidade de um espaço mais próximo para descanso, os médicos da zona de Santa Maria da Feira, que tem como hospital de referência a sede do Centro Hospitalar do Entre Douro e Vouga, estão preocupados com a falta de “alguns meios de apoio”, como máscaras descartáveis, “que podem esgotar durante esta semana”, alerta Emídio Sousa.

Apesar de estarem preocupados — e também com várias horas de trabalho em cima — o autarca reforça que os profissionais de saúde estão “todos com uma força enorme e com vontade de dar resposta” às situações que forem surgindo. “Todos eles estão em sentido de grande responsabilidade social, estão todos prontos para a luta. Vê-se neles um ânimo notável de trabalhar e de fazer bem as coisas”, acrescenta.

Emídio Sousa refere que será também montada uma tenda no exterior do hospital dedicada à triagem dos casos suspeitos de coronavírus e que estão à espera para saber o resultado. “Não podem estar todas no mesmo espaço e é preciso um equipamento para que essas pessoas estejam no exterior do hospital e separadas umas das outras para evitar algum risco de contaminação enquanto estão a aguardar informação”, explica Emídio Sousa.

Por outros lados do país, há também hoteleiros e proprietários de Alojamento Local que também estão a disponibilizar quartos aos médicos. No Porto, já estão à disposição dos médicos da cidade mais de 180 quartos, em coordenação com a Câmara Municipal do Porto. O objetivo é evitar o contágio “de ou às suas famílias”, refere a autarquia na sua página oficial. Além do isolamento, os quartos disponíveis são também mais próximos dos centros hospitalares.