Talvez seja impróprio, por estes dias, falar-se de realidades alternativas. Especialmente quando a alternativa se compõe com um cenário bem pior do que a realidade. “The Plot Against America”, a minissérie de seis episódios (estreia-se na HBO Portugal esta terça-feira, 17 de março) que adapta o romance de 2004 de Philip Roth – em português, A Conspiração Contra a América – propõe que em 1940 Franklin D. Roosevelt tenha sido derrotado nas eleições norte-americanas por Charles Lindbergh. Quem? Exato, quem?

Roosevelt teve um papel importante no destino dos Estados Unidos, particularmente durante a Segunda Guerra Mundial, e nestas realidades alternativas que a ficção propõe continua a desempenhar o mesmo papel. É assim em O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, com FDR assassinado em 1934 por Giuseppe Zangara, o que leva a uma vitória das Potências do Eixo e a uma América completamente transformada no pós-guerra. O livro, esse, também foi transformado em série, disponível na Prime Video com o título “The Man In The High Castle”. Não é só nos livros nem na televisão que Roosevelt tem tanto peso nas emoções das realidades alternativas, também acontece nos videojogos, como em “Wolfenstein”, onde o presidente tem uma relação próxima com B.J. Blazkowicz.

Em “The Plot Against America” – livro e minissérie – a derrota de FDR leva a que os Estados Unidos se tornem num país próximo dos ideais nazis, guiados por um presidente antissemita e que inicia um clima de perseguição logo após a sua eleição. A série segue a história de uma família judia, humilde, de Nova Jérsia, que no livro tem o apelido de Roth – o próprio a reimaginar a infância neste cenário — mas para a televisão ficaram com o apelido Levin, como uma forma de distanciar a ação do narrador – que, no livro, é um jovem Philip – e permitir uma dinâmica diferente entre as personagens que estão instaladas naquele universo.

[o trailer de “The Plot Against America”:]

A adaptação está nas mãos de David Simon e Ed Burns, que se conhecem de outras andanças como “The Wire” ou “Generation Kill”. “The Plot Against America” mantém também a tradição que David Simon tem de fazer uma minissérie depois de um grande projeto, foi assim com “Generation Kill”, logo após o fim de “The Wire”, com “Show me a Hero”, depois de “Treme” e agora é “The Plot Against America”, quando ainda se está a ressacar de “The Deuce”. É um território novo para Simon, explora uma realidade alternativa de um contexto passado para falar do presente. “The Plot Against America” é como uma réplica dos tempos que hoje se vivem na América de Trump, contados no contexto de um período que marcou fortemente a história mundial.

Mas quem é Charles Lindbergh? Não é uma invenção de Philip Roth, é uma figura que existiu e à qual Roth concedeu o poder do populismo para a ficção. Lindbergh era um militar da Força Aérea norte-americana que ficou conhecido por ter feito um voo sem paragens entre Nova Iorque e Paris em 1927. Um acontecimento traumático na família levou-o a exilar-se com a família na Europa e quando voltou para os Estados Unidos, em 1939, veio com muitas ideias formadas sobre a Alemanha Nazi e opiniões de não-intervenção do seu país na guerra. Roth pega nesta figura e reconstrói-a, transforma-o num populista do seu tempo. Alguém que acende uma fogueira desnecessária. David Simon viu aqui uma oportunidade para falar dos Estados Unidos da atualidade.

Lindbergh não é Trump e nem Trump é Lindbergh, mas esta “América” que David Simon e Ed Burns recriaram na sua série constrói-se à volta de um ideal de regressão em tempos de crise. A “América” do primeiro episódio apresenta-se como um país ainda seguro, com uma ideia de guerra distante, presente numa rádio que sabe trabalhar e apresentar aquilo que está longe. A “América” não parece ameaçada, crianças brincam nas ruas e as famílias pensam naquilo que um futuro próspero lhes trará. Não é idílico, é a normalidade. A ideia de normalidade que David Simon vai destruir para mostrar como nasce uma figura como Lindbergh e de como a rádio – os média – tornam o que está distante muito próximo e trabalham isso a favor do que é popular.

Este “The Plot Against America” conta uma história de transformação de um país e não uma realidade alternativa durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez esta seja a grande diferença entre a minissérie de Simon/Burns e outras que exploram realidades alternativas em volta do imaginário nazi – como “The Man In The High Castle” ou, mais recentemente, “Hunters”, também na Prime Video: “The Plot Against America” conta como um populista liga os pontos entre uma série de mal-estares invisíveis, que rapidamente ficam visíveis na miragem de um líder que lhes dê atenção. É uma América que vira para o desconhecido. Um desconhecido que hoje é muito presente.