Os tempos são adversos. Filhos pequenos exigem atenção dos pais. Filhos grandes exigem atenção dos pais. Pais grandes exigem atenção dos filhos. Casais confinados com o almoço e o jantar decidido durante semanas. As séries, por muitas e boas que sejam, também acabam. Os livros idem. Os olhos cansam-se. E nunca como agora as circunstâncias pediram tanta criatividade. Fechem artistas em casa e vão ver o que acontece. Acontece, pelo menos para já, o Festival Quarentena, que esta sexta, das 09h40 às 00h00, decorre através Facebook e que pode ser visto por qualquer ser humano que tenha acesso à internet e uma conta daquela rede social.

A ideia partiu da atriz e criadora Raquel André – cujo trabalho artístico se tem desenvolvido em torno do colecionismo e da exploração do corpo e das ideias como arquivo, amor, pesquisa – ainda antes de se ter colocado em auto-isolamento. “A ideia surgiu na semana passada, quanto tive o primeiro espectáculo cancelado, na terça-feira [Coleção de Amantes, que ia ser apresentado no Cultura Em Expansão, no dia 14, no Porto]. Ou melhor, foi adiado, mas sem data prevista. E aí tive assim um impulso de escrever no Facebook a dizer algo como ‘bora lá fazer um festival online’ inquieta com a situação, mas sem saber o que estava para vir. De repente muitos artistas começaram a responder a dizer ‘bora lá, estamos aqui’”, explica, ao telefone, pois claro.

Uma das primeiras pessoas que a contactou foi Daniel Pinheiro, artista do Porto que já antes de existir a necessidade de nos fecharmos em casa havia pensado o streaming como modelo de trabalho. A estes juntaram-se ainda Raimundo Cosme (ator, criador e co-fundador da companhia lisboeta Plataforma 285) para a ajudar na produção e Afonso Molinar para compor a imagem gráfica e o design do evento. O curioso e o que reforça a ideia de missão associada a estes tempos – o gosto por pensar diferente, por oferecer às pessoas presas em casa conteúdos artísticos que aliviem a impossibilidade de frequentar teatros e salas de espectáculos – é que nenhum dos 4 elementos da equipa se havia cruzado profissionalmente, alguns nem se conhecem sem ser via videochamada ou via Google Drive.

Se não há nada, façamos. É por aí. E foi por aí que Raquel André foi efetivando a ideia do festival, sobretudo quando o vírus da Covid-19 foi, gradualmente, insistindo e afetando cada vez mais portugueses. E não só:

“Na semana passada as coisas começaram a piorar e cancelaram-me as digressões todas de março e abril, uma delas era para os EUA, ia a um festival no Ohio, Cinccinatti. E depois coloquei-me em quarentena, porque também não tinha trabalhos e, portanto, achei que era o melhor”, conta Raquel.

O que vamos poder ver na sexta-feira são 41 trabalhos de várias disciplinas artísticas – música, poesia, sessão de culinária, performance, artes visuais, dança, leituras, improvisação, sessão de astrologia, vídeo – e que não foram escolhidos pela equipa do Quarentena. Isto é: foi feita uma open call, todos os artistas eram livres de enviar as suas propostas e isso era já em si uma garantia de que estariam presentes no festival. “Não escolhemos trabalhos, não há curadoria, todos as propostas vão acontecer, propus apenas que fossem trabalhos curtos, entre 5 e 30 minutos, embora existam exceções”, admite.

São 41 obras que se dividem entre autores portugueses e brasileiros, isto porque Raquel André estudou e viveu vários anos no Rio de Janeiro, o que a fez criar relações que reagiram à sua publicação no Facebook. Entre as várias propostas temos, entre outras, às 11h10 a performance Humanidade, tudo bem?, onde a atriz e criadora Carolina Serrão questiona o nosso mundo pós-Covid-19 como é que estávamos pré-Covid-19; ao 12h há uma criação culinária criada por Statt Miller, chamada COVIDo-te a experimentar, com um texto criado a partir das receitas culinárias do Pingo Doce; Piny, uma das artistas que não conseguiu apresentar-se no Festival Cumplicidades (também ele cancelado), muda o nome do seu espectáculo de HIP – A Pussy Point of View para HIP em quarentena – a resistência confinada; Júlia Salem apresenta, às 17h40 uma performance-talk Procedimentos para Falhar; às 20h25 Marco Paiva apresenta uma adaptação de Morrer no Teatro, de Alex Cassal, que há pouco tempo passou pelo TBA – Teatro do Bairro Alto; às 22h25 Carla Bolita apresenta uma mini-peça de dez minutos chamada Quarentona.

Como se pode perceber, são muitas e diversas, as opções. E o melhor: é que duram o dia todo, portanto faça a sua agenda para ver o que melhor lhe convier. Sobre o facto de isto tomar lugar no Facebook, Raquel André, diz o seguinte:

“Não estamos muito felizes por utilizar o Facebook, mas como plataforma mais democrática é a coisa mais acessível e, tendo em conta o tempo, tivemos que tomar a decisão de ser assim. Mas se isto continuar – que espero que não – talvez possamos pensar num outro serviço de livestreaming, mais profissional”.

É claro que isto traz uma série de outras questões para um meio que vive sobretudo da sua vivência ao vivo. “Trabalhamos para grupos de espectadores, se não encontrarmos uma solução para isto é assustador, por quanto tempo é que não vamos conseguir apresentar o nosso trabalho? No imediato já temos muitos problemas, quando me ligam a cancelar ou adiar um espectáculo, o adiamento não resolve o meu problema de agora, vivemos do que recebemos naquele mês, não temos uma rede de proteção ou uma conta poupança, como outros setores. Já me vai afetar o resto do ano não receber abril e maio. Temos de repensar novas formas, não acho que este festival seja uma solução e uma alternativa, as artes performativas são para ser consumidas ao vivo”, afirma Raquel André.

E nesse sentido, então, o que podemos fazer? “Acho que a solução mais correta é tudo o que está a ser adiado tem que ser duplicado, mais datas, e tem que haver um apoio aos artistas que tiverem os seus projetos cancelados, para não ficarmos dois ou três meses sem receber. Ao mesmo tempo, acho que temos que dar tempo para que os nossos políticos possam pensar, para depois falarem connosco e dizerem o que fazer. Enquanto classe artística acho que pode ser um bom momento para nos juntarmos, pensar, falar das problemáticas que já existiam no nosso sector e de repente pode ser um momento de renovação, mas eu sou esperançosa e positiva”, diz.